sexta-feira, 12 de junho de 2020

Alterações observadas em Phineas Gage e entrelaçamentos com um presente e futuro próximos

Interessante e assustador  o momento em que a certeza de impunidade, de resistência fazem com que alguns seres se descortinem a nossa frente, mostrando o quão cruéis suas planejadas e articuladas ações podem ser. Fazendo uma clara referência ao objeto de seu desejo de dominância... um cérebro passivo, obediente à regra máxima de ser sujeito de formatação... postar, receber, esperar permissão de acessar, retomar quando e se a mantenedora desejar. 
Vigiar e punir...
Aceitar e calar...
Córtex, Córtex, Córtex...
"Receba o acesso, entre na plataforma, envie seu planejamento, receba acesso, envie atividades, receba-as de volta...coloque as informações em pequenas caixas de texto virtuais tão pequenas  quanto esperamos que seja, em curto espaço de tempo, a sua percepção."
E aqueles que estão em posições estratégicas são mantidos ocupados liberando acessos, percorrendo diários virtuais, participando de estressantes reuniões, retomando, recebendo perguntas, buscando respostas...cansando, cansando...
"Córtex supremo e em vias de transformação... pensar talvez não seja uma opção."
Dia desses, pouco depois de ter entrado em um carro chamado por aplicativo, percebi o grande trajeto que fazíamos: poderíamos simplesmente dar uma volta e retornar para o sentido contrário , dobrando duas quadras depois em rua que nos direcionaria à avenida principal. A partir daí, só seguir em linha reta  e chegar ao destino em menos de 10 minutos.
Mas o carro seguira em frente e fazia um caminho mais longo e inadequado.
Ao ser questionado, o motorista explicou que o aplicativo não reconhecia o "ir para trás", que indicava  sempre os  caminhos que estavam `a frente do veículo.
Intrigada, perguntei-lhe se era morador de outra cidade e, portanto,  não conhecia as vias de melhor acesso em Porto Alegre.
"Sim, sou daqui...e pior...conheço bem o caminho que a senhora falou. Mas a gente se acostuma a seguir o que o aplicativo indica e nem pensa; só vai no automático. Agora que fui me dar conta..."
Córtex, Córtex, Córtex...
No filme Fahrenheit 451, o bombeiro que, juntamente com os colegas, tinha a função de atear fogo aos livros e perseguir todos os leitores que desrespeitavam as limitações impostas por uma "Ordem", usava um colírio, todas as manhãs.
O colírio era ofertado à população para que "enxergassem melhor", com um bônus de um sentimento de tranquilidade e satisfação.
Há uma série da qual ouvi falar pela primeira vez através de comentário do diretor de minha escola:
"Não consegui assistir todos os episódios...fiquei mal...com a sensação de que estamos caminhando para um futuro parecido com o da ficção." 
No primeiro episódio desta série, em determinado dia as mulheres deixam de ser indivíduos com direitos e conquistas...descobrem que já não possuíam conta em banco, nem empregos, nem salários.
Confesso que ao ouvir, durante reunião pedagógica on line, a preocupação de colegas em relação a acessos, possibilidades de utilização de links e outros recursos...fiquei pensando nas mulheres da série e no colírio do filme...
Talvez eu, em algum momento desesperador, quisesse usá-lo, tornar-me distante das maquinações e cruéis engrenagens que nos são impostas.
Entretanto, apenas por um momento...
Volto ao filme e a outra parte que me toca: o enfrentamento silencioso mas potente. 
Não sou partidária de gritos ou intimidações no sentido de direcionar meu pensamento e decisões. Nunca fui. Mas acredito no trabalho firme e silencioso...nem sempre descoberto (até porque este não é o foco) no sentido de provocar RRA : Reflexão, Resistência, Ação.
Há lugar  para todos, na verdade...para os que esbravejam e corajosamente se colocam a frente das linhas de oposição, para os que trabalham devagar, silenciosa e perseverantemente e até para alguns...que desejam visibilidade e reconhecimento, antes de qualquer outra coisa.
Há um grupo secreto neste filme. E seus participantes têm como objetivo memorizar , cada um, o conteúdo de um livro ainda não incinerado pelos bombeiros... porque a História e as histórias poderiam ser repassadas oralmente às gerações seguintes.
Córtex, Córtex, Córtex Supremo...
No grupo, cada um fazendo o seu pequeno gesto...cumprindo seu papel e participando, paralelamente,  das aparições do Grande Circo da tal Ordem...mas sem o uso do colírio.
Volto  à reunião da Escola onde informações técnicas são compartilhadas... Mas todos sabemos...
Córtex, Supremo Córtex da Mantenedora...
Córtex e a fábula de Rubem Alves sobre o  menino que pintava seu desenho com uma cor diferente do esperado...
Córtex e o filme O Círculo...
Córtex e a queima de livros e de gente...
Córtex e a entrada, aos 9 anos, do menino Chico no mundo da sangria das seringueiras. Córtex e a despedida do menino Chico, sobrenome Mendes, do "mundo do ABC"...
Córtex e a impossibilidade de ter um celular, um computador, internet...por vários de nossos alunos.
Córtex e o legado que a Mantenedora quer deixar... Córtex e o mascaramento da realidade...
Córtex Supremo em direção à passividade!
Particularmente, vejo muitas questões interessantes e promissoras na Educação a Distância, quando utilizada com recursos acessíveis a não apenas a uma minoria. A essa forma de aprendizagem dediquei parte de meus estudos de especialização: para compreender seus mecanismos . Posso afirmar, portanto, com segurança que não estamos realizando Educação a Distância.
Mas é certo que, dentro das mínimas possibilidades existentes tentamos, professores, direções e setores da Escola fazer o que mais se aproxima de um atendimento ao aluno, respeitando e compreendendo sus dificuldades. Buscando formas de auxiliar, telefonando, enviando atividades por redes sociais, fazendo videoconferências por whats... tentamos...dar um suporte que nós próprios não recebemos por parte daquela que deveria ser parceira ...a Mantenedora...
É preciso reconhecer funções, estratégias, resistir de diferentes maneiras...cercar, lutar...
Considero meu trabalho pequeno perto de muitos outros que tenho a felicidade de encontrar . Mas me tranquilizo parcialmente ao relembrar que uma pequena formiga tem a capacidade de erguer e transportar peso bem acima de seu proprio corpo...trabalha, trabalha e, no silencio, escava e constrói tuneis engenhosos, necessários para si e sua comunidade.
Opto por abrir mão do colírio e participar de cenas do Grande Circo da Ordem...
opto pelo acesso, juntamente com meus pares, à plataforma...
Córtex, Córtex, Córtex...
Porém, que o nosso legado seja outro...seja o do grupo de leitura do Fahreinheit 451...que sejamos formigas correndo, sim, o risco de ser esmagadas por um pé não tão imaginário... e que enquanto formigas, respeitemos o espaço e missão dos leões, das andorinhas, das capivaras...
Corramos riscos com o objetivo de que Reginas, Marcos, Orlandos, Cíntias, Rosanes, Renatas e muitos outros tenham suas vozes não silenciadas.
Córtex, Supremo Córtex...através de ti, podem tentar...mas eu acredito que não vão , seus objetivos mais perversos, conquistar.
Sejamos ...