segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Surfista de pátios
Ao abrir os braços, oferecer o rosto ao vento, estufar o peito e gritar parecia estar livre de amarras sociais, familiares ou profissionais.
Na mesma hora, lembrei da cena do filme Titanic em que a dupla principal abria os braços e se equilibrava em uma das partes do navio. Na verdade, Leonardo di Caprio segurava sua parceira.
Braços abertos, vento no rosto, busca de afirmação, sentimento de coragem , impetuosidade, transgressão à regras... algumas coisas em comum.

Pouco tempo passou e eu relembrava de outra passagem de um filme:
Forrest Gump deixava para trás o peso de suas botas, de seus medos, das humilhações vindas da infância: corria para a liberdade ou, penso, para uma estrada que poderia ser a concretização de seus desejos.
Fiquei com estas imagens e com minhas conjecturas, por alguns dias.
Então, aconteceu algo que me fez relembrar de outra cena. O que aconteceu, conto depois. Mas, a cena relembrada, compartilho já adiantando que a personagem principal era uma menina de seus cinco anos, por volta de 1966.
Ela burlava o controle materno pulando pequenos muros e esgueirando-se entre frestas de cercas. Em cada pátio se aproximava dos cachorros, abria os braços e ficava frente a eles, esperando...
Alguns vizinhos reclamavam com sua mãe, "rosnavam" para ela que a criança quase fora mordida, que era teimosa e rebelde, que desobedecia os limites impostos por cercas, muros e grades.
A mãe repetia exaustivamente as palavras dos vizinhos acrescentando ordens, súplicas e, até, castigos. Alguns cachorros se mostraram não receptivos e morderam a menina que, geralmente, era salva por um adolescente, vizinho, e que tomara para si a tarefa de "controlar" a pequena criatura de cachos pretos. Foi nessa época que ela ouviu a palavra vacina e sentiu na pele a dor que a acompanhava.
O que a menina queria, na verdade? Não sabia explicar ,mas ao abrir os braços, na frente dos cachorros, não tinha um pingo de medo...apenas se sentia feliz.
Volta e meia, davam falta da menina e a encontravam em algum pátio, abraçada a um cachorro, falando em seu ouvido e, muitas vezes, sendo lambida por um deles. Até um dos cachorros, com fama de durão, se tornava manso e oferecia o dorso para ser acariciado, quando recebia sua inesperada visita. O padrinho da menina balançava a cabeça e, disfarçando um certo orgulho, repetia "ela não tem medo. Quer domar os cachorros". Fato era , que ela causava espanto em muita gente .
Uma observadora vizinha dizia que ela tentava encantar os bichos. Não era verdade: aquela criança estava encantada por eles. A transgressora, confusa, teimosa, apaixonada pelo vizinho-adolescente-salvador, aquela que abria os braços em cada pátio fazendo com que algumas pessoas questionassem sua sanidade...aquela era eu.

Humberto Maturana é um curioso. E foi pela curiosidade e desejo em conhecer mais, que estudou Biologia.
Quando fala em "biologia do amar", se refere à confiança em que o ser vivo recebe, nas relações construídas, no que alicerça a vida de cada um e, também, do que é construído através das relações do ser com os outros.
Somos resultado de nossas relações e da forma como somos criados. Segundo ele, "se você observa a história de crianças que se transformam em seres, (...) anti-sociais, vamos descobrir que sempre tem uma história da negação do amar, de ter sido criado na profunda violação de sua identidade, na falta de respeito, na negação de seu ser."
Fico pensando em como eu fui criada, em que me tornei, nas coisas que gosto e das coisas que desgosto. Fico pensando na relação de Maturana com as cenas dos filmes relembrados e dos braços abertos...
Acho, que eu era uma pequena e confusa surfista de pátios, testando a coragem e a confiança adquiridas nas relações com os adultos que me cercavam.
Daquele tempo, talvez, eu tenha trazido a persistência e o amor incondicional pelos animais.
Será que eu já contei que escrevi uma carta para cada um de meus alunos de primeira série, em 1979? Que deixei a carta com seus pais, em dezembro do mesmo ano, quando se despediam em direção à segunda série, com a recomendação que fosse entregue a eles nos seus aniversários de 18 anos?Pois é, fiz isso. Em cada uma das cartas eu me reapresentava e contava como era aquela criança, minha aluna, no período em que se alfabetizou: do que gostava, situações engraçadas ocorridas em sala, algumas de suas falas, seus desejos, seu jeito infantil de encarar o mundo.
