quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pelos olhos de todos nós...



Eu sou um "saco"! E foi assim que comecei a perceber...
Dia de sol, sentei na frente da casa com uma das cachorras e fiquei aproveitando um tímido calor.
Pela rua,  um rapaz aparentando ter menos de trinta anos, se aproximou: mochila surrada nas costas, sapatos gastos e camiseta de manga comprida. (só pra situar, estamos no inverno e , nesta época, até o sol é cúmplice da estação...)
Pouco antes de sentar na varanda eu arrumara cuidadosamente os sacos de lixo e os colocara na calçada, à espera do recolhimento, mais tarde.
O rapaz , sem perceber minha presença, rasgou um dos sacos deixando cair metade de seu conteúdo no chão, enquanto procurava algum material que o interessasse. Não parecia nem um pouco preocupado com a sujeira que espalhava. E aí, começou o meu desconforto: ao ver sua ação, imediatamente , pensei "Puxa! Mas precisa rasgar e fazer essa lambança? Custava desamarrar o nó?"
Meu desagrado deve ter sido acompanhado de algum movimento pois ele virou e me enxergou. "Fechei a cara" tipo "estou vendo o que você está fazendo e não estou gostando!" Fui encarada por alguns segundos antes que a busca continuasse. Entretanto, ao encerrá-la, o rapaz buscou meus olhos e, cuidadosamente, recolocou o lixo no saco e fez das pontas que rasgara um nó. Abriu com estudada lentidão, para que eu acompanhasse, o outro saco  e fez a mesma busca. Nada o interessou e amarrou-o como o encontrara.
Certamente, já desanuviara meu semblante e esperava acompanhar a sua retirada silenciosa. E foi então que ele se aproximou das grades que separavam a varanda da calçada e me ofereceu os seus olhos. E li, nos pontos esverdeados daquele rosto,  uma compreensão que eu não tivera. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, insistiu no olhar , me informou e perguntou "Senhora...eu pedi na outra casa e  não puderam me dar... a senhora me consegue um copo d'água ?"
Então, junto com o bolo estranho na garganta veio uma imagem...e eu lembrei da Olga e de sabonetes...

