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domingo, 31 de maio de 2009

Tributos e entrelaçamentos


Por conta dos textos sobre Adorno e reflexões sobre barbárie, sobre questões étnico-raciais, questões e relações grupais, tenho lembrado do poema em homenagem à Maiakóviski. Que, na realidade, por muitos é atribuido ao próprio Maiakóviski, mas não é de sua autoria. Eduardo Alves da Costa é o autor.
No caminho com Maiakóvski

"[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz,
e,conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"

sábado, 16 de maio de 2009

Bea, Íris, Iberê, grupos, Filosofia, barbárie ou "Zumpt!"

Hoje é sabado. Pela manhã, permaneci bom tempo em um dos auditórios da FACED, participando do curso de capacitação para voluntariado com idosos ou crianças, na área de inclusão digital. Na pauta das palestrantes o tema era "O Idoso". Ouvindo as assistentes sociais e uma das enfermeiras do Complexo Santa Casa foi impossível deixar de fazer "Zumpt!"
"Zumpt!" é quando você , rapidamente, a partir de uma fala, uma imagem, um sentimento , é transportado para uma outra época, geralmente a passada, e relembra ou revive situações marcantes. Isso é "Zumpt!" . E eu inventei a palavra e sua definição, agora.
Segundo as assistentes o processo de envelhecer "é natural, provoca mudanças físicas, psicológicas e sociais". Velho é aquele que tem várias idades: a idade do corpo, a idade de sua história genética, de sua parte psicológica, de sua ligação com a sociedade."
No hospital, o auxílio dos voluntários é essencial para que o ambiente se torne cada vez mais humanizado. Diversos grupos circulam levando sua solidariedade.
"Zumpt!" , minha mãe permaneceu muito tempo internada em diversos hospitais. Felizmente, sua última internação foi em um hospital que deixou boas marcas . Lembro que uma vez por semana um grupo de pessoas ia em cada quarto, cantar. Era o coralzinho, como os familiares chamavam. Minha mãe já não falava, nem movia mais do que os olhos mas eu sabia que escutava e gostava do que ouvia. Por mais incrível que possa parecer, era nestes momentos que eu rezava para que ela se fosse, para que, junto à música de que tanto gostava pudesse fugir do corpo cansado que a aprisionava.
"Zumpt!" , nas manhãs de segunda, antes de ir para o trabalho, eu deixava um estoque de revistas perto da cama de minha mãe e na mesa de sua cabeceira um potinho com balas e pequenos cartões das Irmãs Paulinas com mensagens de bom Dia e de agradecimento. Eu sabia que a fisioterapeuta e outros profissionais estariam passando. Assim como sabia que as revistas de fofoca saiam do quarto e retornavam antes que eu voltasse. O planejar o que fazer para que minha mãe, que já não interagia, fosse "visitada" enquanto eu não estava manteve meu equilíbrio. As enfermeiras conversavam sobre as fofocas das revistas, pegavam uma balinha, um cartão e sorriam, enquanto cuidavam de minha mãe. Chamavam-na de vovozinha.



"Zumpt!" de retorno : a enfermeira chefe falava de regressões. Dos idosos que voltavam a comer comida pastosa, como os bebês, dos idosos que permaneciam nos leitos com grades, como berços de bebês... distanciamento da vida produtiva, aposentadoria, abandono, violência de familiares...

"Zumpt!", estou lendo o texto de Filosofia "Educação após Auschwitz": nazismo, grupos, barbárie...grupos... A questão dos grupos ainda me desafia. "O que faz com que um grupo deixe suas marcas na história?" Grupos, líderes, ditadores, nazismo, facismo, racismo... idéias, ideais, posturas equivocadas que geram sentimentos diversos, raivas, inquietudes, desejo desajustado de ser supremacia, de se sobrepor, pessoas e grupos, milícias...



"Zumpt!" de retorno: Novamente, falamos e ouvimos sobre os projetos de voluntariado nos hospitais. Tomamos conhecimento do motivo do logotipo do Santo Antônio ser um castor chamado Nestor. Segundo o relato, um grupo de pessoas das mais diversas áreas e idades se reuniu com o objetivo de reconstruir o hospital das crianças. Um dos voluntários mais abnegados se chamava Nestor. Em sua homenagem e associando ao ofício de construir, o mascote do Santo Antônio ganhou o nome daquele que tanto ajudou e que já se foi. De novo, grupos! Um grupo silencioso e eficaz em torno da conquista de seu objetivo.



A manhã encerrou. Almoço no Bar do Antônio e me preparo para a segunda parte do meu sábado, pertinho do Guaíba...



Sento em outro auditório, desta vez na Fundação Iberê Camargo. Assisto a um filme em que o artista partilha o seu processo criativo. Inquietação nos movimentos, pinceladas rápidas, auto-retratos, faces que se desfiguram, modelos que viram personagens, uma dança, quase um duelo em frente e com a tela.


As Idiotas, personagens de Iberê e as cores sombrias que as acompanham me fazem lembrar de algumas afirmações do texto de ADORNO, em relação à barbárie: "Devemos trabalhar contra essa inconsciência, devem os homens ser dissuadidos de, carentes de reflexão sobre si mesmos, atacarem os outros. A educação só teria pleno sentido como educação para a auto-reflexão crítica."

Fiquei pensando no quanto de inquietação e de angústia Iberê colocava em suas telas. Também pensei, outra vez, em como alguns educadores podem ser referências positivas e em como, por diversos desvios, podem se transformar em exemplos perniciosos.

Se a Filosofia vai além do óbvio, do que é senso comum ela está em toda a parte, a nossa espera...

