sábado, 30 de dezembro de 2017

Inté!

Em uma das cenas do filme de Temple Grandin, ela pergunta insistentemente "Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Quem me conhece um pouco sabe da influência de meu padrinho em minha trajetória: desde a lição do arbusto até o requinte de fazer um gráfico para explicar-me (em meus 10 anos) como lidar com pessoas inconvenientes, no meu futuro.
Justifiquei sua partida através de uma constatação: era uma pessoa tão especial que não conseguiria suportar viver em um mundo em declínio. Foi para outra dimensão, auxiliar quem precisava...como eu precisei. Simplista justificativa...mas funcionou por um bom tempo.
Há poucos dias eu conversava com a mãe de uma ex-aluna, via facebook. E tentava confortar sua dor e incompreensão por conta da morte de sua pequena mascote canina. E embora ela insistisse em reafirmar esses sentimentos eu, por outro lado, falava da certeza que tinha de que a cachorrinha completara um ciclo necessário...e depois, se fora.
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Anos atrás, abri a porta de um quarto em um hospital infantil e perguntei "Tem alguém aí, que quer ouvir história?" Tinha. Um menino e seus pais.Voltei por muitas quintas à noite para contar histórias para ele e outros. Mas como boa e bem treinada voluntária eu sabia que jamais deveríamos perguntar sobre motivos da internação, saúde, etc. Simplesmente, entrávamos e contávamos histórias. E talvez, nos encontrássemos depois. Eu nunca perguntava o que pensava ao entrar e perceber o vazio de um quarto ... 
Um dia, anos depois, ao levar uma de minhas bibliopetterapeutas em uma escola fui reencontrada por aquele menino: "tu não é aquela que contava histórias e assustava as enfermeiras lá no hospital? A da história do Tico e dos Lobos Maus?" Sim, eu era. Na verdade, sou. 
E o menino conheceu uma e depois outra de minhas cachorras petterapeutas. Afeiçoou-se a uma delas especialmente e era com alegria que abria os braços e aconchegava a cabeça da mascote eu seu peito franzino, quando retornávamos para fazer uma visita. O tempo passara mas a doença o acompanhara... Os pais pediram meu telefone e tiveram a certeza de que poderiam entrar em contato quando julgassem necessário. Por duas vezes eu e minhas companheiras fomos chamadas e contamos histórias, rimos , deixamos que Samantha colocasse as patas nas cobertas da cama e abrisse o seu "sorriso esganiçado de dentes", como o pequeno chamava.
Numa tarde, enquanto a mãe fazia um bolo, o pai saira para comprar suco (onde já se viu a gente não ter suco para a Bia???) ele me pergunta: Bia, o que é ficção? Após a explicação, faz comparações entre a ficção que poderia ser uma vida com saúde e a realidade que vivia. O bolo e o suco chegaram na hora exata... Por um tempo, brincamos de histórias criadas misturando ficção e realidade. Sempre nos despedíamos sem a promessa de retorno...bem como no hospital...
Há algumas horas o pai do menino ligou para combinar aquela que seria, provavelmente, nossa última visita. Eu e uma das "meninas" sairíamos de meu trabalho e seríamos levadas até o pequeno amigo. Nos preparamos para isso... mas na metade da tarde, já não havia mais tempo e foi com Alice ao lado, por telefone, que me despedi do amigo guerreiro. "Tu sabia, lá no hospital , que eu tinha câncer, né? A Alice taí? A Samantha? To muito cansado, hoje, sabe? Mas eu queria te dar tchau antes de dormir. Dá um beijo nelas, tá?"
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
É noite e nosso pequeno amigo já partiu...Escancarem alegremente as portas do céu, cantem, dancem, contem histórias (e uivem, porque ele adorava uivar junto)...Façam festa porque um grande carinha está chegando. O céu, qualquer que seja o seu endereço, está se tornando cada vez mais interessante...
Samuelzito...se encontrar meu padrinho por aí, manda um beijo e diz que eu estou tentando...estou tentando...
Inté!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

TURMA 204;





Vídeo feito por uma de minhas alunas em homenagem à turma que a acolheu. Que orgulho, pequena amazona!

sábado, 18 de novembro de 2017

Singelas contribuições àquele que, teoricamente, é o sapo

Jamais pensaria em retornar, neste ano, ao blog com tal postagem. Mas ... faz-se necessário. Então, vamos lá:



Reflita comigo...

No mínimo, "há duas possibilidades"... Se você é escorpião fadado a relembrar a fábula...vai matar o sapo e "tudo bem". Mas se você é o sapo...existem duas, duas possibilidades: Ou você acompanha, de forma resignada,  o destino imposto pela moral da história ou você inova mostrando novos conhecimentos.
Se você acompanha, de forma resignada...tudo bem. Mas se você inova...ah...aí existem muitas outras possibilidades:

Primeira: você está muito longe de ser ingênuo e já na primeira pergunta do "amigo escorpião" percebe quais as possibilidades que se apresentam. Afinal, você conhece um pouco sobre comportamento animal...e até mesmo sobre suas variações.

Segunda: Sabendo da primeira, mesmo assim, você abre o seu melhor sorriso e relembra o dito "o que tiver que ser será"

Terceira: Antes de colocar o "amiguinho" nas costas você recorre às mídias sociais: facebook, blogger, instagram. Avisa que estará dando carona ao escorpião. Talvez, até, mande um email para a amiga corujita relatando do caso...

Quarta: Por vários motivos, você já imaginava que a solicitação viria. E estava preparado. E aqui, existem mais algumas possibilidades:Você, cansado que estava e ciente que não conseguiria chegar na outra margem, resolve ir até o fundo da lagoa, mansamente...levando o escorpião junto.
Ou, você o deixa cair na lagoa e, antes de salvá-lo observa o seu susto e desespero, pensando que isso o fará reconsiderar ao seu propósito de "ferrar com quem o ajuda".

Quinta: você sabe que metros mais adiante há outro escorpião usando um barquinho para atravessar o lago. E, mesmo assim, o primeiro quer "estar com você". Você pode questionar essa estranha amizade entre os escorpiões. Que amigo é esse que não oferece carona em seu barco? ou, que amigo é esse que não pede para o seu mais próximo, uma ajudinha? 

Sexta: Você acha tão entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião que pensa "tanto trabalho só pra tentar me ferrar? Tá, sobe logo e vamos acabar com isso, Tenho coisas bem mais importantes a fazer antes de chegarmos na margem..."
Se você apenas acha entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião...tudo bem! Agora , se você considera que tem coisas  "bem mais importantes a fazer antes" de chegar na margem...ah!
Alegremente, vamos à sétima possibilidade...

Sétima: o primeiro escorpião, limitado pelas antiquadas idéias de "seguir a sua natureza" não observou bem para quem pedia a pretensa ajuda. Não percebeu que seu mundinho evoluiu e que, envolvido na pele de um sapo...estava outro escorpião que aprendeu a nadar.

Se você é o primeiro escorpião...tudo bem. Está resignado à moral da fábula.
Mas se você é o outro, pele de sapo envolvendo corpo e mente de outro escorpião....ah, com certeza, há INFINITAS POSSIBILIDADES.

E você? Sabe quem é? Aconselhável saber antes de tentar passar para o outro lado...da margem.

PS: Essa postagem foi escrita bem pertinho do livro "Quando nasce um monstro".