Era na década de 90 e eu começara a trabalhar em minha nova função como assessora pedagógica na Ed. Infantil. Eu iria acompanhar o trabalho de nove escolas e creches na cidade. Minha primeira visita e participação foi em uma creche comunitária em uma vila da região norte de Porto Alegre. Olga, a coordenadora, me receberia. E recebeu. Embora, de uma forma peculiar.
Minha expectativa era grande: conhecer a coordenadora, que me relataria o trabalho que estava sendo realizado, mostraria o espaço, as turmas, as educadoras, as crianças...sentaríamos, eu perguntaria de que forma ela pensava que eu pudesse ajudar,  etc, etc...
Cheguei na creche com caderno e canetas novas, como uma ansiosa aluna, á espera de sua primeira aprendizagem formal. E o incrível é que foi...mas sem os acessórios típicos do que é formal. Ao abraçar-me na entrada, Olga segurou minhas mãos e me puxou para uma pequena sala já esclarecendo:
"Hoje é um dia daqueles, Bia! Não vou conseguir ficar em reunião contigo por muito tempo, viu?"
"?"
É o seguinte: morreu uma das moradoras  da vila e o velório está acontecendo... e tu sabes né...ela tá sendo velada aqui..."
"Aqui? Aqui, na creche? Com as crianças???"
"Não , Bia (suspirou pacientemente para mostrar a impaciência frente a minha lentidão de raciocínio...)... aqui ao lado. Todo mundo sabe que o salão da associação é ao lado da creche. Parede com parede, na verdade."
"É? Bem, eu não sabia... então, vais participar do velório, é isso?"
"Não. Na verdade eu te conto isso porque vais ouvir, quando fores ao refeitório comigo, o barulho das rezas e choros...Não há outro lugar pra que ela seja velada, sabe. Tem que ser na associação. É praxe. Eu já fui ali e já falei com a família, abracei todo mundo e lembrei que temos as crianças ao lado...Mas eu não vou poder ficar porque a esposa do meu marido está em casa, doente, e eu preciso ir até lá, medicá-la.
"Como???"
E Olga me explicou, com renovada paciência, que se juntara com o grande amor de sua vida, um caminhoneiro bem apessoado, segundo ela. Depois de um tempo, soubera que ele era casado. Em suas explicações e justificativas para ter omitido este pequeno detalhe durante anos, o companheiro de Olga falara que a esposa tinha câncer e depressão e que ele, embora não mais a amasse, jamais a abandonaria.
"E onde ela está?", perguntou Olga.
"Em Santa Catarina, morando com minha irmã que cuida dela, quando estou aqui no Rio Grande."
Então, traga pra cá. Para minha casa. Eu vou cuidar dela. Vamos viver os três..."
E assim foi, até o caminhoneiro bem apessoado ter um ataque cardíaco e deixar as duas. E sua companheira, ficou com a esposa Amália, cuidando, velando seu sono, acompanhando suas faltas de ar, levando-a para as consultas...
"Mas é bem pertinho, Bia. Vou lá, dou o remédio e volto. Menos de quatro quadras da vila..."
Neste momento eu já fechara o caderno, guardara a caneta e me tornara uma esponja, absorvendo o que me era exposto. E aprendendo a ouvir, esperar, silenciar, questionar em momentos específicos...
e ouvindo um coro específico:
"Pai nosso que estais no céu..."
"Bia, vou lá. Já volto. Tu ficas e vai conhecendo a creche. Bem que podes ir ao lado..."
"..santificado seja o vosso..."
"...cumprimentar a família . Pode ir. Eles são muito amigos da creche...nos ajudam bastante..."
"..nome. Venha a nós..."
" Certo, Olga. Mas prefiro ficar na creche e conhecer a família, se necessário, em outro momento, ok?"
Olga não era apenas uma coordenadora. Era uma líder comunitária, uma alma expandida que abraçava pessoas e animais em seus momentos de fragilidade.
Com ela e através dela, muito aprendi. E tive a oportunidade de retribuir compartilhando algumas questões. E o sabonete foi uma delas...o calcanhar de Aquiles de Olga...
As crianças  tinham uma alimentação adequada e bem preparada, tinham brinquedos, educadoras que as estimulavam, materiais para pintura, desenho, argila...Olga se orgulhava do trabalho realizado e da atenção e cuidado com as crianças da creche. Muitas vezes falava que todos eram orientados em relação à higiene e cuidados com as roupas e que os pais reconheciam e agradeciam por isso. Mas um menino do jardim B, novo na creche, morador da parte "mais longe, na divisa" não conseguia estar dentro dos padrões almejados pela coordenadora: suas roupas vinham sujas ou amarrotadas. Ela conversara com a mãe que sempre dava uma desculpa mas retornava a enviar o filho com roupas sujas e, na mochila, algumas, até úmidas.
"E sabonete, Bia...nem pensar! Ele não usa sabonete ao ir no banheiro. Sempre temos que relembrá-lo!"
"Ok, vocês o relembram...e ele, usa, depois?"
"Sim..."
"?"
"Sim! Mas não está certo, Bia! Já mandei até sabonete na mochila pra ele tomar banho, pra mãe lavar as roupas dele... e nada!"
"Mandou?"
"Sim!"
"Olga, onde ele mora?"
"Lá no fim da vila..."
"Conhece?"
"Já fui lá há alguns anos..."
" E se tu parasses de mandar sabonete, de questionar a mãe...e fosses fazer uma visita? se combinasse com ela...seria possível? O que achas?"
"Tá bom..."
E lá se foi, depois de alguns dias, a desafiada , intrigada pela minha sugestão.
Após a visita, ao relatar-me o que acontecera, Olga chorava ao lembrar do que vira e não imaginara:
O menino, seus irmãos e a mãe viviam no final de um beco onde a luz do sol não conseguia chegar. Não havia pátio ou espaço para que roupas fossem estendidas ao ar livre. Também não havia banheiro. O banho era tomado algumas casas adiante, pequenas peças, na verdade. A vizinha compartilhava o pouco espaço de seu banheiro para que as crianças  pudessem tomar  um banho que não fosse de "caneca". Mas a mãe das crianças tinha vergonha e não queria abusar.
"Por isso Bia, as roupas úmidas, amassadas, ... e a gente não imaginava... Eles não têm o hábito de usar sabonete onde moram, sabe. É artigo de luxo. E sabe de uma coisa? A mãe me olhou nos olhos e me contou que todos os sabonetes que recebia da creche, dava para a vizinha como forma de gratidão...Ela me olhou bem nos olhos e eu soube que ela sabia o que eu pensava...e que me perdoava...acho que nunca vou esquecer aquele olhar, sabe... a gente acha que faz um monte, que sabe tudo, a gente julga os outros, muitas vezes sem saber...eu me achava a última cerejinha do bolo, sabe, Bia? Mas, na verdade...eu sou um saco!"
Olga e eu , em nossas conversas futuras, desconstruímos esse sentimento de culpa, buscando efetivas ações para que nosso olhar fosse outro, mais perceptivo, mais abrangente e, como consequência, as crianças fossem beneficiadas com isso. Tenho orgulho de relembrar que conseguimos...


