domingo, 30 de setembro de 2007

Contando histórias


Pois é... como disse a Kátia, algumas coisas conspiram a nosso favor...eu acrescento que nada é por acaso. Explico uma parte: além de ser professora de uma turma de terceiro ciclo, sou uma das responsáveis pelo Projeto Adote um Escritor, em minha escola. Portanto, literatura faz parte do meu dia-a-dia e de minhas tarefas. Faço contação de Histórias há algum tempo para crianças e adultos. Faltava-me contar histórias em hospitais, meu desejo há anos. Graças ao convite da colega Selva pude contar histórias para um grupo de crianças, pais e profissionais do Clínicas. E, agora, através da Mosqueteira Kátia, finalmente, inicio o processo de tornar-me parte da equipe de contadores do Hospital Santo Antônio. Minha escola, a faculdade, o Hospital... tudo entrelaçado...Por hora, encerro. Hoje desejo brevidade. Mas com algum registro fotográfico...

sábado, 29 de setembro de 2007

Alegrias



Hoje participei, mais uma vez, dos JOMEEX. São os "Jogos Olímpicos" dos alunos especiais, de todo o estado. Meu olhar é diferenciado, neste ano. Graças ao EAD, registrar os momentos para postá-los no blog, tornou-se um prazer e uma obrigação. Melhor, uma necessidade. Procuro captar o melhor ângulo , dentro de minhas referências, registrar momentos significativos e informar. Tornei-me responsável pelo blog da Escola e registro toda e qualquer situação que possa se transformar em registro de alegrias, dúvidas, sustos, conquistas e superações.



sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Salto alto, salada de frutas ou tin, tin, gordinhas!





Se eu pensar sob a ótica da "salada de frutas", devo mencionar um comercial a que assisti esses dias. Com o objetivo de alertar familiares e público em geral sobre a anorexia, trazia uma adolescente se olhando no espelho. E, lógico, a visão de uma pessoa anoréxica é bem distorcida. Fiquei pensando nisso. Fiquei pensando a meu respeito . Estou do outro lado do espelho, posso assim dizer. Faço parte das gordinhas, das gordas, das obesas, das fofinhas. Não deixo de ser um extremo, bem sei...
Ainda na "Salada de Frutas" preciso contar que, há muitos anos, eu e uma colega fomos a um Centro de Controle da Obesidade muito conhecido em POA.
Ao sermos entrevistadas pela médica responsável, ficamos bem impressionadas. Ela dizia "queridas, é preciso entender e aceitar que obesidade é uma doença...portanto vocês estão doentes. Muito doentes! Mas existe salvação..."
Minha amiga prestou atenção na mensagem enviada. Eu, prestei atenção nos detalhes: a carga de dramaticidade que a médica usou me fez morder os lábios rapidamente. Meu Deus, eu ia rir!
Ela continuava de forma enfática, nos fazendo perguntas e nos diagnosticando: "sem namorado atualmente? Ah...sei... , pais separados...hum, hum... não gosta de legumes... NÃO GOSTA MESMO??? Gosta de ler, que bom... fica lendo em casa e não caminha, não é?"
Maximira já começava a se aproximar da deprê, "encaídando" os olhos e mexendo rapidamente as mãos sobre o colo. Eu, caso perdido, ouvia (deixara estampada em meu rosto uma fisionomia de interesse e concordância) e fazia o que mais me agradava: especulava.
E entre tantas coisas, pensei que aquela médica poderia ser, também, uma atriz. Mais tarde, notei seu sapato com saltinho fino. Gostei daquele sapato.... (Gordinha como eu estava, conseguiria equilibrar-me por muito tempo em um salto daqueles?)
A entrevista foi se encaminhando para o final quando ouvimos o preço do pacote: nossa! Certo, faríamos uma semana intensiva em um hotel spa, da serra gaúcha. Sem contar os exames, as caminhadas orientadas já em Porto Alegre...
No mesmo momento, internamente, Maxi e eu fazíamos cálculos: ela calculava todas as possibilidades existentes para conseguir aquele valor. Eu, calculava de que forma iria encerrar a entrevista deixando uma frase tipo "entraremos em contato. Obrigada." Despedimo-nos da médica com elogios ao programa e falso indicativo de que voltaríamos.
Na frente do casarão nos olhamos e começamos a rir. Maxi propôs: "Vamos comer uma pizza?" "Claro!"
Maxi e eu trabalhávamos na mesma escola particular. Ela se apaixonou por um de nossos colegas. Ele era apaixonado pelo seu trabalho. Maxi achou que o fato de ser gordinha ( muito menos do que eu!) era o fator determinante no seu fracasso amoroso. E, escondida de todos, começou a tomar inibidores de apetite.
Eu saí da escola e não mais a vi . Anos depois, fiquei sabendo que ela falecera. Ao visitar seus pais tive a noção exata e tardia de como era a angustia de Maxi: ela falecera por excesso de remédios. Tivera uma overdose.
Eu tinha esquecido de tudo isso. Mas hoje, ao acordar sem a tosse característica da coqueluche que me "visitou", senti-me, desde o momento em que coloquei os pés no chão, poderosa! Sim, "acordei de salto alto"! Nada me abalará! Vou ler e enviar meus e-mails, fazer as atividades necessárias no Rooda, ouvir música, conversar com alguma das Mosqueteiras, passear com o Lu, brincar com a turma canina...sei lá! Eu me olhei no espelho e gostei do que vi, bem mais do que em outros dias.
Sei, uma gordurinha aqui, outra ali...outra lá...outra acolá... outra escondida, outra perdida, outra apertada, outra recém encontrada... quase todas não desejadas... Preciso emagrecer por uma questão de saúde, principalmente. Acho que em breve, depois de comer uma pizza, vou começar mais um regime...Quem sabe?Mas não serei uma escrava da balança, sou muito preguiçosa para isso.
Você, que está me lendo... Qual é o seu time? Seja qual for, saúde! Vamos saudar os magrinhos, os gordinhos, os altos, os baixos, os mancos, os quietos, os falantes... Não esqueçamos que os excessos fazem mal... Mas não deixemos de nos amar! E falando nisso, encontrei essa gordinha maravilhosa em minhas andanças virtuais: Jennifer Larmore!
Tin-tin! Saúde!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Comentário nacional

