domingo, 10 de dezembro de 2006

ECS 10 ou PAULO, de FREIRE e de JOÃO


A proposta inicial é de comentar a minha participação, até o momento, na atividade de ECS 10. Pouco antes de "entrar em meu blog", a idéia era de iniciar a atividade com algumas falas significativas "de e sobre" Paulo Freire e que estão entrelaçadas com o momento em que vivo. Mas ao ler os comentários de várias colegas naquele espaço chamado wikistórias, não pude resistir ao que a querida colega Adriana Fraga escreveu. Portanto, é a partir do que Adriana escreve que eu inicio esta atividade.


"É hora de olharmos com novos olhos para nossos alunos, percebendo que eles têm limitações como as nossas, têm anseios, dúvidas, angústias, medos, assim como todo ser humano, querendo ser ouvido e amado."
Adriana Fraga

Sou professora. E sou aluna. Os verbos acompanhar, planejar, refletir, avaliar, questionar, estudar, provocar fazem parte de meu cotidiano. Tenho dúvidas, medos e certezas.
Falar sobre Paulo Freire é falar de coisas que acredito, é relembrar de muitos momentos em minha história... ida para a SMED-POA, Escola Cidadã, Seminários Nacionais , Internacionais e Regionais que organizamos-participamos, do trabalho com as escolas da rede, das creches comunitárias e das formações que realizávamos, das caminhadas pelas diferentes comunidades e das conversas com as pessoas...Ilha da Pintada, Rubem Berta, Vila Areia, Vila Tecnológica, Vilas Asa Branca, Minuano, Elizabeth, Nova Brasília... Lugares que talvez eu jamais conhecesse se, não tivesse a feliz oportunidade de, durante dez anos, trabalhar na assessoria pedagógica da SMED, numa gestão de participação popular, com educadores oriundos de locais diversos trazendo a riqueza da diversidade. Aprendi tanto... E reconheço que... ainda tenho, tanto, a aprender...




Ah! A Atividade solicitada... Tentei entrar na página do wikistórias e fazer a minha apresentação pessoal. Escrevi algo breve, pois tinha mais interesse em ler as postagens já colocadas. Escrevi, mas não conseguia editar. Fiquei mais de uma hora tentando fazê-lo . Ao mesmo tempo, refletia sobre a necessidade de fazer de algo tão prazeroso como falar sobre Paulo Freire uma intrincada tarefa de mexer em comandos, traduzir, acompanhar angustiada o movimento dos ponteiros do relógio. Naquele momento, frustrada eu me perguntava se já não fiz, muitas vezes, isso com meus alunos: tão fascinada estava pela "maravilhosa atividade" que eu organizara que esquecera de como ela poderia ser recebida pelos diferentes alunos que possuia. Mas ao ler comentários de colegas que, facilmente, haviam realizado a proposta e expressavam sua alegria, resolvi persistir. Entretanto, a vontade não foi mais persistente que a capacidade. Duas horas depois, estava solicitando ajuda a mais uma querida e solícita colega. Mas acontecera o que eu imaginava; como diria um aluno "já tinha perdido o..." Deixei a atividade para depois.

Criatividade’ é sinônimo de ‘pensamento livre’, isto é, de capacidade de romper cotidianamente os esquemas da experiência. É ‘criativa’ uma mente que trabalha, que sempre faz perguntas, que descobre problemas onde os outros encontram respostas satisfatórias (na comodidade das situações onde se deve farejar o perigo), que é capaz de juízos autônomos e independentes (do pai, do professor e da sociedade), (...) que remanuseia objetos e conceitos sem se deixar inibir pelo conformismo (RODARI, 1982)

Quando Li o que Rodari escreveu, imediatamente lembrei de algo que, ainda hoje, me faz muita falta. E é aí, que "entra" o PAULO, não de Freire... mas de João. Na verdade, João Paulo II. Esclarecendo, melhor ainda, Creche Comunitária João Paulo II. Em outra postagem, em meu blog, já havia feito referência, a ela. Foi a primeira creche a ser visitada por mim, ao começar a trabalhar na assessoria. E a última a receber minha despedida, uma década depois....

