domingo, 31 de dezembro de 2023
CAMINHADAS
domingo, 3 de setembro de 2023
Ele disse, em uma de suas entrevistas, que "o essencial é o que se esconde atrás do gesto...aquilo que está escondido à espera de ser desvelado."
Relembro de suas regências e do vigor de seus movimentos, de seus cabelos escuros que balançavam acompanhando seus movimentos...Passou um tempo em Porto Alegre, como regente da saudosa OSPA.
O que se esconde atrás do gesto? Fico pensando que muita coisa pode se esconder mas, também, outras tantas já estão desveladas no próprio movimento...são muito claras e certeiras em suas mensagens.
Sempre observei com atenção a performance dos regentes de orquestras e corais. Por vezes, muito mais que a melodia compartilhada, era a entrega do regente àquele momento que chamava minha atenção. ]
Já antes de meus 10 anos, eu acompanhava meu padrinho, nos domingos de apresentação da OSPA, no seu melhor espaço, localizado ali na Av. Independência. Meu padrinho saboreava a Música e eu observava o regente, intrigada com sua entrega . Gosto de observar muito mais do que falar, embora não pareça.
Isaac Karabtchevsky desapareceu do meu olhar por décadas, embora eu soubesse da continuidade de sua paixão em outras terras. Mas a imagem que eu gravara era a do homem de cabelos escuros, jovem, com vigor e energia.
O tempo passa, não é? Os cabelos embranquecem, os movimentos ficam mais difíceis , o corpo pesa, a energia não é a mesma...ela se transforma.
O que se esconde atrás do gesto? Em certos casos, o que se esconde não se esconde...se mantém. A energia o vigor, a paixão pelo seu fazer se transformam, se adequam a um "novo velho corpo"...mas continuam ali.
Em momento em que refaço caminhadas e promovo avaliações recebo gestos de carinho, amizade e continuidade. Sobre a tal continuidade, falarei em outra postagem.
Mas sensibilizou-me muito o carinho enviado por uma pessoa que a Vida me trouxe há anos atrás, quando necessitava sair de meu apartamento e morar numa casa com espaço para meus pets. Junara, dona de imobiliária, surgiu e se transformou numa querida amiga.
Pois foi ela que me enviou um vídeo onde, um maestro , ao ir realizar exames em um hospital encontra um coral de voluntários. O senhor de cabelos brancos, corpo nitidamente debilitado pelo Tempo, reencontra o que sempre esteve escondido atrás do gesto... Salve Isaac Karabtchevsky!
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
Conhecendo as manhas e as manhãs , sabendo que é preciso a chuva pra florir
Como escrevi, agora há pouco, para uma querida colega, "tenho pensado muito na finitude das coisas, ultimamente...do Tempo, das oportunidades, das companhias e amizades..."
Ao contrário da música ,eu ando depressa porque , sim, tenho pressa. Sou de Áries...
O QUE ANTECEDE A PARTE PRIMEIRA...
Entre tantos cachorrinhos, que estavam dentro do cercado esperando adoção, aquela pequena se destacava : com uma postura calma, aguardava as carícias e atenção. Não disputava com os outros que saltitavam na cerca, ao contrário, permanecia mais afastada e atenta. Se destacava e, ao ser chamada, corria para receber carinho, olhando fixamente nos olhos de quem a segurava.
Comentei baixinho: "Minha nossa...ela é especial. Tem perfil para ser petterapeuta..." Ao meu lado, a responsável pelas adoções sorriu e questionou: "Então, que tal adotar essa mocinha?"
"Não posso. Vou viajar daqui a algum tempo..."
"E ela não poderia ir junto?"
Sorri e expliquei "sou tutora de um bando. Não posso, realmente..."
PARTE PRIMEIRA
Décadas atrás, uma de minhas professoras da faculdade propunha que escrevêssemos do que somos feitos...DO QUE VOCÊ É FEITO(A)? ESCREVA SOBRE...
