quinta-feira, 27 de março de 2008
Já na outra sala , com o professor de Ciências, a proposta foi legal mas eu não estava mais em sintonia: embora brincasse com as colegas, tenha falado sobre turmas de jardim e como vivenciei o trabalho com o estudo de alguns animais....internamente eu sentia a minha irritação crescer. Queria estar a quilômetros dali, em minha casa. E realmente, bem longe dali, mais tarde, esperando a lotação da Kátia que recebi, dela, o meu diagnóstico: "é, Bia, estás chateada por causa da tua aluna, não é? "
Eu e minha colega temos um aluno em especial que gosta dessa melodia. Descobri isto o ano passado, no pátio da escola, quando eu procurava desviar sua atenção de seu próprio corpo: ele tentava morder suas mãos e dedos do pé. Ao agachar-me em sua frente e segurá-lo, cantarolei essa música que me acompanhava há alguns dias. Ele demonstrou interesse e relaxou os braços. Ao perceber, continuei a cantarolar e assim ficamos por um bom tempo. Ainda hoje, no pátio, sentados no balanço vai-e-vem eu e minha colega cantarolamos essa melodia para o mesmo aluno, que voltou muito mal, do seu período de férias. O que nós consideramos um período de descanso, para muitas famílias e muitos de nossos alunos é o contrário: sem a escola alguns deles ficam trancados em casa, surtam, são internados, algumas mães ficam extramamente cansadas e irritadiças. O retorno à Escola e às atividades é, por vezes, muito difícil. E foi em um momento bem complicado que essa música retornou e acalentou, por alguns instantes, as ondas enfurecidas que atormentam nosso aluno. Ele não se comunica verbalmente mas ao observar seu sorriso e seus olhos nos buscando temos muitas respostas.
Mas há em nossa turma uma adolescente que tem demonstrado, já há muito tempo, um crescimento: é organizada, meiga conosco, suas professoras, com seus colegas e até com visitas na turma. Compreende tudo que é falado e, embora só fale "mãe", minha", "naaaaãooo"...comunica-se perfeitamente através de gestos e expressões. Ajuda os colegas que necessitam e está geralmente de bom humor. Claro que está em nossa escola por muitos motivos. É especial.
Pois essa aluna passou as férias com sua mãe que, no retorno à escola, disse que não aguentava mais e ia fazer alguma coisa. Fez. Com a justificativa de que surtara em uma parada de ônibus, nossa aluna foi internada em um hospital psiquiátrico.
Há alguns dias, tínhamos notícias da mãe que dizia visitá-la, sempre. Ontem, pela manhã, a orientadora da escola e eu fomos até o hospital. Ficamos sabendo muitas coisas e relatamos outras.
Mas foi no salão onde a encontramos que aquilo que se transformara em irritação à noite, começou a surgir. Quando a porta foi aberta e ela nos enxergou, veio correndo nos abraçar. As outras internas faziam perguntas "tua mãe?" ,"vai te levar?". Outras, se aproximavam e ficavam apenas observando. Minha aluna me puxava pela mão, mostrando-me a algumas internas, me abraçando, beijando e repetindo "minha, minha", enquanto batia em seu peito .
Logo fomos , com ela, para uma outra sala. Ali, ficamos por 10 minutos conversando , falando que sentíamos sua falta e que a esperávamos na turma. Mas o mais importante era abraçá-la, ser abraçada e repetir "nós gostamos muito de ti." (o tempo todo eu pensava "Por quê? Logo com ela... que não precisaria estar aqui... Por quê?")
Procuramos fazer com que aqueles minutos fossem motivos para boas lembranças, enquanto ela aguarda a sua alta.
Passando pelo salão de mãos dadas ela olhou para nós, sorriu, abraçou-nos e foi sentar frente à TV, com outras internas: sabia que permaneceria mais tempo. Perguntara várias vezes por sua mãe.