Tudo aquilo que eu, enquanto educadora, acreditava, pude acompanhar, na prática, nesta creche. E o mais importante, participei ativamente desta caminhada e construção. Fiz parte, orgulhosamente, de todas as reuniões de formação,das reuniões de pais, de todas as conquistas, os acertos e equívocos, acompanhei a caminhada das educadoras e contribuí na construção de seus saberes.
Participei, junto com educadoras, dirigentes da creche e comunidade, da construção da "PPI da João Paulo": a Proposta político-pedagógica da nossa creche. Nossa! Nossa PPI. Tudo o que desejávamos, acreditávamos e o que íamos fazer.
Em troca, aprendi muito, com elas, sobre Educação Popular e o que Paulo Freire dizia:"amorosidade"...

Quando cheguei na creche, nos primeiros meses, observei a resistência de algumas educadoras que pensavam coisas como "ela vem nos criticar", "vem ensinar o que não sabemos", "ela vai ver nossos erros de Português, dizer que a gente não sabe, escrever..."
Refleti muito sobre a maneira de quebrar a resistência; esclarecendo que aquelas idéias eram muito diferentes de meus propósitos. Eu queria descobrir o que elas sabiam e como sabiam. A partir daí, em conjunto, verificar o que precisava ser mudado, repensado... ou não. Erros de Português escritos em um caderno não me preocupavam. O importante e bonito (Paulo Freire falaria da boniteza...rs) era que HAVIA algo escrito! E isso queria dizer que alguém, minimamente que fosse, planejara alguma coisa, refletira, relatara... Comecei a criar vínculos, com aquele grupo. Eu PRECISAVA de uma coisa: CONFIANÇA.

(Mas, olha só que paradoxo... agora, olho os ponteiros do relógio e penso que eles podiam realizar sua dança de forma mais lenta, tranquila...dando passagem ao meu relato, minhas lembranças... Estou em um lugar aconchegante, fazendo algo que gosto, reletindo, relembrando...sem uma pitadinha de irritação. O tempo passa ligeiro, aqui...)