Então, o rapaz  olhou bem nos meus e eu soube que a maior compreensão vinha dele:
"Eu pedi água na casa lá da esquina mas eles disseram que não tinham como me dar..."
"Ok, eu vou lá buscar. Esperaí..." e no caminho para a cozinha fiquei pensando nos vizinhos, que provavelmente não queriam oferecer um de seus copos para o desconhecido. Peguei um copo, abri a geladeira e vi o suco de maracujá que eu fizera pela manhã. Peguei a garrafa e saí.
"Gosta de suco de maracujá? Quer?"
E ele não me respondeu de imediato pois olhava o  copo que eu oferecia.
Depois de segundos, afirmou que tomar um suco de maracujá seria uma benção. Enquanto eu, em silêncio aguardava, contou-me que não era morador de rua, que tinha um trabalho e que , depois de largar o seu turno, vinha pelas ruas procurando material para reciclar, para que pudesse aumentar sua renda.
"E a gente tem que ser rápido, sabe? Porque muitas vezes as pessoas nos xingam... Obrigado, senhora. Esse suco foi uma benção. Fique com Deus."
Devolveu-me o copo, olhou nos meus olhos mais uma vez e eu soube que me perdoou. E se foi, pelas ruas, buscando melhorar da forma possivel, sua vida.
E eu? Eu sou um saco... mas posso melhorar...
.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Foi-se...


Foi-se hoje, em uma das primeiras horas da manhã.
Foi-se a mansidão acomodada, por anos, em um corpo grande de Rottweiler.
Foi-se o olhar amoroso.
Foi-se o olhar temeroso das artimanhas de uma gata chamada Matha Hari...que sabia provocá-lo.
Foi-se o paciente Thor que aguardou o momento de se reunir à família, em um espaço que sua tutora sempre sonhou e buscou.
Foi-se, pela manhã, a confiança e generosidade em 4 patas.
Foi-se o Thor, que em seus últimos meses, brincou , cheirou grama, esperou ansiosamente sua tutora, todas as noites, para festejá-la e reafirmar o seu amor, interagiu confiantemente com seus manos caninos e dormiu, até a última madrugada ao lado de seu pai.
Foi-se a força e a serenidade ao demonstrá-la.
Foi-se o caminhar majestoso e intimidante para os que não o conheciam.
Foi-se o Thor  da dedicação, do amor pelos seus e da esperança de um eterno reencontro... (bem sei...)
Foi-se para o lugar onde era esperado . Foi festejado e acolhido, certamente. Deixa saudades e a certeza de que o aprendizado foi mútuo e importante.
Foi-se , com a Morte, viver em melhor lugar.
Fica bem, filhote!
Inté!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aos de abril