O momento mais relaxante, eu diria, foi quando uma das internas puxou o meu braço e disse: "colega, vai sair hoje?" No que eu, surpresa, respondi afirmativamente ela disse "então deixa eu te dar um beijo. Boa sorte, viu?" E me abraçou e beijou.
Ainda olhei para trás e recebi o aceno de minha aluna, como a me tranquilizar.
Voltamos para a Escola, fizemos relatos necessários, recebi minha a turma à tarde, cantei, brinquei e sorri. Ao final da tarde, enquanto o grupo de colegas ficava em reunião, eu me dirigia até Alvorada. Mas já estava entrando no auge da irritação... Relembrava a informação dada pela assistente social: eu e minha colega foramos as primeiras visitas recebidas por minha aluna, desde sua internação. (A noite ia ser bem longa.)
Pois é... à noite, "quando os gatos são pardos" e eu deveria estar em casa ... não estava. Mas foi bom rever colegas e, mesmo com um humor bem diferente(embora eu saiba que consigo disfarçar muito bem), assistir às presenciais. Sentei junto à Solange, na segunda parte, e com ela e outras colegas (Neusa, kátia e Lu) me diverti bastante e também contei um pouco do que me afligia. Receber um beijo da Alexandra foi legal, conversar com a Tati, também. Voltar para POA, no carro da Neusa, com ela dirigindo e o grupo rindo é outro capítulo que vale muito a pena
É...eu precisava estar ali ...
Mas de ontem, vou lembrar com carinho, da perspicácia da nossa querida tutora Grace. Gentilmente aproximou-se de mim e me abraçou dizendo que ficara me observando na chegada, que eu fora até o cantinho (bem na ponta, no último computador da fila) e parecia estar..."cansada?" Respondi brincando e sorrindo mas lembrei de meus alunos que não conseguem falar mas, mesmo assim, a gente consegue escutar.
sábado, 22 de março de 2008
Novamente "Salada de Frutas" ou "Se precisar de socorro, na dúvida, grite FOGO!"
Estou em fase de "salada de frutas", misturando tudo. Começo com a solicitação das professoras Bea e Íris sobre nossos portfólios de 2007, com uma postagem que intitulei de "clique" e com um comentário posterior também da professora Bea, com uma triste notícia vinda da amiga Mosqueteira Lú sobre um aluno seu e com a história de quem tenta fazer o bem mesmo quando nada tem.
Ah! Para acrescentar uma "pitada" a mais, um comentário feito por meu marido há alguns anos: segundo ele, que trabalhou algum tempo na área de Segurança, uma das formas de conseguir ajuda de alguém, utilizando o grito, não é pedir socorro mas sim, gritar FOGO! A lógica é que as pessoas têm medo, procuram não se envolver ou arriscar. Ajudar algum desconhecido que grita por socorro pode, talvez, transformar quem se dispõe a socorrer, em vítima. Mas já o FOGO passa outra mensagem e mexe com a curiosidade. Quantas vezes vimos alguém observando um incêndio, realizando comentários, solidarizando-se com as vítimas e observando outras pessoas correrem os riscos que se apresentam?Há uma história que gosto de contar chamada "Tico e os Lobos Maus". Nela, um coelhinho grita por socorro, quando imagina um bando de lobos à sua espreita. Sua mãe chega para afastar seus receios, sempre que necessário. Quando conto esta história, no momento em que o personagem grita, eu empresto minha voz e grito "Socorro!!!" Lembro que, há muitos anos, contando a história em uma formação de educadores de uma creche comunitária eu gritei a palavra e, poucos segundos depois, estavam abrindo a porta a cozinheira e o dirigente da instituição. Demos risadas pois, além do susto em quem ouvia a história, percebemos o susto em quem correu para tentar auxiliar. O tempo passa... Na apresentação de meu portfólio contei essa história e, novamente gritei por socorro. Fiquei intrigada quando ouvi o comentário que, em outra sala ouviram o grito e, por um momento, todos permaneceram quietos até que alguém falou " isso é coisa da Bia". Realmente , era. Mas lembrei do que o Lu dissera...
