Alternou, em suas férias, sonhos que indicavam que tinha que fazer algo importante com outros, talvez resposta, que falavam em salvar alguém. E as noites iam passando da mesma forma que se agigantava a certeza de que algo precisava ser feito. Salvar alguém? Quem? As férias acabaram e a sensação indicativa continuava: salvar quem? um aluno? alguém que atravessa a rua descuidado? Pronto! Você puxa o braço e impede que o trágico aconteça... Ficou atenta, super atenta, ansiosa pelo momento em que a vida de alguém dependesse de sua agilidade, ou de sua voz: ladrão, ladrão! E a bolsa de quem foi roubada era resgatada por outro salvador muito mais ágil. Mas quem alertou...foi ela. Os dias iam passando e o marido Dela comentava sobre a insônia observada, os olhos que chegavam em casa distantes, ainda a procura de sei lá o que. Certo dia acordou com a sensação de que tinha que adotar um cachorro. (mais um, companhia para os 5 que já possuia). Cansou-se nas noites seguintes, entrando em sites de adoção e procurando o bichinho que mais parecesse precisar.
Telefonou para protetoras de animais buscando informações. Mas todos os cachorros por qual se interessava estavam em processo de adoção. Começou a olhar as ruas, enquanto andava de carro procurando , procurando.
O marido se preocupava com a ansiedade e tentava decifrá-la. Em vão. Pára o carro, ela dizia. E lá se ia, atrás de um , de outro e mais outro. Mas para esses encontrou donos rapidamente.
Um dia, feriado de carnaval, foi visitar uma protetora de animais e, com ela, levar ração para cachorros cuja dona falecera. No caminho, pensava que era naquela casa, de cachorros sem dona, que encontraria o que procurava. Enquanto, junto com o marido e a amiga, oferecia comida para todas as patas que saltavam ao seu redor observou uma pequena mancha preta do outro lado da calçada, aninhada no chão.
Curiosa, atravessou a rua e descobriu ser um filhote de cachorro muito debilitado: ossos aparecendo, muita fome e sobretudo muito medo. Fugiu, com a aproximação dela. Foi neste momento que suas respostas começaram a surgir. Chamou o marido e a amiga e avisou que queria aquele filhote apavorado. E foi uma das pessoas da vila que conseguiu pegà-lo. E o trouxe, para o pavor de quem aguardava, segurando-o pelo pescoço e rindo ao comentar que, até o final da tarde já estaria morto: de fome, doença ou por abate de alguém.
Quando Ela recebeu o filhote e o pegou no colo, pode enxergar os seus olhos . Eram olhos de morte. De resignação e profunda tristeza pela chance que não lhe fora dada.
Então, eu soube que tinha que salvar alguém e quem. O filhote era ela, uma cachorrinha triste. E se chamou Samanta Elisa. Samanta por quem já foi e Elisa em homenagem à veterinária que abriu sua clínica, em pleno feriado de carnaval, para recebê-la. Samanta Elisa já cresceu um pouco, está mais gordinha. Brinca com suas manas, cava o sofá, late para as gatas e come sempre em desespero: como se fosse sua ultima refeição. Mas, quando me olha, já não mostra os olhos de antes. Samanta Elisa, agora, tem olhos de quem vai viver.
Samanta Elisa, depois de um mês em seu novo lar...