Acordei com o nome da intérprete martelando em minha memória: Leona Lewis. Leona Lewis, Leona Lewis... Busquei a intérprete, achei a música, relembrei uma foto e uma conversa na madrugada (foram muitas no período de 2006 a 2010...) Então, calculei mentalmente e percebi que hoje é "um dia antes de um belo 22"...
Escrevi , no Interdisciplinas, uma postagem sobre a querida  Iris

Foi em abril de 2000 que "nasceu" a Rádio Esmeralda, estrelada pela Adriana Marques e pela Simone Rasslan. A última vez que falei com Adriana foi frente ao prédio da SMED, onde trabalhamos. Vestia um casaco comprido marron e dava risadas de uma bobagem que eu dissera. 
Adriana, assim como a Íris, foi realizar outros trabalhos, além dessa vida.


Humberto Salla chegou nesse mundo em um abril . Partiu há pouco tempo, deixando para o seu companheiro Juliano, acredito,  a tarefa de ampliar a sua obra...

Os que partiram, certamente cumpriram suas tarefas. E aqui deixaram, filhos, netos, companheiros, alunos, amigos..
Se eu pensar apenas nessas 3 pessoas , Iris, Adriana e Humberto, consigo visualizar a gigantesca rede de afetos construída. Uma rede que se entrelaça com outras, que alcançam mais outras... Sim, a Íris iria adorar isso...trabalhava nisso, vivia transformando as diferentes redes desse mundo em trabalho, alegria, bom humor...em generosidade.
Humberto é aquele que escondia com suas vestes o coração fora do peito. Porque , sim, o peito era pequeno para tão grande coração.
Adriana... cantando, rindo e encantando.
Seria bem interessante se os 3 se encontrassem...ou reencontrassem, quem sabe.
Se a vida, atualmente, nos mostra que as dificuldades se agigantam e o que está por vir será complicado...apesar de tudo, ao relembrar desses três...tenho a certeza de que tudo tem a sua hora e lugar. E que vale a pena estar por aqui. Até breve, Iris! Inté, Humberto! Até, Adriana!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Eu não sei...


