sexta-feira, 24 de junho de 2022

"TUDO OK!"

 

A senhora nunca me viu. Mas eu a acompanho desde o tempo que o meu irmão ficava dias e semanas no hospital. Eu sabia que tinha uma pessoa que contava histórias, à noite, pra ele. Não me lembro o nome do grupo de vocês. Eram muitas pessoas que contavam histórias, durante a semana. Mas o Sam gostava mais daquela que chegava dando risada e contava a história que ele mais gostava, aquela do coelho que dava gritos.
E o mano me dizia, achando graça, que a contadora  gritava por socorro e assustava algumas enfermeiras, que vinham correndo. Ele me contava, feliz. E eu, só hoje consigo dizer, ficava muito brava, com a senhora. Porque era eu que queria estar lá, fazendo ele rir e conversando sobre o que ele quisesse. Era eu.
Aí, ele melhorou e a senhora sumiu das vistas dele e dos meus ouvidos.

Anos mais tarde, vocês se reencontraram no colégio dele. A senhora foi fazer estágio e foi professora do Sam. E, além das conversas de alegria por rever a senhora, ainda ouvi que tinha uma cachorra preta e linda chamada Samanta. O Sam amava muito a Samanta, sabe? Quando meu pai pediu que vocês duas fossem lá em casa visitar o Sam eu nunca quis aparecer. Eu sabia que seria por pouco tempo...
Quando eu estava em casa e vocês chegavam eu me trancava no quarto. Mas depois de começar a ouvir risadas eu deixava minha porta encostada e procurava ouvir o que falavam. E eu a condenava por rir, sabendo que meu irmão estava indo. É...eu não entendia...só sofria.

Uma tarde, a Samanta deu uma escapulida do quarto, não sei se a senhora lembra. Foi pro corredor e me encontrou na porta do meu quarto. Eu fiquei assustada, achando que ela ia latir. Mas ela olhou pra mim e abanou o rabo. E ficou na minha frente, me olhando... Aí, a senhora a chamou e, antes de ir, ela chegou bem perto, devagarinho. Estendi a minha mão, ela cheirou e lambeu. E foi embora em silêncio.
Fui espiar e vi a cachorra preta e linda deitada na cama com meu mano. E ele fazia carinho nela enquanto ouvia uma de suas histórias. Olha, depois que ela apareceu...eu achei que a senhora tinha ido pro segundo lugar e eu...pro fim da fila, no terceiro. Hoje, mãe, sei que não era nada disso. Por muito tempo o ciúmes me acompanhou. Era eu, quando na verdade deveria ser ele...

Meu pai morreu faz dois anos, sabe? De Covid. Mas antes de ir, teve a alegria de conviver com a netinha. Com o pai, consegui conversar sobre o que senti e do que gostaria de ter dito pro meu irmão. E, um dia , falamos da senhora. E ele me contou que meses depois que minha filha nasceu lhe ligou e contou que tinha uma netinha linda e que o nome era uma homenagem ao Sam: Samanta Eliza. Nunca esqueci daquele olhar, sabe? Do olhar da Samanta. Ela me compreendeu, eu acho.

Passei no vestibular e vou ser a primeira pessoa da família, entre tios e primos, a ter um diploma. Eu também, gosto de escrever... Minha mãe me ajuda com a Samanta. Somos nós 3, agora.
Eu contei pro pai que descobri o seu blog e , muitas vezes, ia ler. Chorei muito quando li sobre o Sam.
Eu ouvi, enquanto o pai e a mãe foram na vizinha, a conversa em que ele perguntou o que é morrer, como a senhora achava que era. Curiosa, ouvi sua explicação... e devagarinho a segui quando disse que precisava ir no banheiro. Ouvi seu choro baixinho e vi a Samanta esperando na porta. Em silêncio, pra não mostrar o nosso segredo. Me escondi e, logo, ouvi risadas no quarto.

