domingo, 25 de dezembro de 2022

O que entrelaça...

Em algum momento acreditei que sou boa em entrelaçamentos...assim como, em fluxos de consciência, alguns de vocês já estão fartos de saber.
Mas voltando aos entrelaçamentos...acreditei e construí minha trajetória baseada nesta crença, também.
Hoje, vou contar uma história que iniciou há uns dois anos atrás...


Conheci o V. bem ao lado de um container, que fica na rua onde moro. Atravessei a rua para colocar uma sacola de pedaços de papelão e outros materiais do tipo. Ao chegar ao lado do container vi um rapaz franzino, retirando uma sacola com restos de comida. Ele selecionava e comia um pouco com as mãos. Ao perceber que eu me aproximara e o observava enquanto colocava minha sacola  com o restante do lixo, ele me olhou e, para meu desconcerto, justificou, como se pedisse desculpas:

" Eu não vou comer tudo não, vizinha...só um pouco pra não ter fraqueza. Eu caminho muito. Mas isso aqui (mostrou a sacola com restos de comida) isso eu vou levar pras minhas filhinhas. Estão esperando que eu chegue... Eu não ia comer tudo, de jeito nenhum..."

E foi assim que começamos a nossa história. Naquele dia, eu o convidei para atravessar a rua, entrar no meu pátio, sentar pra descansar e comer algo mais, beber um suco. Ele agradecia mas repetia que precisava caminhar, precisava encontrar comida ou garrafas plásticas para vender e conseguir  o que sua família esperava. 

Eu e o Lu, meu marido, o tranquilizamos e enquanto ele contava parte de sua história, Lu enchia uma sacola com algumas coisas para que ele levasse o que comer.

A partir desse momento, de 15 em 15 dias, V. bate palmas na frente do nosso portão, chamando "madrinha! madrinha!" Seu objetivo é buscar as garrafas de agua mineral que utilizamos e guardamos para que ele venda. Nunca pede nada além, embora, claro fique feliz quando leva o que é mais precioso para sua filhinha pequena: litros de leite. "Se eu garantir o leite, tô feliz!" E vai pela rua, puxando o carrinho e cantando...

Em dezembro do ano passado, uma querida amiga, ao saber de detalhes da história do V.,

 comprou uma 12 caixas de leite. Somadas as que eu já guardara para lhe entregar, tínhamos mais de 20.

Ao recebê-las e muito agradecer me pediu um favor especial: Que eu guardasse uma parte para que ele viesse buscar quando começasse a faltar. E me entregou uma sacola com massas e arroz, fazendo o mesmo pedido e justificando: "se eu levar tudo, a gente vai se achar...vai querer comer como se não precisássemos nos preocupar com o depois...mais vai ser ilusão..."se eu não poupar, só conto com a ajuda da madrinha e do padrinho advogado da outra esquina." Trato feito.

O Tempo passa e se entrelaça...se tornou parte de nossa rotina ouvir o chamado  alegre ., abrir o portão, deixar que entre e descanse da sua longa caminhada pela cidade.  Enquanto bebe um suco ou água e come alguma coisa ele conta do seu dia a dia. 

E, também, ficamos sabendo um pouco de seu passado: poucos meses antes da pandemia foi convencido pelo sogro a largar o emprego de ajudante em uma lanchonete, em Osório, e tentar a vida em Porto Alegre. O sonho era, com o dinheiro que juntara, alugar um lugar pequeno, conseguir um emprego e prosperar. Não deu certo e V. a esposa , 2 filhas e o sogro moram em um barraco alugado numa parte distante da Zona Norte. As caminhadas para garimpar, pelos containers e latões de lixo, material para vender são, exclusivamente, para pagar os setenta reais semanais ao dono do barraco em que vivem e para comida.

Dois dias depois do Natal passado, ouvimos o chamado de V. Achei estranho pois havíamos entregue todas as garrafas que guardáramos e , também, mais algumas coisas que julgamos importante para ele e sua família.

Ao abrir a porta e o portão, observei que não recolhera quase nada, estava com o carrinho praticamente  vazio. Rindo ele me dizia: "ah, hoje ,não...hoje não...eu sempre recebo muito daqui, sabe...e hoje é o MEU dia! Quem vai dar presente sou eu! Trouxe um presente pra madrinha! Só não consegui um papel bonito pra enrolar...então tapei com um pano que eu tinha...mas olha aí...tá bem limpinho. Pode pegar!"