Muitos comentários, notícias e discussões sobre o filme Tropa de Elite. A discussão nacional procede e vale a pena conferir.

O filme é baseado no livro "Elite da Tropa".

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Pavarotti e "Mãe de Deus"

Saí de casa com uma certa resistência: por mais incrível que pareça, naquele momento, eu pensava que estava em dívida com Pavarotti. Sentia necessidade de escrever algo em meu blog, sobre ele, sobre sua partida... afinal, no mês anterior , diariamente , sua voz ao cantar Nessum Dorma, tocava fundo nas ondas agitadas que se tornava a mente de um de meus alunos. Ouvindo-o, o adolescente se acalmava, relaxava, parava de gritar e tentar machucar a si e aos que estavam próximos. Como não falar em Pavarotti?
Mas meu marido, com sua insistência, venceu e saímos rapidamente de casa. Nosso destino ficava do outro lado da cidade. Ao chegar na sala já minha conhecida, utilizei o mesmo mecanismo de alguns alunos lá da escola: fixei minha atenção no espaço físico, procurando reconhecer objetos e verificando se houvera alguma mudança. Concentrei-me, antes mesmo de responder aos cumprimentos, nas poltronas. Lá estavam elas! Poltronas grandes, reclináveis e confortáveis. Poltronas cinzas com rodinhas vermelhas. Perfeito! Agora eu ia escolher o meu lugar.
Olhei as pessoas que já estavam acomodadas e percebi que entre um homem de olhos fechados e rosto virado para a parede e uma velhinha de aparência gentil, havia uma possibilidade... Sentei-me, refletindo que o homem não teria nenhuma condição de conversar e que a velhinha provavelmente só iria sorrir ou, nem isso. Talvez estivesse com mais receio do que os outros, sentindo-se sozinha... neste caso, eu abdicaria do meu voto de silêncio e tentaria distrair sua atenção, se a tosse me permitisse. Era muito importante fazer um rápido reconhecimento e escolher estrategicamente o lugar onde sentar pois eu tinha noção de que ficaria no mínimo umas cinco horas por ali...
Próxima etapa: observar discreta e rapidamente as outras poltronas. A sala é dividida em dois ambientes. No primeiro, onde eu sentara, havia oito poltonas. Nas cinco à minha frente estavam sentadas quatro mulheres e um senhor de aproximadamente 80 anos. Uma, a mais jovem , estava de abrigo e tênis. A outra, ao seu lado, vestia uma blusa lilás que chamou minha atenção. Calçava uns tamancos de plataforma. As duas regulavam a idade: por volta de trinta anos. Na poltrona do centro, uma idosa que saiu pouco tempo depois: cabelos tingidos e olhos atentos, controladores. Observava os responsáveis pela sala com certa desconfiança( o que eu traduziria em medo, pela situação em que se encontrava). Ao lado dela, sentadinho de olhos fechados e expressão de muita dor estava o Seu Ari. Fiquei sabendo logo o seu nome pois todos que estavam à trabalho perguntavam "Passou um pouco, Seu Ari?", "Ainda dói muito, Seu Ari?" Ao que ele respondia com balançar de cabeça. Parecia um Papai Noel desnutrido, fraco... mas os indícios de uma vida bondosa "estavam fortes" através de suas tentativas de sorriso e dos frágeis agradecimentos a quem lhe dava atenção. Gostei dele e adotei-o mentalmente. Durante todo o tempo que estive a sua frente, enviei-lhe sorrisos e olhares ,procurando demonstrar que eu observava e , de alguma forma, entendia a sua situação.
Por último, uma senhora de aproximadamente 50 anos, coberta com o seu casaco. Estava de abrigo de passeio . Gostei do tênis dela mas achei-a antipática. Reconhecimento feito em poucos minutos.
Comecei a tossir novamente e lá veio um dos rapazes com uma bandeja na mão , certificando-se de meu nome: "Dona Maria Beatriz?" - "Eu mesma, sem o o Dona." - "Ok, Maria Beatriz... agora eu vou te machucar só um pouquinho, certo?" Por entre tosse , brincando e já esticando o braço... "Nem pensar, meu amigo... vim aqui pra dormir nessa poltrona e já vou avisando: minhas veias são 'bailarinas'." Gilberto, esse era o nome dele, sorriu e respondeu "hum...veias de nenê...difíceis de encontrar..."