Prometi pro pai que , um dia, ia lhe escrever ou telefonar. Pra me despedir. não sei se vai entender...mas é como finalmente, soltar aquele balão que precisa voar, sabe? A gente nunca se viu e eu prefiro guardar a senhora como aquela voz, aquele grito que ele tanto esperava, a voz que cantava Escravos de Jó e brincava com as patas da cachorra preta em cima do cobertor. O ciúme era bobo. E eu era uma boba que não conseguia jeito de se despedir daquele que sempre esteve comigo.

Então, quero dizer OBRIGADA. Vou continuar lendo o que escreve. Desejo que a senhora e a Samanta estejam bem e fazendo o seu melhor. A vida segue. Se quiser, pode colocar o que escrevi...De um jeito estranho, vou sentir que, também estive no seu caminho.

E, se não tiver ficado chateada com minhas espionices , pode escrever TUDO OK!
Tchau.

terça-feira, 7 de junho de 2022

ESPIRAIS - primeira parte

   Lá pelos anos de 2002, 2003 quando assessorava uma creche no bairro Rubem Berta, resolvi promover uma sessão de cinema para as educadoras da instituição. Lembro que, após o filme e comentários emocionados,  todas receberam um pequeno papel, escreveram 3 nomes e fizeram um  planejamento...assim como a personagem principal .

Observe bem a imagem...sobre um detalhezinho que se destaca, talvez eu tenha uma outra história a contar... 


Há dias penso em escrever sobre algumas questões. Guardei na memória algumas recentes falas significativas tipo "não podemos esquecer que o que importa são as...flores...", "senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado...", 
Observo novamente a primeira foto e lembro de uma imagem que registrei há alguns dias.


Como ele mesmo me disse , "É pra vida..."
Nas duas imagens há algumas semelhanças... ambos são professores e buscam alguma coisa. O primeiro, já com muitas cicatrizes, entende que suas difíceis vivências podem se transformar em potência...para o melhor de seus alunos e, consequentemente, de si.
O segundo se despede de um período de sua vida e recomeça nova história com o mesmo olhar atento e sensibilidade da personagem interpretada por Kevin Spacey. 

Como muitos sabem, sou professora, contadora de histórias e , portanto, trabalho muito próxima aos livros. Poderia dizer que sou uma das professoras que trabalha na Biblioteca da escola. Poderia... 
Bibliotecas sempre me fascinaram, entre tantas outras coisas. Tenho a imagem da biblioteca de cada uma das escolas em que estudei. E, também da Biblioteca do SESI, na Leonardo Truda, da Biblioteca da ASBAC, Biblioteca da SOGIPA, da biblioteca primeira: a da casa de meu padrinho.

Então... então, o amigo querido, companheiro de bons momentos com os alunos, na sala que poderia ser chamada de Biblioteca, inicia sua trajetória como professor em uma escola que assessorei há anos, um pouco antes da época que promovi aquela sessão de cinema. Comento com o amigo que auxiliei indicando livros e acompanhando as diretoras, daquela época, na compra de material para  a Biblio que se começava a organizar. 
Pouco tempo depois, recebo mensagem "Estou aqui mexendo na Biblio e olha quem eu acho..."


E eu me vejo, 25 anos mais jovem, sentada com um grupo de professores e coordenadoras na escola onde meu amigo está.  Pois tem como não afirmar que a Vida é uma espiral? Cada vez mais percebo que passamos ou voltamos a mesmos lugares , em diferentes épocas...e estamos mudados. Não somos mais os mesmos, nem os lugares são.

Você que me lê, deve estar pensando na provável salada de frutas que pode ser este texto. Mas eu gosto da não linearidade, além de ser muito boa em fluxos de consciência. Isso de ser boa em fluxos, não fui eu que criei. Quem disse  foi o Luís Antônio Assis Brasil, quando fui sua aluna de criação literária. E se o mestre disse...rs
Agora, percebo porque gostei tanto da série THIS IS US. Porque a não linearidade está presente, as espirais se movimentam, as cicatrizes são expostas e , de alguma forma, tratadas e resignificadas.


Rebecca, a matriarca da Familia Pearsons, se despede em uma espécie de movimento linear, caminhando pelos vagões de um trem. E, paradoxalmente, nada mais não linear do que essa despedida. Ela é uma espiral, certamente.