Observando a sua visível ansiedade e satisfação, desenrolei vagarosamente o embrulho...e recebi um valioso presente. Valioso pela sua história, pelo gesto e significado. Meu melhor presente, assegurei. E era verdade.

E a história começou assim:

V. remexia em caixas  e pacotes descartados em frente a uma casa "de bacana, gente bem rica madrinha...casa grandona mesmo".

V. sabia que, logo depois do Natal, em bairros considerados mais nobres, o descarte de objetos rejeitados e até comida em razoável estado, era grande. O lixo de uns se transformava em sobrevivência para outros. E V. era um deles.

Da varanda da casa, sentado em uma cadeira, um senhor grisalho observava o rapaz remexer em seus descartes. V. assegurou que não ia deixar nada espalhado, que sabia que tinha "colegas" que faziam  "uma bagunça na frente da casa das pessoas". Mas ele não era desses.

Depois de recolher alguns itens que poderiam ser vendidos, abriu a última sacola e se surpreendeu com seu conteúdo. O dono da casa, ao perceber que o rapaz observava o objeto sem se mover, desceu as escadas e se aproximou pelas grades da casa dizendo que aquele objeto, se vendido, poderia render até uns 10 reais.

Ainda surpreso pelo fato daquele senhor de cabelos brancos ter descartado tal objeto, respondeu que não o vendaria pois tinha alguém que o receberia como forma de carinho e gratidão.

Eu recebi. E ao abrir totalmente  ouvi ele me dizer "é uma telha, madrinha...mas não é uma telha qualquer, não..." Não era!



"Como alguém pode colocar uma obra dessa fora, hein, madrinha! E eu trouxe para agradecer e proteger a sua casa. Coloca na parede, bem na frente. Vai ser bom."

Como não se emocionar com um gesto desses?


Semanas mais tarde, V.  trouxe sua esposa para me conhecer.  Sorridente como ele, agradeceu a força que recebiam através de mim...e de amigas que se dispuseram, ocasionalmente, a ajudar com algum gênero alimentício.

Observador, V. percebeu que a turma canina aqui de casa era grande. Da cadeira de praia colocada no pátio, ouvia os latidos  e observava alguns deles que permaneciam na varanda.

Contei a ele, que alguns me acompanhavam em meu trabalho e interagiam com adultos , crianças e adolescentes. Comentou que os cachorrinhos eram muito especiais, então.

Semanas depois, apareceu em um dia que era um desvio do caminho , como salientou. Encontrou o encosto de um sofá, descartado de uma casa que costuma ter boas coisas para vender. Lembrou dos pets e trouxe para eles...

A história de V. e sua família tem vários capítulos:  dos dentes que foi perdendo , das tentativas de aliviar as dores com soluções ineficazes , do braço torcido por um fortão que desceu do carro para machucá-lo porque ele, cansado, demorara a tirar o carrinho de materiais reciclados de onde o homem desejava estacionar...da ocasião em que adolescentes marginais amassaram suas garrafas apenas pelo prazer de ver o outro sofrer, do medo de tomar vacina e ter alguma reação que o impedisse de trabalhar na busca de materiais recicláveis e  da felicidade ao mostrar no portão de minha casa, a carteira das vacinas...para comprovar que ouvira nossos conselhos e indicações...

No Natal passado eu me preocupei em, além de uma cesta básica e caixas de leite, oferecer roupa para as meninas (de 2 e 4 anos).

Neste ano, ao comentar com uma querida amiga a história do V. e de suas meninas falei que nem lembrara, no ano anterior, do que seria um grande presente para as duas: brinquedos. E que pensava em ver alguma coisa nesse sentido. Lúcia, no mesmo momento, tomou para si e sua filha (uma linda e generosa jovem) a tarefa de fazer a alegria das meninas. E sua filha doou 3 lindas bonecas: uma delas maior que as próprias meninas, outra, que fala e a pequeninha...um verdadeiro bebê para embalar.