Pois, no finzinho da década de 90, recebi alguns retornos: fui reencontrada por alguns de meus alunos. Uma me reconheceu em um restaurante: relembrou da carta, de colegas, de brincadeiras que eu fazia, das músicas que ensinava... Apresentou-me sua família: marido e filha de três anos. Fez questão de me informar que continuava adorando ler e que se formara em jornalismo.
Outro ex-aluno me encontrou durante um Seminário de Educação. Saíra rapidamente da banca onde vendia os livros da editora em que trabalhava e fora ao meu encalço, perguntando se eu era a "tia Bia, da ACM". Eu era. Eu fui. Fiquei sabendo que ele tinha dois filhos e que guardava para o mais velho um presente que recebera no dia de seu aniverário de 18 anos: uma carta da professora que o alfabetizara. Fabiano, esse é o seu nome, me dizia que , embora sendo o único presente que recebera naquela data, fora um dos melhores momentos de sua vida: resgatava palavras de uma pessoa que lhe ofertara muito carinho. Então, iria presentear o filho com a mesma carta, dizendo que o mais importante não era nenhum bem material mas, a certeza de ter sido especial , a certeza de que alguém depositava nele esperança e confiança. Choramos um bocado, neste dia...
Por último, um rapaz que trabalhava como atendente em uma ferragem. No dia em que me reencontrou estava na frente do trabalho oferecendo um pastel para um cachorro faminto. A cena me sensibilizou e fez com que eu diminuíse os passos o suficiente para provocar uma sensação de reconhecimento no jovem. Contou-me que gostava tanto de animais que, muitas vezes, deixava o balcão de atendimento pra oferecer água aos vira-latas sedentos que passavam. Já recolhera mais de cinco cachorros e os presenteara à sua namorada. Ri e falei que entendia muito bem o que ele sentia. Como resposta, me olhou e disse " a senhora foi minha professora". E me falou da carta.
Mais de vinte anos depois eu recebia alguns presentes... entre eles, a constatação de que aquela surfista de pátio conseguira ensinar um pouco mais do que letras e números. Eu me via em meus alunos. Sabia que, de alguma forma, cada um surfava nos pátios da vida usando o carinho recebido, por uma professora recém formada, como uma espécie de combustível interno. Pois não é o tipo de relações, a forma como somos tratados e como reagimos, que nos faz Ser? Maturana sabe...
Lembra quando falei que algo acontecera e fizera com que eu começasse a relembrar algumas cenas? Então...
Na verdade, na sexta feira , dia 19, pouco antes da meia noite, em meu colo, Beethoven começou a se despedir . No dia 20, conduzido pela veterinária , se foi...
Lu e eu o trouxemos de volta para casa e escolhemos o lugar onde seu corpo seria depositado: entre folhas e arbustos, perto do nosso fusca, em frente à janela de nosso quarto.
E, enquanto esperava o Lu cavar o seu espaço, eu relembrava de tudo isso: assisti Titanic e , ao voltar pra casa, ao abrir a porta, lá estava o orelhudo me esperando. Forrest Gump correu nas telas dos cinemas e eu corri com Beethoven latindo ao meu lado, em muitos momentos. (Nossa... "eu corri"! Quanto tempo já se foi... agora eu não corro... estou aprendendo a caminhar com passos mais tranquilos.)
Pensando bem, ele acompanhou 18 anos de minha vida, resignificando-a para algo bem melhor. Com a chegada de meu marido, adotou-o, também.
Agora, como eu acredito, está entre folhas e arbustos, cheirando, cavando e fazendo xixi.
Enquanto observava meu marido cavar, ia me despedindo de partes do que fui: uma pequena transgressora, uma menina apaixonada por um "vizinho-herói", uma jovem que corria pelas calçadas do IAPI imaginando ser Forrest Gump, da professora que transbordava suas emoções sobre folhas de papel envelopadas... eu me despedia e, ao mesmo tempo, abria outras portas para que novas partes fossem acrescentadas.
Pela enésima vez, o Lu perguntava se eu estava bem. Sim, eu estava. Faltava um pedaço, como diria Djavan, mas eu estava. Pensando bem, não tenho interesse, hoje em dia, em correr. Mas ainda abro os braços, buscando sentir a coragem do vento, me oferecendo para vida... ainda hoje, eu sou uma surfista de pátios.
Valeu, Thothoven!