Na quarta tentativa, encontrou. Enquanto virava o rosto para não olhar a agulha entrando em minha pele eu pensava no Lu, que estava me aguardando em outra sala. Provavelmente, ouvindo música com os fones de ouvido e tentando, frente a outras pessoas, disfarçar a apreensão. Em todas as minhas idas sempre ficamos assim: ele extremamente preocupado por minha causa e eu, por minha situação e, também pela dele, que sempre vem acompanhada de um grande sentimento de impotência, de querer fazer mais do que consegue. Esse sentimento não o abandona: sei que , antes mesmo de ser atendida pelos médicos, ele já fantasia diagnósticos complicados.
Na verdade, tanto ele como eu (e milhares de pessoas) não conseguimos lidar muito bem com hospitais. Mas devo admitir que utilizo vários mecanismos de defesa e disfarço de forma bastante satisfatória.
A cortizona já começava a circular em minha corrente sanguínea... pensei sobre isso, "deixei" o Lu ouvindo música e lembrei do Pavarotti. Antes de sair de casa eu dera mais uma olhada no blog da Neusa. Ela fizera uma postagem sobre o tenor... senti-me, brevemente, representada pela minha amiga.
Observei que os rapazes da sala, pela altura, poderiam estar numa quadra de basquete. Mas estavam ali, conosco, e tentavam minimizar nossas dores de várias maneiras. Junto com os medicamentos , um deles distribuia sorrisos e dava tapinhas confortadores nas mãos dos mais idosos. O mais sério era rápido, respondia a todos sem deixar de verificar temperaturas e aplicar injeções. Ao contrário de Gilberto, não olhava nos olhos dos pacientes. Mas era ele, juntamente com uma colega, que firme e educadamente retirava os parentes mais afoitos que insistiam em permanecer na sala, atrapalhando a circulação e demonstrando o nervosismo comum de quem gostaria de tirar a dor e doença de seu ente querido. Só nestes momentos, ele olhava nos olhos dos familiares.
Gilberto era o gozador: tinha noção de que era divertido e procurava desviar a atenção de quem atendia. Achei engraçado quando se dirigiu à moça de lilás e disse: "tenho duas notícias pra te dar: uma é tchan a outra é...tchan-tchan. Qual quer primeiro?" Entretanto, a "Lilás" estava tão desorientada que só ficou olhando para ele. E ele continuou: a notícia-tchan é que vais ter que fazer uma medicação na veia do braço e a tchan-tchan é que precisas fazer na nádega também. Qual vai querer primeiro?" O jeito com que falou lembrava muito um vendedor ambulante e, acredito que até ela percebeu porque deu uma risada baixinho e disse que preferia primeiro a menos dolorida. "Braço!" ele respondeu. É... ele poderia ser um pivô de um time de basquete, distribuindo as jogadas... chamou uma das atendentes e disse "o tchan-tchan é teu". Por alguns minutos nem lembrei de dor nas costas, tosse, vômitos. Só fiquei observando a performance do rapaz.
O time era composto por cinco. Os rapazes e duas moças que não "solavam" tanto quanto eles. Ficavam mais no "coro". Mas cada qual demonstrava saber muito bem a função de cada um: quando uma outra senhora com saltinho agulha e olhar de "venham todos me atender" fez sua primeira das muitas exigências , Gilberto se afastou e deixou que o Sério assumisse a bronca. Quando Seu Ari começou a chorar enquanto tirava sangue, com uma das moças, foi o "Tapinha nas Mãos" que se aproximou e afagou seu ombro. Também foi ele quem buscou a filha de Seu Ari, para confortá-lo e acalmá-lo .
Nesse meio tempo, o velhinho se desculpava por chorar e explicava que fazia quimioterapia e que seus braços já estavam doloridos, sua pele não aguentava mais tantas espetas das seringas.
