segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Para a "amigairmã"...


Começou a arrumar as malas devagar..a cada dia, colocava um item que julgava muito necessário: lembranças da infância, saudades do pão quentinho feito por sua avó, um sorriso recebido ao demonstrar que já não tinha receio de cair da escada, o primeiro e significativo olhar, o primeiro beijo... a imagem de um pequeninho embrulho entregue por uma enfermeira no hospital, o orgulho de ter gerado, a alegria de ter acompanhado, a satisfação de ter guiado...
O tempo ia passando e o conteúdo da mala se agigantando... Em uma noite, resolveu singularizar o Tempo e com ele, conversou por algumas horas. O Tempo sentou na cabeceira de sua cama e contou-lhe um de seus segredos. E ela sorriu e acenou afirmativamente.
No outro dia, começou a desfazer as malas, recolocando tudo em diferentes lugares. Na manhã seguinte, enquanto sua pele se rejuvenescia e seus olhos ganhavam outro tom, a família observava o contrário: olhos que já não se abriam, dedos que pouco  se moviam, uma pele que dormia...
Na outra manhã, todas as malas estavam guardadas e seus pés descalços formigavam convidando-a a levantar. Resolveu ficar mais um pouco, respeitando o prazo limite confidenciado por seu amigo.

Em poucos dias , o corpo estava mais leve, pronto para alcançar grandes e necessários vôos. Seu cabelo voltara a ter o brilho e comprimento da adolescência. Sabia estar pronta mas aguardou. Passou a tarde com uma de suas mais queridas e próximas  amigas. Riu discretamente ao perceber que sua companheira não percebera a contribuição mágica do Tempo. Mas, feliz por estarem novamente juntas, enovelou-a em seu manto de amizade e gratidão. E, neste momento, teve a certeza de que, mais uma vez, iriam se reencontrar e celebrar o que jamais acaba...
Horas mais tarde, partiu. Deixou o corpo, as malas, as roupas, as lembranças, a saudade e a alegria pelo que vivera e fora tão bom. Na saída, já tinha outra matéria, que preferiu visualizar em corpo:  jovem, atento, aberto para novos caminhos...Foi caminhando...depois, resolveu pedalar...


E logo, ao passar pelo Tempo que lhe acenava sorridente, percebeu não mais precisar da bicicleta: recebera de volta o que deixara guardado em outros tempos. Agora, ela já conseguia voar!