Então, quase que didaticamente, é hora de relacionar, de fazer entrelaçamentos. E começo com uma das falas significativas, mais precisamente de um senhor chamado Pedro, deitado em um leito na mesma sala em que eu me encontrava, também deitada e aguardando uma melhora.


Cheguei na emergência passando mal, piorei, melhorei, aguardei, piorei novamente, aguardei e , finalmente, estabilizei, como ouvi falarem. Mas foram oito horas  no local e seus anexos. Após ser medicada e ter taquicardia, fui levada para "dentro", passei das salas de recepção, triagem, consultórios e fui para uma sala onde os técnicos  selecionavam as medicações, preparavam exames e faziam comentários sobre o novo colapso de Covid que lota os hospitais e postos de saúde. Ali, pertinho deles, nos leitos, estavam aqueles que precisavam ser monitorados. Eu e o Seu Pedro estávamos lá.
As filhas de Seu Pedro também . Mas em outra espaço, bem pertinho. Podíamos ouvir seus choros e palavras de preocupação. A técnica balançava a cabeça e desviava o olhar para os comprimidos a sua frente. Mas eu percebia que estava atenta ao que se passava. Talvez, quebrando um protocolo, pelo espanto de quem nos monitorava, o médico saiu do consultório e veio , junto com as filhas de Seu Pedro, até o leito do mesmo . E a conversa foi mais ou menos assim:
"Seu Pedro, suas filhas estão aqui... Seu Pedro, antes de qualquer coisa o senhor precisa colaborar. Os procedimentos podem ser incômodos mas são necessários..."
"Pai, estamos aqui. Queremos que fique conosco... É preciso..."
Depois que as filhas e o médico saíram, ouvi um resmungo...olhei para o lado e só enxerguei dor. E ele falou baixinho, como se dividisse um segredo: 
"Senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado..."
Percebi que Seu Pedro queria percorrer aqueles vagões, como a Rebecca fez, como cada um de nós, fará, um dia. Mas as "meninas" não o deixavam partir. E ele ia ficando, com dor... Amar, também é deixar partir, não,  é?
Por outro lado, também é comprometimento, não é? E eu penso sempre no compromisso que tenho em relação à minha petfamília. Certamente, sem eles, eu estaria em outra trajetória...bem mais curta, acredito.

A Vida é uma espiral. E, em um ponto da minha,  me revejo pegando carona da minha querida Silvia Rios, descendo na Protásio, subindo  uma rua e chegando no Hospital Santo Antônio. Lá, como voluntária de uma ONG chamada Viva e Deixe Viver, eu contava histórias tentando atenuar alguma dor. Aprendi muito circulando pelos corredores do hospital, fazendo cócegas em médicos e enfermeiras e contando histórias para quem quisesse ouvir. Talvez por isso, mesmo quando sou a paciente, procuro fazer o outro rir. 

Em outro ponto de minha espiral eu me encontro no auditório de uma das creches religiosas que eu assessorava. As famílias pediram uma palestra sobre saúde, cuidados com recém nascidos, sobre cuidados na infância, de um modo geral.  Convidei minha colega de assessoria que era, além de professora de Ciências, enfermeira. E lá fomos nós, rumo à Vila Navegantes.
A conversa rendeu e impactou muitos familiares após minha colega explicar o que era, na verdade, o nascimento. Dizia ela que, ao nascermos estamos na "plenitude  celular"...há milhões de células em nosso pequeno corpo, trabalhando pela sua manutenção. E, no exato momento em que chegamos ao mundo de fora, como ela explicou, as células começam a morrer. Na verdade, o nosso crescimento, nosso desenvolvimento é a trajetória das células que terminam e das que continuam a sua jornada.  Estamos crescendo e morrendo ao mesmo tempo. E ela dizia " a morte é uma jornada. Está conosco , nos acompanha , desde que nascemos. Mas, vivida de forma saudável , podemos fazer muitas coisas para que a jornada seja uma bonita história a se contar."

Mudar é morrer um pouco, também, não é?

Fim da Primeira Parte
Mas aguarde...que eu ainda tenho o que  contar...