As educadoras precisavam e queriam saber também da minha história, quem eu era, do que gostava, o que pensava. Nada mais justo.
Mas, voltando ao "escrito" de Rodari, preciso "selecionar" uma parte da história, "copiar, colar" e contar... Diz respeito a um orgulho e a um erro cometido.
Depois de alguns anos acompanhando o trabalho desta creche, surpreendi-me ao ouvir o relato da diretora da instituição: algumas famílias de crianças que haviam terminado o Jardim B e sido matriculadas em escolas regulares da região, traziam notícias inquietantes. As falas eram mais ou menos assim:
"O fulaninho não está nada bem na escola, a professora da minha filha reclama quase todo dia dela, eles não têm bom comportamento, ele já foi até pra direção, fui chamada pela professora, ele não pára, mas o que é que ela aprendeu na creche??"
Bem, meus cabelos e os de Lurdes, diretora e cooordenadora da creche, devem ter-se arrepiado todinhos. Começamos a pensar e questionar: mas o que está acontecendo? Como essas crianças que durante todo o período que aqui estiveram apresentaram, em sua maioria, conquistas , poderiam ter mudado tanto? Mal-educadas? Precisando ser "levadas" à direção? O que fizéramos de errado? Como encaminhávamos crianças que haviam em seus relatórios de desenvolvimento apresentado tantos progressos e que se mostravam, agora, "diferentes" do que a creche enxergava? Mais do que isso, enquanto conversava com Lurdes eu me perguntava "O que eu fiz? Ou, não fiz?"
Mas, depois de algum tempo, percebemos que deveríamos sair à campo, atrás das respostas; Quem falou o quê? De quem? As crianças faziam o quê? O que era considerado falta de educação? Em que situação, foi levado o fulaninho até a direção? O que eles aprendem? Qual, de forma bem clara e objetiva, eram as dificuldades destas crianças? Não estavam se alfabetizando? Em que áreas demonstravam deficiências? Para isso, conversamos com familiares e fomos buscar respostas nas escolas, com equipes diretivas e professores. Eu, particularmente, tive a facilidade de conversar com os colegas que assessoravam estas equipes. Juntando todas as informações começamos a enxergar... E aí, entra o nosso orgulho, meu erro e minha tristeza.
Basicamente a fala dos professores era a mesma: as crianças não páram, estão sempre querendo mais coisas, "se metem na aula"(da professora), "querem ensinar como a gente ensina, vê se pode???", uns "fedelhos", dando idéias... Alguns diziam: "lá na João Paulo" a gente fazia assim....
Em resumo: com poucas exceções, as crianças "que vinham da João Paulo" eram desafiadoras, questionadoras, barulhentas e criativas. E, como uma das mães salientou e um dos professores concordou: "estranhamente" eram as mais solidárias, as que partilhavam merendas, pertences, que brincavam no recreio com qualquer outra criança, gostavam de histórias, teatro e sabiam contar e fazer... "estranhamente"...
As educadoras, Lurdes e eu estávamos orgulhosas. As crianças continuavam vivenciando valores muito salientados na creche, estavam se alfabetizando facilmente e continuavam fazendo o que leváramos anos trabalhando: opinando sem receio, com ousadia... Ficamos contentes e, neste dia, encerrei a visita na creche, com um sorriso. Mas Lurdes e eu, sabíamos que, novamente, íriamos "nos fechar na salinha" e conversar.
Na tardinha deste dia, ao chegar em casa, chorei muito. De tristeza, de felicidade e de constatação. Imaginava as crianças , aquelas nossas crianças, sendo chamadas de metidas, mal-educadas, sendo "perseguidas" por terem a ousadia de questionarem seus mestres. Inquestionáveis, estes mestres seriam? Eu sabia que, não.
Tristeza pelo que estavam vivendo, alegria por estarem "resistindo". Mas, a constatação veio logo: Eu errara ao pensar pequeno. Considerava, há muito tempo, aquele espaço como um oásis, uma ilha. Mesmo acompanhando o relato de colegas que assessoravam as escolas regulares daquela comunidade, jamais pensei que um dia, "as crianças da João Paulo" sairiam do "oásis". Eu deveria estar há muito tempo, preocupada, com isso, e participando mais ativamente de outros fóruns da região. Eu precisava, principalmente, interagir muito mais com quem estava no cotidiano das escolas.
Olho para trás e revejo quantas pessoas interessantes iluminaram meu caminho. Quantas professoras estavam sedentas em questionar seu próprio grupo. E o faziam, lindamente. Agora, saliento(como se fosse em negrito) o orgulho que sentimos ao constatar que estávamos no caminho certo. Ok, com tropeços, dúvidas, lentidão... mas percebíamos, mesmo assim, os resultados.
E foi aí, que começamos a intensificar, cada vez mais, as formações com as famílias.
Pensando bem, poderia escrever horas e horas sobre o que vivi na assessoria e ,especialmente, na João Paulo II: a maneira como realizavam as festas, as combinações feitas com as crianças sobre as brigas no pátio, as atividades de pesquisa a partir da escolha do nome de cada turma, as reuniões de pais (e os preparativos para as mesmas), a pesquisa sócio-antropológica, a formação das educadoras, o trabalho com as coordenadoras, as conversas em seminários e encontros com Tânia Fortuna, Jane Felipe, Maria Carmem Barbosa (a Lika,que tanto acompanhou a equipe de Educação Infantil da SMED), Brandão, Maria da Graça Horn, Gandin e claro, o outro e querido PAULO. Paulo Freire.