Em alguns momentos, é mais fácil dizer "não sei"...
Acordei pensando em várias coisas. Acordei "com cabeça de caleidoscópio"...
Entre várias, abri meus olhos matinais com a sensação de ter morrido e voltado: "ok, você tem mais um tempinho...vá lá e conserte as coisas..." Aí, realmente, acordei: acertar, consertar o quê??? Fazer o quê??? Dizer o quê???
Ser super sincera, talvez? Geralmente sou, excetuando momentos que percebo ser melhor ficar calada... pensando e observando...
Quem sabe, devo começar escrevendo sobre a "bronca" que tenho com a palavra "Gratidão", tão usada em redes sociais, em emails, reportagens, etc... Será? Não sei...
Mas antes da palavra ( e apenas isso mesmo...a palavra) relembro da pergunta feita em pouco espaço de tempo por duas pessoas a quem muito gosto e admiro . Ambas, de jeito e intensidade diferentes me perguntavam " Mas Bia...não achas que está na hora de parar? Mudar o foco?"
Qual é o meu foco? Alguém sabe? Eu sei?
Bom, se olhar a postagem anterior deste mesmo blog eu diria que sei. Mas um tempo já passou e agora, talvez deva dizer que já não sei...
Bem, vamos refletir sobre o uso da palavra Gratidão, inicialmente.
Há  tempos atrás, confidenciei à Adri, uma de minhas fiéis amigas, que ler Gratidão, Gratidão, Gratidão, nas redes, me incomodava. Sinto falta do pronome aí, sabe... Do pronome pessoal: EU. Eu agradeço. Eu te agradeço. Eu te agradeço por isso, isso e isso...
Tenho a impressão, usando a lógica do simples uso dessa palavra , que poderia entrar em uma lanchonete e dizer a um atendente: "Fome" E ele responderia "Pizza? Sanduíche? Suco? Refri?" "Pizza . Calabresa ... Suco. Abacaxi...Quanto?"
Ao pagar, talvez dissesse "Gratidão".
Então eu penso sobre a tal  da rapidez, da necessidade de nos comunicarmos  com o maior número de pessoas (leitores , expectadores, seguidores...)  Conheço pessoas maravilhosas que fecham suas postagens com a Gratidão. E conhecendo-as pessoalmente , sei de todo o sentimento e significado generoso e de reconhecimento que trazem na escrita dessa palavra. Ela se transforma e, sim, é a manifestação de um genuíno sentimento. "Enxugam" as palavras, as frases com a percepção de que a escrita da única , basta. Ok, percebo e funciona.
Mas também observo que, para alguns é muito mais fácil usar uma , talvez, falta de comprometimento...na verdade não consigo dizer "obrigada por isso, por isso e mais isso... porque , se o fizer, vou  me comprometer ou, simplesmente, porque não aprendi a agradecer olhando nos olhos, dando aquele abraço e dizendo "conta comigo"... Estarei louca? Mas quando leio Gratidão estampada nas postagens de algumas pessoas que conheço fico pensando e repensando...
rs Acho mesmo que morri e estou na antesala de alguma coisa, esperando a minha vez de ser chamada. Para "matar" o tempo, os Anjos (minha esperança é que sejam...) me ofereceram a oportunidade de escrever pela última vez em meu blog.  Acho que devo olhar para eles, sorrir e dizer "Gratidão", afinal são Anjos e me acompanham há tempos. não necessito explicar nada...
Há algum tempo atrás, pensei ser professora de Português. Desisti. Mas admiro essa turma, que sim, considero heróica.
"Quem não se comunica, se trumbica. " Essa frase é do Cacrinha, não é?
E a gente se comunica, como? Mas eu preciso pensar sobre isso? Agora? na antesala do "alguma coisa"? Não sei...
O que sei é que tenho o sentimento de inacabado. A percepção de que posso fazer alguma coisa...e o que eu posso fazer está relacionado intimamente com o OUTRO. E, fazendo com e pelo outro, faço por mim. Porque, talvez, eu seja isso mesmo: uma parte incompleta que busca caminhar ereta. E a tal da, digamos completude, se dá quando compartilho o que sei, o que penso, o que desejo, o que sonho com alguém...e quando isso faz diferença.
"o que sei, o que penso..." oras, então eu sei, não é? Não sei se sei...
Sou incompleta, inacabada mesmo, mal humorada, bem humorada, insistente, alegre , triste, solitária na multidão (e gostando de ser), ...lembro da Sandra e das meninas amigas de minha antiga escola e penso na frase "é difícil evoluir..." rs
Agora eu percebo que já morri, mesmo. E que a "antesala de ..." é aqui em casa, onde estou, sentada ao lado da Nith, da Samantha, ouvindo Loreena McKennitt e escrevendo em meu notebook. Já morri diversas vezes e sei que muitas outras virão. Afinal, precisamos evoluir, não é?
E o que eu faço, o foco, a falta de foco, a insistencia, o silêncio, a observação o sentimento de impotência por vezes...tudo isso faz parte de meu aprendizado "nessa lição".
Interessante ter certezas e dúvidas...e entrelaçá-las...
Eu agradeço por ter amigas que me entendem e me atendem. Eu agradeço por trabalhar com o que gosto, tendo prazer . diariamente. Agradeço  por eu ter o que acredito que me sustenta em momentos chatos, complicados ...agradeço por ter Fé. Espero, que como os Anjos, nunca me abandone. "Vamoquevamo", como diz a Juli.
rs Mas aí, releio o que escrevi e penso "mas eu sei ser uma peste, também..." Bom... existe a possibilidade de evolução... Vamos trabalhar nisso...
Acho que , agora aos costumes, vou telefonar para Vainir... afinal, amigas já aposentadas são para isso também, não é? Ouvir as elucubrações alheias, com afeto e tolerância, nas horas mais estapafurdias. (mas agora, nem é...) rs Vainir!!! Atende aí!!!