Mesmo sensibilizada não deixei de pensar que Seu Ari tinha o privilégio, como nós, de ter, no mínimo, um convênio. Relembrei de alguns de meus alunos e suas mães que esperam meses por um atendimento. Aí, "saltei" para Pavarotti, de novo, imaginando que tipo de paciente ele fora. E refleti, que ele se fora mas jamais deixaria de ser imortal. Estaria sempre conosco, através de tudo que fez. "Serviço feito...e bem feito" ele poderia dizer, ao chegar em sua nova morada.
Tenho uma amiga que brinca dizendo que, na sua morte, vai subir até o Céu e marcar uma hora com Deus. Só fará uma pergunta, após sentar em sua frente: "Mas Deus...pra que tudo aquilo, lá embaixo?"
Eu acho que o tenor nem precisou marcar hora ao chegar. Após um período de descanso deve ter recebido muitos convites pra cantar no céu.
O tempo passara e eu já estava em minha segunda nebulização. Até o momento de minha saída, às 21h, ainda faria mais duas nebulizaçoes e três exames.
Meu braço começou a formigar, coração acelerou e a visão ficou turva. Pensei: "me sedaram! Droga!" Chamei o "Sério". Disse-me ser efeito do medicamento e que logo iria passar. Sem preocupações, eu estava "sendo monitorada'. ("Ah, tá! O Pavarotti também estava...")
Dormi. Ao acordar, tinha novos companheiros nas poltronas cinza. Cadê o Seu Ari? E a velhinha muda, do meu lado? E a "Salto agulha"? Em minha frente, um cara musculoso e tatuado. Pressão, ele dizia. É a minha pressão. Enquanto isso, na entrada, "Sério " explicava a uma familiar os motivos pelos quais não poderia ficar na sala.
Independente de quem sejamos, de como estamos vestidos, que acessórios colocamos ou, não... nestes momentos, quase sempre todos comungam de sentimentos parecidos: receio, dor, tristeza, impaciência, agradecimento, impotência. A velhinha cuja filha insistia em entrar falava de seu arrependimento em relação ao marido: deveria tê-lo abraçado mais nos últimos meses antes de sua morte, deveria conversar sobre coisas alegres para fazê-lo mais feliz. Mas não conseguia... Da porta a filha sinalizava para que a mãe se acalmasse. Novamente "Tapinhas nas Mãos" surgiu, permitindo a entrada, por breve período, da filha. Após conversar baixinho com a mãe, deu-lhe um abraço e disse que estaria esperando.
A médica que me atendera na chegada, fora verificar como eu estava. Conversou um pouco comigo e com outros pacientes.
Seu Ari voltou do exame e sentou ao meu lado. Contou-me das idas dolorosas á quimioterapia e de como sentia falta de sua mulher que casara com ele aos 18 anos e ficara em sua companhia até os 65. Muito tempo depois de ter saído do hospital pensei que mais forte que o câncer que lhe corroía era a saudade de sua companheira. Há alguns anos atrás , o Lu me disse que seu projeto de vida mais importante era envelhecer ao meu lado, serenamente. Fiquei pensando nisso e em outras coisas, outras planos, outras palavras... Pensei, que apesar da dor eu poderia me considerar uma pessoa feliz.
Com a certeza de que eu saíria do hospital, de que meu marido me aguardava e , que juntos iríamos para casa, as nove horas que permaneci entre exames e sala de medicação foram rápidas, até. Ter a consciência de que seu problema não é o único e de que existem pessoas para amenizar a sua dor é um alento. Não perder a consciência e humanidade é importante. Difícil, para alguns...mas necessário para todos.
Pavarotti fez a sua parte, o quinteto da sala de medicação fazia o melhor que o tempo e as condições permitiam, Seu Ari fez a sua parte com esposa, filhos, netos e um bisneto a caminho. De alguma forma, enquanto não partir pra me encontrar com a Outra Turma, faço o melhor que posso. Quando chegar frente a Deus vou dizer "Serviço bem-feito. Tem mais algum?"

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Para Chaine...

Energia Pura. Assisti há muitos anos atrás. Ao recordar, ainda hoje, me emociono com a cena em que o caçador consegue sentir exatamente o que sua presa sentiu ao ser abatida...
Chaine, acho que ias gostar deste filme, sabe...