Voltando a atividade.... Fiquei algumas horas frente ao computador, relembrando ... Nesse meio tempo, também voltei à página da wikistórias e li, mais algumas coisas. Gostei de ler os comentários de Beatriz Lopes. Ao clicar sobre Bia Guterres, na página da apresentação, a minha surpresa: o que eu escrevera não estava mais lá. Como diz uma colega " relaxar, relaxar..."
Abri e-mail da professora Su Gutierrez que dá dicas sobre este espaço: em algum momento, de hoje, vou voltar e tentar fazer a tarefa da forma desejada pelas professoras.
Mas se quero continuar sendo coerente com meu jeito de ser e "enfrentar" o mundo, realmente, não posso me intimidar. Devo ser sincera ao afirmar que não gostei desta atividade, na realidade, da forma com que foi proposta. Mas, lembrando de algumas crianças, devo dizer que embora não goste vou procurar fazer da melhor forma "do meu possível".


"A realidade não pode ser modificada senão quando o homem descobre que é modificável e que ele o pode fazer".
Paulo Freire



Reflexões, reflexões, reflexões... Acordei as seis da manhã e sentei frente ao computador com o propósito de "desvencilhar-me" da ECS10. São 4 horas da tarde. Não posso, por mais que me aconselhem do contrário, deixar de partilhar outra reflexão . Acredito que a maior parte das pessoas que opta por um curso à distância tem algumas características em comum. Uma delas pode ser a dificuldade em gerenciar o tempo de forma presencial. Penso: fiquei horas realizando parte desta tarefa. Tudo bem. Minha opção. Agora, na grande parte dos momentos, ser obrigada a fazer tarefas em grupo, não me parece sensato. Com a humildade necessária para ser lida e compreendida sugiro que se repense a FORMA como algumas atividades são determinadas. Poder optar também é bonito, saudável e, principalmente, democrático.


"Eu tenho a necessidade de compreender um diferente de mim, se eu quiser crescer. Portanto, a minha radicalidade fenece no agora, Gadotti, momento em que eu me nego a compreender o diferente de mim. Segundo, quando eu compreendo o diferente descubro que há um diferente diferente, que há um diferente que é antagônico. Ou seja, ele é tão diferente de mim que não dá para dialogar comigo em termos profundos. Mas ao descobrir a possibilidade da existência do antagônico, que é o diferente mais radical, eu descubro também que até com o antagônico eu aprendo. E que, portanto, não posso me fechar sectariamente. No fundo, a minha briga não é contra contra os outros; é contra mim mesmo, no sentido de não me permitir cair na sectarização. E a sectarização é a negação do outro, é a negação do contrário, é a negação do diferente, é a negação do mundo, é a negação da vida. Quer dizer, ninguém pode continuar vivo se sectariza. Veja como o stalinismo era a antivida, como o nazismo é antivida. E a democracia só se autentica quando é vida. E esta só é vida quando é móvel, quando tem medo. É preciso se abrir ao máximo, às emoções, ao riso, aos desejos..."
Paulo Freire
(Nova Escola On-line)


À noite, novamente, entrarei na página da wikistória... estou tentando.

2 comentários:

Vera disse...

Olá Bia. Muito bem! Continua construindo teu texto e refletindo sobre o que é ser professora. Acrescenta as trocas e dialogos com os colegas. Infelizmente, alguém anda apagando nossa wikistoria. Abraço, Ver@

Anônimo disse...

Olá Bia! Sinto-me lisongeada por tuas palavras, não sabes o quanto fiquei emocionada pela lembrança. Não sou muito boa com as palavras, mas faço tudo de coração aberto e sempre penso em primeiro lugar no meu aluno,talvez seja por isso que minhas simples palavras fizeram sentido pra ti. Vejo agora que minha contribuição no wikistória valeu a pena. Obrigada, beijos!!!