"Zumpt!" , estou assistindo ao filme Onze homens e uma sentença. Procuro evidências e argumentos. Evidências, argumentos, questionamentos que são trabalhados por nossas professoras do Seminário Integrador com determinação . Percebo todas as amarras, os alinhavos, costuras e ponto em cruz realizadas por estas professoras no sentido de possibilitarem uma nova visão, uma outra perspectiva do nosso fazer pedagógico. A Filosofia não chegou no sexto semestre: está conosco há mais tempo.

"Zumpt!" de retorno: estou fotografando um dos quadros de Iberê. No tempo que passou enquanto caminhava de um andar a outro voltei a pensar nos grupos, na barbárie que, as vezes, aparece camuflada, em um jogo de memória de obras de arte para confecccionar para minha turma, no Dossiê de Inclusão que tem um título que promete, promete..., em uma entrevista sobre aposentadoria que a Bea nos concedeu, de alguns receios que partilhou e que são parecidos com os meus. Via Iberê em suas telas e lembrava do filme o Jardineiro Fiel tentando relacionar o sentimento que ambos me traziam.

Tela de Iberê Camargo


"Zumpt!", encerrei a formação, peguei carona e fui pra casa. Já estou frente ao computador, falando com Lu Sobotyk sobre nosso PA. Enquanto falo e escrevo pelo skype, "Zumpt!", estou assistindo a outro filme: Clube da Felicidade e da Sorte...um grupo de mulheres chinesas ,"ZUMPT!"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abril e seus dilemas

Em outras andanças virtuais, entrei na casa de quem gosta de História, Música, Poesia, de quem faz Pedagogia ...
Mas acabei ouvindo Caetano, lembrando do Dilema de Claude e assistindo a um vídeo sobre o Xingu. A qualidade não é muito boa mas, mesmo assim, acho que vale...

terça-feira, 21 de abril de 2009

"nas tentativas de ir..."

Estava lendo o blog da Lu Sobotyk e assisti a um vídeo muito interessante sobre Filosofia. Ali, o professor dá alguns exemplos daquilo que ele fala ser a desbanalização do banal. Gostei e lembrei de outro vídeo em que o entrevistado de Jô Soares falava que Filosofia é a tentativa de ir além do óbvio. Então, motivada pelo que minha amiga postou, disponibilizo, também, um vídeo sobre o assunto. Coloco apenas a primeira parte.

domingo, 5 de abril de 2009

Diane Ravitch e cia

Em minhas andanças na rede tenho lido alguns posts que falam da censura dos blogs por certas universidades. Como aluna de um curso universitário, à distância, que tem nos blogs um grande e eficaz instrumento, começo a me surpreender.

E, ao buscar maiores informações sobre Diane Ravitch, encontro a resenha de um livro seu intitulado The Language Police. Nele, Diane realiza uma denúncia: "uma censura silenciosa vem atingindo desde a década de 1970 a confecção de testes de desempenho escolar, produção de livros didáticos e processos de aquisição de literatura para as bibliotecas das escolas" americanas. Palavras como ódio, divórcio, referências a minorias são suprimidas.


"Diane Ravitch destaca duas áreas de saber muito prejudicadas: literatura e história. Em literatura, os revisores exigem textos e ilustrações que levem em consideração as representações estatísticas de cada grupo social. Isso abrange autores e enredos. Ótimas
antologias foram criticadas e até excluídas do mercado por falta de números adequados de autores representando mulheres, negros, latinos etc., não importando méritos literários. Nos enredos e ilustrações é preciso retratar fielmente a estatística. Excluem-se assim textos clássicos ou de boa qualidade literária para atender conveniências de representação populacional. A autora descobriu que as práticas de censura acabaram atingindo clássicos da literatura."


Diane, educadora e autora do Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (1997), trabalhou ativamente nos governos dos presidentes Bush, pai, e Bill Clinton, na área de Educação. Tem dezenas de livros publicados e ainda hoje, direciona seu viver para a área escolhida.

O Blog do Jarbas apresentou a tradução do último capítulo de um de seus livros. Sob o título de "Para que servem as Escolas" este capítulo foi o responsável por milhares de acessos e muitos comentários no Boteco. Recomendo ambos: a leitura do capítulo e o blog do Jarbas.

E falando em censura e esquecendo da mesma, não posso deixar de lado minhas primeiras e superficiais impressões sobre a interdisciplina de Filosofia: acredito que teremos , ao longo do semestre, interessantes oportunidades para explorarmos nossa capacidade de observação, exploração e argumentação. Então, vamos falar um pouquinho sobre outras interdisciplinas:

A interdisciplina de Questões Étnico-raciais nos trouxe momentos iniciais de muito prazer e a expectativa de que seu desenvolvimento seja como o início. A sintonia demonstrada entre professora e tutoras merece destaque. Em Psicologia, já iniciamos com muitas leituras. Mas acredito que, nesta altura, a maior parte do grupo já está acostumada.

Na disciplina sobre Portadores de Necessidades Especiais acredito que teremos um belo e esclarecedor trabalho. A proposta da professora e tutoras promete isso.

No Seminário Integrador temos a linha que entrelaça todas as interdisciplinas, a continuidade dos PAs, o universo das tecnologias e tudo que nos possibilitam. Importante dizer o diferencial desta interdisciplina: suas responsáveis nos acompanham desde o primeiro semestre: já nos conhecem, sabem quando estamos ansiosas, quando estamos queixosas sem motivos aparentes, sabem e procuram tirar o máximo e o melhor de nossa capacidade. Limites e afetos recebidos de bom grado. Ponto.