E ontem, V. veio buscar as suas garrafas de água e me trazer outro presente garimpado em caixa jogada ao lado de um container: "um artesanato, não é madrinha? Como se fosse uma cozinha...tudo bem pequeninho!"  E a sua satisfação ao ver minha emoção ao  receber o presente e, junto com ele, a sua história de resgate, só não foi maior que a alegria ao receber as bonecas que as minhas queridas Lúcia e Ingrid ofertaram,

Emocionado, caminhou pelo pátio, segurando as mãos da boneca gigante que também caminha. Agradecido, gravou um vídeo para minhas amigas. Cuidadoso, pediu que eu guardasse as bonecas até hoje, pela manhã. E embora eu dissesse que poderia enviar ele, as bonecas e outras coisas que arrecadei de Uber, V. argumentou que dificilmente alguém o levaria até depois do Rubem Berta, onde mora...e que não se sentiria à vontade sentando no carro "do jeito que eu me visto, de chinelo...gente simples como eu..."

Veio com uma bicicleta que consegue emprestada de um vizinho, quando está muito cansado de caminhar.



"Quanto tempo, em média, tu caminhas?", perguntei.  "Acordo antes das 6h, saio e  vou recolhendo o que acho e posso. Tenho que chegar até as 6h da tarde, de volta para vender  o que tenho em um depósito. Depois, vou em outro que fica aberto até mais tarde.  Antes das 22h já estou em casa... É isso madrinha. Tenho pernas pra caminhar e quando canso, até consigo rodas pra me ajudar. O ano foi bom, não posso reclamar."

A todos os V. deste mundo o meu respeito e admiração somados ao desejo que aprendamos a ser mais generosos, honestos, que saibamos nos colocar no lugar do Outro e, com isso, aprender...que sejamos mais justos e trabalhemos para nos transformarmos em algo muito melhor...e que, assim, possamos recuperar e salvar esse mundo.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

"TUDO OK!"

 

A senhora nunca me viu. Mas eu a acompanho desde o tempo que o meu irmão ficava dias e semanas no hospital. Eu sabia que tinha uma pessoa que contava histórias, à noite, pra ele. Não me lembro o nome do grupo de vocês. Eram muitas pessoas que contavam histórias, durante a semana. Mas o Sam gostava mais daquela que chegava dando risada e contava a história que ele mais gostava, aquela do coelho que dava gritos.
E o mano me dizia, achando graça, que a contadora  gritava por socorro e assustava algumas enfermeiras, que vinham correndo. Ele me contava, feliz. E eu, só hoje consigo dizer, ficava muito brava, com a senhora. Porque era eu que queria estar lá, fazendo ele rir e conversando sobre o que ele quisesse. Era eu.
Aí, ele melhorou e a senhora sumiu das vistas dele e dos meus ouvidos.

Anos mais tarde, vocês se reencontraram no colégio dele. A senhora foi fazer estágio e foi professora do Sam. E, além das conversas de alegria por rever a senhora, ainda ouvi que tinha uma cachorra preta e linda chamada Samanta. O Sam amava muito a Samanta, sabe? Quando meu pai pediu que vocês duas fossem lá em casa visitar o Sam eu nunca quis aparecer. Eu sabia que seria por pouco tempo...
Quando eu estava em casa e vocês chegavam eu me trancava no quarto. Mas depois de começar a ouvir risadas eu deixava minha porta encostada e procurava ouvir o que falavam. E eu a condenava por rir, sabendo que meu irmão estava indo. É...eu não entendia...só sofria.

Uma tarde, a Samanta deu uma escapulida do quarto, não sei se a senhora lembra. Foi pro corredor e me encontrou na porta do meu quarto. Eu fiquei assustada, achando que ela ia latir. Mas ela olhou pra mim e abanou o rabo. E ficou na minha frente, me olhando... Aí, a senhora a chamou e, antes de ir, ela chegou bem perto, devagarinho. Estendi a minha mão, ela cheirou e lambeu. E foi embora em silêncio.
Fui espiar e vi a cachorra preta e linda deitada na cama com meu mano. E ele fazia carinho nela enquanto ouvia uma de suas histórias. Olha, depois que ela apareceu...eu achei que a senhora tinha ido pro segundo lugar e eu...pro fim da fila, no terceiro. Hoje, mãe, sei que não era nada disso. Por muito tempo o ciúmes me acompanhou. Era eu, quando na verdade deveria ser ele...