Escrevi que era feita de canetinhas Pelikan e chocolates Kri degustados na última fila de classes, no fundo da sala de aula...em todos os meus anos iniciais, na escola. Lá, onde sentavam os diferentes, os bagunceiros, os não tão populares, os desafiadores para alguns, os excluídos, para outros...
Fui da "turma do fundão" por muitos anos. Ali , me fortaleci e aprendi a rir de minhas aparentes dificuldades. Um dia, resolvi sair de lá. Sentei bem na frente, quase encostando na mesa da professora e olhando direto em seus olhos, sempre.
Fiquei ali por bom tempo, até perceber que meu lugar sempre seria onde eu quisesse estar.
Hoje, percebo ser feita das dificuldades que vivi, da força com que sobrevivi, das leituras, dos sonhos, das conquistas...sou feita das canetinhas Pelikan, chocolates Kri, de todas as bibliotecas que percorri, das caminhadas em direção ao mar, de mãos dadas com meu padrinho. Sou feita de livros que li, de filmes que assisti, pessoas que conheci e de todos os bichos com quem convivi. Lembro de Maturana...
Daqui a algum tempo, vou viajar...
Sou feita das séries que assisti: Ally McBeal e seus companheiros singulares, se encontrando no final da tarde no bar localizado no mesmo prédio onde trabalhavam. Ally e Biscoito , o advogado franzino, que sonhava ser Barry White, ao se observar no banheiro da firma, em frente ao espelho.
Quem somos? Quem queremos ser? E o que fazemos para isso acontecer?
Dia desses, busquei o último episódio da última temporada do House (sim, assisti todas as temporadas!)
Queria relembrar da cena em que os dois amigos saiam de moto, em viagem não tão programada, mas não tão inesperada. Queria ouvir aquela trilha sonora que os encaminhou para o final da série. E assim que concluí meu objetivo me dei conta das várias vezes que busquei o final da trilogia de filmes A Barraca do Beijo, indicada por uma de minhas divertidas ex-alunas adolescentes: "Profeeeeee! Sabe aqueles filmes da Barraca do Beijo? Não??? ASSISTE,PROFE! É TUUUUUDO! Aqueles filmes me representam!!!"
"Sério?", perguntei, surpresa. "Vou assistir, lógico!
Assisti. E o que ficou foi a última cena da última parte da trilogia, quando a dupla principal desliza sinuosamente pelas curvas de uma estrada, com suas motocicletas.
No House, um ciclo parece terminar...na Barraca...um está começando.
Motos, estradas. jornadas, a música cantada por Renato Teixeira e Almir Sater... "pela longa estrada eu vou, estrada eu sou..."
Finquei meus pés no chão e comecei a trabalhar, comecei a criar...sempre por perto, sempre atenta a quem precisar...
Um dia, escrevi um texto chamado O VÔO dos Tuxirantans... pouco tempo depois, descobri que eu era um dos mursiatans, apesar de permanecer na estrada ou pista, observando...eu podia ensinar a voar. E assim fiz.
Sobre vôos, relembro de uma querida amiga irmã que, anos atrás, alimentou por algum tempo, uma águia machucada que caíra em seu terreno. Seu marido me contava que a ave comia carne na mão de minha amiga. Ao se fortalecer e testar satisfatoriamente a força de suas asas, o animal voou alto e circulou todo o terreno como em uma silenciosa e agradecida despedida. Renovou-se e partiu.
Percebo que somos o caminho, a estrada e o caminhar...
Quanto tempo temos? Não sabemos... E, enquanto temos, o que fazemos?
Tenho acompanhado muitas partidas, ultimamente. E relembro, que daqui a algum tempo vou viajar. Mas antes, como clássica ariana que sou, preciso organizar, planejar, doar, compartilhar, resgatar o que precisa ser resgatado, descartar o que é preciso... rs talvez leve mais alguns anos, fazendo isso. Quem sabe?
Vou levar pouca bagagem...e junto comigo estará, certamente, aquela que se recusa a me deixar...Samantha Elisa. Juntas, algum dia...não agora...mas juntas, nós vamos voar! E depois, vamos ser chuva e, com certeza, vamos florir!