Quando falamos em evidências, também tocamos em finalidades, em metas, objetivos. Aprendi com uma querida líder comunitária a não pensar pequeno em relação as minhas metas. O que eu desejo, estudando? O que espero alcançar? Que diferença vou fazer? Eu espero e trabalho no sentido de que meus alunos, seus familiares e outros alunos que virão saibam fazer a diferença. Quero contribuir para que existam pessoas mais humanitárias, que consigam descentrar-se, que pensem em si e, também no coletivo. (embora, concorde que nem sempre é possível e necessário...) Acredito que devemos, sim, não pensar somente em coisas ruins mas saber que existem e, se necessário, procurar enfrentá-las.
(Novamente, volto no tempo, e relembro das crianças da Creche João Paulo...) Quero me tornar uma pessoa melhor, ciente de meus defeitos, aceitando alguns e procurando alterar outros. Quero ter coragem de ouvir um verdadeiro grito de socorro e conseguir me arriscar. Fácil? Que nada! Dificílimo, eu diria. Mas com clareza de objetivos e busca incessante de evidências acho que vou construindo um bom caminho.
"Ó vida, ó dor"... como diria o Dr. Smith... "Na dúvida, eu tenho quase certeza" de que insistiria no "Socorro".
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
GRUPO DE ESTUDOS EM EDUCAÇÃO INFANTIL - GEIN
CICLO DE PALESTRAS GEIN 2008
A educação dos infantis
7 abril
As cores da infância: raça e educação infantil. Profa. Dra. Gládis Kaercher
5 maio
Discutindo diferentes lugares da infância. Profa. Dra. Leni Dornelles Mestrandas Carine Weber e Fernanda Morais
2 junho
Espaço: parceiro pedagógico do educador infantil. Profa. Dra. Maria da Graça Souza Horn
7 julho
Notas sobre o amor romântico: gênero e literatura na educação infantil. Profa. Dra. Jane Felipe Doutoranda Suyan Pires
LOCAL – FACED/ sala 101, 9:00 da manhã.
Valor do ciclo: R$ 20,00 com Certificado de Extensão UFRGS
O pagamento poderá ser feito com antecedência no Banco do Brasil, posteriormente enviaremos o número da conta do Ciclo de Palestras, outra opção é realizar o pagamento no dia da palestra, na agência do BB na UFRGS.Nosso e-mail: gein_ufrgs@yahoo.com.br
terça-feira, 18 de março de 2008
Retomando final de 2007 (primeira parte)
A tela ao centro fez parte de minha apresentação de portfólio no final de 2007. Agora, está acomodada na sala de meu apartamento de forma a cristalizar palavras, imagens, desejos e conquistas.Do que me recordo (sim, dois meses de férias produziram uma certa amnésia) saliento o crescimento do grupo como um todo. Percebi claramente o amadurecimento de muitas de nós no sentido de trabalhar objetivando metas, estratégias, argumentos e evidências. (Com certeza, dos dois últimos jamais esqueceremos.) Fiquei particularmente feliz ao assistir a apresentação de uma das colegas que focou seu trabalho em poesia.
Do relato de minha amiga e colega Lú, sobre o projeto de Robótica falo sensibilizada ao relembrar das histórias de vida de alguns alunos e das evidências trazidas de como este trabalho mobilizou professora e turma.
Quando Lu contava sobre a dificuldade de um dos alunos, que cuidava de sua mãe doente, da forma como outro , considerado por muitos um problema, se relacionou com o projeto eu pensava "nossa, isso daria um bom filme..."
Pois ali, além do relato do projeto em si, havia algo muito mais importante que se referia à capacidade da professora conhecer as diversas trajetórias e a partir de cada uma, propor um trabalho objetivando espírito coletivo, concentração, generosidade, atenção , rapidez de raciocínio. Entrelaçados entre os conceitos trabalhados estavam (e estão) aquilo que eu considero mais importante e singular: os valores.
(continua...)