PS: Mas não posso deixar de roubar a idéia da Carmen, outra querida amiga: depois que sair da antesala, ao ser chamada pelo "Coordenador dos Trabalhos" , vou puxar um banquinho, sentar, olhar firmemente e perguntar "Mas Senhor...pra que tanta bagunça, lá embaixo? Não daria para facilitar um pouco...?" Putz! Lá vou eu evoluir , outra vez! Faz parte.

terça-feira, 1 de março de 2016

"Para onde eles vão"



Escolhi escrever ouvindo Halo, da Beyoncé... gosto desta melodia, relembro um clipe onde ela canta para os internos de um hospital. 

Mas relembro dela e de sua voz apenas como introdução. O que me "martela a cabeça", neste momento, é uma cena e uma pergunta. A cena é do filme Temple Grandin onde a própria, ao presenciar a chocante cena do abate de uma vaca, no matadouro, pergunta "Pra onde eles vão? Pra onde eles vão?"

Temple, para quem não sabe, não é apenas personagem de seu filme: ela é uma estudiosa, importante referência nos EUA e no mundo ... Temple Grandin é autista e suas contribuições são reconhecidas internacionalmente. Mas, agora, o mais importante é o "Para onde eles vão???"
"Para onde eles vão" pode servir para quem parte mas, de outra forma, também para quem fica... Para onde eles vão? Para onde nós vamos?
Fevereiro foi um mês punk...Começou com celebração à Vida, com despedidas da própria, com testemunhos de intolerância e violência... Para onde estamos indo?
Aqui no RS, no momento, temos um governo incompetente , entrelaçado com omissão, descaso pela população e  uma gigantesca insensibilidade: o governador e seus escolhidos não sabem , não desejam e nem cogitam "se colocar no lugar do outro", para sentir o que não sabem... Como disse, ao ser entrevistado, a pessoa que ocupa o lugar de Secretário da Segurança ..."não vou nessas vilas..." O repórter perguntara se ele suporia abandonar sua escolta de segurança e ir até uma das vilas de Porto Alegre, marcadas pela violência. Infelizmente, sua resposta mostra o despreparo , a insensibilidade de alguém que só deseja se dar bem. Os outros que se "lixem". Qual foi mesmo uma das primeiras ações do novo governador ao assumir ? Aumentar o seu, do vice e outros salários... ação que foi revista depois, devido à repercussão na mídia. Acreditam que foi revista, mesmo? Que privilégios "para os seus" não foram distribuídos?
Bem...mas volto à pergunta inicial..."Pra onde eles vão?"

'
Penso e repenso ao lembrar de uma pessoa chamada Humberto, de outra chamada Íris, de mais uma chamada Mara, de um pequenino cuspidor lá da escola onde trabalhei, de uma amada adolescente, aluna de minha turma de estágio... penso na Dora, que tanta falta faz para uma de minhas queridas amigas...penso na mãe da Regi, na minha mãe, na mãe da Juli... Então relembro de meu padrinho e da absoluta certeza que tive de que sua partida se realizara porque ele não aguentaria viver no mundo para onde estamos indo. Sua saída se efetivou com o propósito de preservar sua gentileza, sua sensibilidade exacerbada... acho que para poupá-lo.

Minha madrinha, sua companheira por mais de 50 anos, confidenciou-me, sentada em sua cama, meses depois da morte de seu companheiro: "Doca, ontem teu padrinho veio até aqui. Ele sentou nessa cama e me disse que em breve vem me buscar..." Naquele momento, dei umas batidinhas consoladoras na mão enrugada à minha frente dizendo que  não pensasse naquilo, que ainda tinha um tempo conosco, com seu filho, com seus netos...que em breve, sim, faria uma viagem para passar o Natal com todos eles...que a Vida continuava e que meu padrinho , certamente, desejava que estivesse em paz. Três dias depois, na noite de Natal , ela se despedia dos netos e filho dizendo que estava cansada e ia tirar um cochilo. Dormiu e não mais acordou entre nós. Se foi, como o prometido.

" Para onde eles vão?"