Meu pai morreu faz dois anos, sabe? De Covid. Mas antes de ir, teve a alegria de conviver com a netinha. Com o pai, consegui conversar sobre o que senti e do que gostaria de ter dito pro meu irmão. E, um dia , falamos da senhora. E ele me contou que meses depois que minha filha nasceu lhe ligou e contou que tinha uma netinha linda e que o nome era uma homenagem ao Sam: Samanta Eliza. Nunca esqueci daquele olhar, sabe? Do olhar da Samanta. Ela me compreendeu, eu acho.

Passei no vestibular e vou ser a primeira pessoa da família, entre tios e primos, a ter um diploma. Eu também, gosto de escrever... Minha mãe me ajuda com a Samanta. Somos nós 3, agora.
Eu contei pro pai que descobri o seu blog e , muitas vezes, ia ler. Chorei muito quando li sobre o Sam.
Eu ouvi, enquanto o pai e a mãe foram na vizinha, a conversa em que ele perguntou o que é morrer, como a senhora achava que era. Curiosa, ouvi sua explicação... e devagarinho a segui quando disse que precisava ir no banheiro. Ouvi seu choro baixinho e vi a Samanta esperando na porta. Em silêncio, pra não mostrar o nosso segredo. Me escondi e, logo, ouvi risadas no quarto.

Prometi pro pai que , um dia, ia lhe escrever ou telefonar. Pra me despedir. não sei se vai entender...mas é como finalmente, soltar aquele balão que precisa voar, sabe? A gente nunca se viu e eu prefiro guardar a senhora como aquela voz, aquele grito que ele tanto esperava, a voz que cantava Escravos de Jó e brincava com as patas da cachorra preta em cima do cobertor. O ciúme era bobo. E eu era uma boba que não conseguia jeito de se despedir daquele que sempre esteve comigo.

Então, quero dizer OBRIGADA. Vou continuar lendo o que escreve. Desejo que a senhora e a Samanta estejam bem e fazendo o seu melhor. A vida segue. Se quiser, pode colocar o que escrevi...De um jeito estranho, vou sentir que, também estive no seu caminho.

E, se não tiver ficado chateada com minhas espionices , pode escrever TUDO OK!
Tchau.

terça-feira, 7 de junho de 2022

ESPIRAIS - primeira parte

   Lá pelos anos de 2002, 2003 quando assessorava uma creche no bairro Rubem Berta, resolvi promover uma sessão de cinema para as educadoras da instituição. Lembro que, após o filme e comentários emocionados,  todas receberam um pequeno papel, escreveram 3 nomes e fizeram um  planejamento...assim como a personagem principal .

Observe bem a imagem...sobre um detalhezinho que se destaca, talvez eu tenha uma outra história a contar... 


Há dias penso em escrever sobre algumas questões. Guardei na memória algumas recentes falas significativas tipo "não podemos esquecer que o que importa são as...flores...", "senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado...", 
Observo novamente a primeira foto e lembro de uma imagem que registrei há alguns dias.


Como ele mesmo me disse , "É pra vida..."
Nas duas imagens há algumas semelhanças... ambos são professores e buscam alguma coisa. O primeiro, já com muitas cicatrizes, entende que suas difíceis vivências podem se transformar em potência...para o melhor de seus alunos e, consequentemente, de si.
O segundo se despede de um período de sua vida e recomeça nova história com o mesmo olhar atento e sensibilidade da personagem interpretada por Kevin Spacey. 

Como muitos sabem, sou professora, contadora de histórias e , portanto, trabalho muito próxima aos livros. Poderia dizer que sou uma das professoras que trabalha na Biblioteca da escola. Poderia... 
Bibliotecas sempre me fascinaram, entre tantas outras coisas. Tenho a imagem da biblioteca de cada uma das escolas em que estudei. E, também da Biblioteca do SESI, na Leonardo Truda, da Biblioteca da ASBAC, Biblioteca da SOGIPA, da biblioteca primeira: a da casa de meu padrinho.

Então... então, o amigo querido, companheiro de bons momentos com os alunos, na sala que poderia ser chamada de Biblioteca, inicia sua trajetória como professor em uma escola que assessorei há anos, um pouco antes da época que promovi aquela sessão de cinema. Comento com o amigo que auxiliei indicando livros e acompanhando as diretoras, daquela época, na compra de material para  a Biblio que se começava a organizar. 
Pouco tempo depois, recebo mensagem "Estou aqui mexendo na Biblio e olha quem eu acho..."