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Sempre não é todo dia
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Do Livro dos Abraços, um mar de fogueirinhas
da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou.
Disse que tinha contemplado lá do alto
a vida humana.
E disse que somos uma mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso - revelou - um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre
todas as outras.
Não existem duas fogueiras iguais.
Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas
e fogueiras de todas as cores.
Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento,e gente de fogo louco,
que enche o ar de chispas.
Alguns fogos, fogos bobos,
não alumiam nem queimam;
mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar,
e quem chegar perto pega fogo".
Eduardo Galeano
Pois fiquei pensando, ontem,antes de dormir, na manhã de domingo, Dia de Valores no hospital. Relembrei da alegria dos familiares nos quartos, dos agradecimentos emocionados de alguns, do abanar de cabeça triste de um "jovem talvez pai" ao lado de uma criança na UTI, do início de choro de um menino ao ver a bruxa (o que fez com que eu saísse de mansinho...sim, ela era eu.), de outro menino que nos seguiu durante as apresentações em um dos andares, da família castelhana que abriu a porta do seu quarto com restrições, para que pudéssemos, do corredor, encenar nossa peça, cantar, brincar e deixar uma mensagem de alegria.
Com uma pintada a mais de satisfação, também resgatei imagens de uma de minhas afilhadas do Viva participando como Rena, em outro grupo de Valores. Ao mesmo tempo, fixei em minha mente o sorriso generoso de minha própria dinda: Madalena,que entrava em cada quarto apresentando todos os personagens e coordenando a brincadeira.
Nosso grupo tinha como Valores-Tema a Alegria e a Felicidade. Nossa peça durava menos de 2 minutos mas era tempo suficiente para que vilões e mocinhos de histórias infantis surgissem abraçados, comemorando o Natal e enfatizando que o mais importante é a união, alegria , felicidade e amizade. Assim, Eu-Bruxa, fiquei boazinha e entrei em cada quarto, após o chamado de um lindo palhacinho, de braços dados com a Fada . E o porquinho e a Chapeuzinho entravam abraçados ao lobo cantando "ninguém tem medo do Lobo Mau , Lobo Mau, Lobo Mau..."
Por último, nos despedíamos cantando um funk de Natal.
Dormi com o propósito de realizar no outro dia, uma postagem sobre nosso dia de Valores. Ao acordar, relembrei de um fato que mobilizou todo o grupo: no saguão da UTI, assistindo a nossa mensagem, uma mãe chorava. E foi no abraço que fiz questão de oferecer-lhe, assim como as colegas, que senti um pouco do seu desespero e de sua dor.
Abraços não precisam vir acompanhados de palavras, em alguns momentos... mas, se elas, as palavras buscam forças para se fazer presente...
Lembrei do Livro dos Abraços e de uma passagem que diz sermos um mar de fogueirinhas. Olhando nossas fotos, observando cada uma participante do grupo, confirmo as palavras escritas por Galeano: "não existem duas fogueiras iguais".
Mas, a união, o conjunto das labaredas pode ser um bonito espetáculo e trazer felicidade aos olhos de quem precisa. Participar como voluntária do Viva e estar próxima de chamas tão intensas, me preenche, me satifaz e me "encharca" de alegria.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Tudo aquilo que brilha...
Não esqueçam de manter os olhos brilhando!
Um beijo carinhoso
Hilda Alevato
Fim de ano se aproxima e , parece-me, a necessidade de avaliar alguns fatos e relembrar momentos, também.
Em novembro, participei de uma reunião no Santander Cultural e assisti a algumas pessoas falando sobre Educação Indígena. Mais especificamente sobre o livro Povos Indígenas e Educação.
Pois, logo lembrei da mensagem carinhosa enviada pela Dra. Hilda Alevato às Abelhudas Pedagógicas, por ocasião do trabalho sobre Sress(PA). A professora organizadora do livro tinha os olhos brilhando. Em toda a sua fala, registrei a paixão pelo que fazia, pela sua pesquisa, pelo objeto pesquisado, pela vida. Ela falava e sorria com o olhar.
Uma coisa me intrigava: de onde eu a conhecia? Apenas alguns minutos e eu já encontrava a resposta:
Maria Aparecida Bergamaschi, professora da disciplina de Estudos Sociais, do PEAD. Aí, lembrei dos trabalhos, dos fóruns, dos comentários, de tempo e espaço...
Com certeza, ela mantém os olhos brilhando! Foi muito bom ter sido sua aluna.