Ação e reação... para onde vamos está ligado intimamente com nossas ações, com o que fizemos e com o que representamos.
Olho as pombas enfileiradas no fio de um poste em frente à janela de meu quarto e lembro da Íris e da conversa que teve , no PEAD, comigo e com a Iliana... As abelhas e as pombas (e os filhotes de pombas por mim jamais vistos) sempre me lembrarão da risada de nossa querida mestra e dos seus comentários bem-humorados. Mas lembrarei, em outros momentos de sua suave elegância e de sua grande generosidade .
Não estou triste, aviso. Estou apenas saudosa...saudosa de quem conheci e foi importante em minha jornada...das pessoas que, de diferentes formas, me ajudaram a crescer, a me transformar em quem sou.  Para onde elas foram? Para um lugar  melhor, certamente. Porque era chegada a hora de sua partida, porque seus serviços, sua experiência, sua generosidade, sua capacidade de transformar...eram necessários e solicitados em outros lugares.
E nós, que ficamos? Para onde vamos?
A resposta é outra...ficamos porque ainda temos que aprender, compartilhar, errar, acertar, perdoar, sermos perdoados... ficamos porque não chegou nosso grande momento. E quando ele chegar...que seja pleno, belo e justificado.
Penso nas memórias que temos ou perdemos e lembro de mães que não conheci ...mas de suas filhas com quem convivi (e ainda convivo) Penso na Regi, na Juli e na capacidade que ambas possuem de perpetuar a Vida através do que aprenderam, através de suas filhas, netos...através de incontáveis atos de generosidade e sensibilidade...
Penso na Val e em sua força através de aparente fragilidade...na sua tristeza neste momento...e desejo que fique bem...que continue celebrando a Vida com bom humor...com alegria, acompanhando sua pequena...
"Para onde eles vão?" Para onde forem necessários...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Para a "amigairmã"...


Começou a arrumar as malas devagar..a cada dia, colocava um item que julgava muito necessário: lembranças da infância, saudades do pão quentinho feito por sua avó, um sorriso recebido ao demonstrar que já não tinha receio de cair da escada, o primeiro e significativo olhar, o primeiro beijo... a imagem de um pequeninho embrulho entregue por uma enfermeira no hospital, o orgulho de ter gerado, a alegria de ter acompanhado, a satisfação de ter guiado...
O tempo ia passando e o conteúdo da mala se agigantando... Em uma noite, resolveu singularizar o Tempo e com ele, conversou por algumas horas. O Tempo sentou na cabeceira de sua cama e contou-lhe um de seus segredos. E ela sorriu e acenou afirmativamente.
No outro dia, começou a desfazer as malas, recolocando tudo em diferentes lugares. Na manhã seguinte, enquanto sua pele se rejuvenescia e seus olhos ganhavam outro tom, a família observava o contrário: olhos que já não se abriam, dedos que pouco  se moviam, uma pele que dormia...
Na outra manhã, todas as malas estavam guardadas e seus pés descalços formigavam convidando-a a levantar. Resolveu ficar mais um pouco, respeitando o prazo limite confidenciado por seu amigo.

Em poucos dias , o corpo estava mais leve, pronto para alcançar grandes e necessários vôos. Seu cabelo voltara a ter o brilho e comprimento da adolescência. Sabia estar pronta mas aguardou. Passou a tarde com uma de suas mais queridas e próximas  amigas. Riu discretamente ao perceber que sua companheira não percebera a contribuição mágica do Tempo. Mas, feliz por estarem novamente juntas, enovelou-a em seu manto de amizade e gratidão. E, neste momento, teve a certeza de que, mais uma vez, iriam se reencontrar e celebrar o que jamais acaba...
Horas mais tarde, partiu. Deixou o corpo, as malas, as roupas, as lembranças, a saudade e a alegria pelo que vivera e fora tão bom. Na saída, já tinha outra matéria, que preferiu visualizar em corpo:  jovem, atento, aberto para novos caminhos...Foi caminhando...depois, resolveu pedalar...


E logo, ao passar pelo Tempo que lhe acenava sorridente, percebeu não mais precisar da bicicleta: recebera de volta o que deixara guardado em outros tempos. Agora, ela já conseguia voar!