E eu me vejo, 25 anos mais jovem, sentada com um grupo de professores e coordenadoras na escola onde meu amigo está.  Pois tem como não afirmar que a Vida é uma espiral? Cada vez mais percebo que passamos ou voltamos a mesmos lugares , em diferentes épocas...e estamos mudados. Não somos mais os mesmos, nem os lugares são.

Você que me lê, deve estar pensando na provável salada de frutas que pode ser este texto. Mas eu gosto da não linearidade, além de ser muito boa em fluxos de consciência. Isso de ser boa em fluxos, não fui eu que criei. Quem disse  foi o Luís Antônio Assis Brasil, quando fui sua aluna de criação literária. E se o mestre disse...rs
Agora, percebo porque gostei tanto da série THIS IS US. Porque a não linearidade está presente, as espirais se movimentam, as cicatrizes são expostas e , de alguma forma, tratadas e resignificadas.


Rebecca, a matriarca da Familia Pearsons, se despede em uma espécie de movimento linear, caminhando pelos vagões de um trem. E, paradoxalmente, nada mais não linear do que essa despedida. Ela é uma espiral, certamente.

Então, quase que didaticamente, é hora de relacionar, de fazer entrelaçamentos. E começo com uma das falas significativas, mais precisamente de um senhor chamado Pedro, deitado em um leito na mesma sala em que eu me encontrava, também deitada e aguardando uma melhora.


Cheguei na emergência passando mal, piorei, melhorei, aguardei, piorei novamente, aguardei e , finalmente, estabilizei, como ouvi falarem. Mas foram oito horas  no local e seus anexos. Após ser medicada e ter taquicardia, fui levada para "dentro", passei das salas de recepção, triagem, consultórios e fui para uma sala onde os técnicos  selecionavam as medicações, preparavam exames e faziam comentários sobre o novo colapso de Covid que lota os hospitais e postos de saúde. Ali, pertinho deles, nos leitos, estavam aqueles que precisavam ser monitorados. Eu e o Seu Pedro estávamos lá.
As filhas de Seu Pedro também . Mas em outra espaço, bem pertinho. Podíamos ouvir seus choros e palavras de preocupação. A técnica balançava a cabeça e desviava o olhar para os comprimidos a sua frente. Mas eu percebia que estava atenta ao que se passava. Talvez, quebrando um protocolo, pelo espanto de quem nos monitorava, o médico saiu do consultório e veio , junto com as filhas de Seu Pedro, até o leito do mesmo . E a conversa foi mais ou menos assim:
"Seu Pedro, suas filhas estão aqui... Seu Pedro, antes de qualquer coisa o senhor precisa colaborar. Os procedimentos podem ser incômodos mas são necessários..."
"Pai, estamos aqui. Queremos que fique conosco... É preciso..."
Depois que as filhas e o médico saíram, ouvi um resmungo...olhei para o lado e só enxerguei dor. E ele falou baixinho, como se dividisse um segredo: 
"Senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado..."
Percebi que Seu Pedro queria percorrer aqueles vagões, como a Rebecca fez, como cada um de nós, fará, um dia. Mas as "meninas" não o deixavam partir. E ele ia ficando, com dor... Amar, também é deixar partir, não,  é?
Por outro lado, também é comprometimento, não é? E eu penso sempre no compromisso que tenho em relação à minha petfamília. Certamente, sem eles, eu estaria em outra trajetória...bem mais curta, acredito.

A Vida é uma espiral. E, em um ponto da minha,  me revejo pegando carona da minha querida Silvia Rios, descendo na Protásio, subindo  uma rua e chegando no Hospital Santo Antônio. Lá, como voluntária de uma ONG chamada Viva e Deixe Viver, eu contava histórias tentando atenuar alguma dor. Aprendi muito circulando pelos corredores do hospital, fazendo cócegas em médicos e enfermeiras e contando histórias para quem quisesse ouvir. Talvez por isso, mesmo quando sou a paciente, procuro fazer o outro rir. 

