A senhora nunca me viu. Mas eu a acompanho desde o tempo que o meu irmão ficava dias e semanas no hospital. Eu sabia que tinha uma pessoa que contava histórias, à noite, pra ele. Não me lembro o nome do grupo de vocês. Eram muitas pessoas que contavam histórias, durante a semana. Mas o Sam gostava mais daquela que chegava dando risada e contava a história que ele mais gostava, aquela do coelho que dava gritos.
E o mano me dizia, achando graça, que a contadora gritava por socorro e assustava algumas enfermeiras, que vinham correndo. Ele me contava, feliz. E eu, só hoje consigo dizer, ficava muito brava, com a senhora. Porque era eu que queria estar lá, fazendo ele rir e conversando sobre o que ele quisesse. Era eu.
Aí, ele melhorou e a senhora sumiu das vistas dele e dos meus ouvidos.
Anos mais tarde, vocês se reencontraram no colégio dele. A senhora foi fazer estágio e foi professora do Sam. E, além das conversas de alegria por rever a senhora, ainda ouvi que tinha uma cachorra preta e linda chamada Samanta. O Sam amava muito a Samanta, sabe? Quando meu pai pediu que vocês duas fossem lá em casa visitar o Sam eu nunca quis aparecer. Eu sabia que seria por pouco tempo...
Quando eu estava em casa e vocês chegavam eu me trancava no quarto. Mas depois de começar a ouvir risadas eu deixava minha porta encostada e procurava ouvir o que falavam. E eu a condenava por rir, sabendo que meu irmão estava indo. É...eu não entendia...só sofria.
Uma tarde, a Samanta deu uma escapulida do quarto, não sei se a senhora lembra. Foi pro corredor e me encontrou na porta do meu quarto. Eu fiquei assustada, achando que ela ia latir. Mas ela olhou pra mim e abanou o rabo. E ficou na minha frente, me olhando... Aí, a senhora a chamou e, antes de ir, ela chegou bem perto, devagarinho. Estendi a minha mão, ela cheirou e lambeu. E foi embora em silêncio.
Fui espiar e vi a cachorra preta e linda deitada na cama com meu mano. E ele fazia carinho nela enquanto ouvia uma de suas histórias. Olha, depois que ela apareceu...eu achei que a senhora tinha ido pro segundo lugar e eu...pro fim da fila, no terceiro. Hoje, mãe, sei que não era nada disso. Por muito tempo o ciúmes me acompanhou. Era eu, quando na verdade deveria ser ele...
Meu pai morreu faz dois anos, sabe? De Covid. Mas antes de ir, teve a alegria de conviver com a netinha. Com o pai, consegui conversar sobre o que senti e do que gostaria de ter dito pro meu irmão. E, um dia , falamos da senhora. E ele me contou que meses depois que minha filha nasceu lhe ligou e contou que tinha uma netinha linda e que o nome era uma homenagem ao Sam: Samanta Eliza. Nunca esqueci daquele olhar, sabe? Do olhar da Samanta. Ela me compreendeu, eu acho.
Passei no vestibular e vou ser a primeira pessoa da família, entre tios e primos, a ter um diploma. Eu também, gosto de escrever... Minha mãe me ajuda com a Samanta. Somos nós 3, agora.
Eu contei pro pai que descobri o seu blog e , muitas vezes, ia ler. Chorei muito quando li sobre o Sam.
Eu ouvi, enquanto o pai e a mãe foram na vizinha, a conversa em que ele perguntou o que é morrer, como a senhora achava que era. Curiosa, ouvi sua explicação... e devagarinho a segui quando disse que precisava ir no banheiro. Ouvi seu choro baixinho e vi a Samanta esperando na porta. Em silêncio, pra não mostrar o nosso segredo. Me escondi e, logo, ouvi risadas no quarto.
Prometi pro pai que , um dia, ia lhe escrever ou telefonar. Pra me despedir. não sei se vai entender...mas é como finalmente, soltar aquele balão que precisa voar, sabe? A gente nunca se viu e eu prefiro guardar a senhora como aquela voz, aquele grito que ele tanto esperava, a voz que cantava Escravos de Jó e brincava com as patas da cachorra preta em cima do cobertor. O ciúme era bobo. E eu era uma boba que não conseguia jeito de se despedir daquele que sempre esteve comigo.
Então, quero dizer OBRIGADA. Vou continuar lendo o que escreve. Desejo que a senhora e a Samanta estejam bem e fazendo o seu melhor. A vida segue. Se quiser, pode colocar o que escrevi...De um jeito estranho, vou sentir que, também estive no seu caminho.
E, se não tiver ficado chateada com minhas espionices , pode escrever TUDO OK!
Tchau.