Em outro ponto de minha espiral eu me encontro no auditório de uma das creches religiosas que eu assessorava. As famílias pediram uma palestra sobre saúde, cuidados com recém nascidos, sobre cuidados na infância, de um modo geral.  Convidei minha colega de assessoria que era, além de professora de Ciências, enfermeira. E lá fomos nós, rumo à Vila Navegantes.
A conversa rendeu e impactou muitos familiares após minha colega explicar o que era, na verdade, o nascimento. Dizia ela que, ao nascermos estamos na "plenitude  celular"...há milhões de células em nosso pequeno corpo, trabalhando pela sua manutenção. E, no exato momento em que chegamos ao mundo de fora, como ela explicou, as células começam a morrer. Na verdade, o nosso crescimento, nosso desenvolvimento é a trajetória das células que terminam e das que continuam a sua jornada.  Estamos crescendo e morrendo ao mesmo tempo. E ela dizia " a morte é uma jornada. Está conosco , nos acompanha , desde que nascemos. Mas, vivida de forma saudável , podemos fazer muitas coisas para que a jornada seja uma bonita história a se contar."

Mudar é morrer um pouco, também, não é?

Fim da Primeira Parte
Mas aguarde...que eu ainda tenho o que  contar...







terça-feira, 11 de janeiro de 2022

OUTRO, MAIS OU MENOS BREVE, RELATO DE COMO ESTOU


Oi, pessoal amigo!

Aqui estou para contar como estou. Estou, estou...percebem? Bem, vamos lá:

Primeiro, compartilho um vídeo e áudio de dias atrás :


Doutora Rafaela me considerou mais saudável e feliz. Ainda precisarei fazer as vacinas necessárias, daqui a alguns dias mas, hoje encerrei o ultimo medicamento para a gastrite.

Na clínica onde fiquei internado, houve uma grande corrente de trabalho e energias positivas pois, quando cheguei, muita gente acreditou que eu não conseguiria sobreviver. Fui muito mimado, medicado e conversaram bastante comigo em todos os momentos possíveis. 

Ao chegar para a revisão, já reconheço o local e pessoas e balanço o rabo em agradecimento. Muita gente sai do espaço da internação e vem me abraçar e tirar foto comigo.

A preocupação da Bia em relação a como o mano Fredo e o Bob reagiriam com minha presença se desfez no segundo dia em que cheguei na casa dos Cachorros. Fredo se tornou meu "parça" e o Bob...bem...o Bob não gosta de cachorros, simplesmente. Então, fica longe e prefere não interagir comigo. Nem dou bola. Tenho mais 10 irmãos e uma gata para compartilharem bons momentos comigo.

E eles descobriram que eu sou:

afetuoso

"bom latidor para coisas que ninguém vê"

persistente nas tentativas de correr atrás da Amorosa e brincar com o Fredo

grato por tudo que me ofereceram e ainda oferecem

A doutora falou que minha tristeza em ficar muito tempo sozinho nos últimos dias, depois que a maior parte da turma Lucenística entrou em férias, "potencializou o agravamento de um quadro clínico não tão adequado" (Bia e eu achamos lindas essas palavras...rs)

Acho que a saudade que eu tinha de uma vida passada está se desfazendo e se transformando em outro tipo de saudade: saudade dos rostos que me cuidavam na escola, que vinham de casa para ficar comigo um tempinho, de quem abria a porta de sua sala para eu entrar e espiar, de quem me chamava pelo meu novo nome, de quem ajeitava caminha, comida e água para mim.

Em dias não muito quentes, caminho com uma de minhas irmãs. Geralmente com a Amorosa ou a Nith. Já consegui dar a volta na quadra sem ficar muito cansado e, por duas vezes , fui até a frente da casa da Juli, dar um oi. Preciso emagrecer um pouco e ficar cada vez mais saudável. Também ouvi falar que , mesmo com todos os remédios, comidinhas especiais que o Lu faz e carinho não tenho muito tempo. 

Bem, quanto a isso, eu e minha nova família não nos preocupamos muito. Sei que, serei cuidado e acompanhado por todos que me amam. (Além disso, a Bia me contou a história de uma aluna que teve, chamada Adelaide... Adelaide se formou na EJA e completou 99 anos, faz poucos dias. Pela idade de cachorro que sou já tenho bem mais do que isso...mas...quem sabe?)

Vou ganhar uma coleira com meu nome bordado e o da escola que me abrigou. Quando as aulas começarem, voltarei com meus manos e vou ajudar no que for necessário. Acho que um velhinho ex-abandonado, resgatado e , agora, muito acompanhado por um belo grupo , ainda pode ser  motivo de boas histórias...de boas conversas sobre respeito, generosidade, empatia...

Bom descanso pra todos nós! Obrigado por olharem e me enxergarem.