terça-feira, 1 de março de 2016

"Para onde eles vão"



Escolhi escrever ouvindo Halo, da Beyoncé... gosto desta melodia, relembro um clipe onde ela canta para os internos de um hospital. 

Mas relembro dela e de sua voz apenas como introdução. O que me "martela a cabeça", neste momento, é uma cena e uma pergunta. A cena é do filme Temple Grandin onde a própria, ao presenciar a chocante cena do abate de uma vaca, no matadouro, pergunta "Pra onde eles vão? Pra onde eles vão?"

Temple, para quem não sabe, não é apenas personagem de seu filme: ela é uma estudiosa, importante referência nos EUA e no mundo ... Temple Grandin é autista e suas contribuições são reconhecidas internacionalmente. Mas, agora, o mais importante é o "Para onde eles vão???"
"Para onde eles vão" pode servir para quem parte mas, de outra forma, também para quem fica... Para onde eles vão? Para onde nós vamos?
Fevereiro foi um mês punk...Começou com celebração à Vida, com despedidas da própria, com testemunhos de intolerância e violência... Para onde estamos indo?
Aqui no RS, no momento, temos um governo incompetente , entrelaçado com omissão, descaso pela população e  uma gigantesca insensibilidade: o governador e seus escolhidos não sabem , não desejam e nem cogitam "se colocar no lugar do outro", para sentir o que não sabem... Como disse, ao ser entrevistado, a pessoa que ocupa o lugar de Secretário da Segurança ..."não vou nessas vilas..." O repórter perguntara se ele suporia abandonar sua escolta de segurança e ir até uma das vilas de Porto Alegre, marcadas pela violência. Infelizmente, sua resposta mostra o despreparo , a insensibilidade de alguém que só deseja se dar bem. Os outros que se "lixem". Qual foi mesmo uma das primeiras ações do novo governador ao assumir ? Aumentar o seu, do vice e outros salários... ação que foi revista depois, devido à repercussão na mídia. Acreditam que foi revista, mesmo? Que privilégios "para os seus" não foram distribuídos?
Bem...mas volto à pergunta inicial..."Pra onde eles vão?"

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Penso e repenso ao lembrar de uma pessoa chamada Humberto, de outra chamada Íris, de mais uma chamada Mara, de um pequenino cuspidor lá da escola onde trabalhei, de uma amada adolescente, aluna de minha turma de estágio... penso na Dora, que tanta falta faz para uma de minhas queridas amigas...penso na mãe da Regi, na minha mãe, na mãe da Juli... Então relembro de meu padrinho e da absoluta certeza que tive de que sua partida se realizara porque ele não aguentaria viver no mundo para onde estamos indo. Sua saída se efetivou com o propósito de preservar sua gentileza, sua sensibilidade exacerbada... acho que para poupá-lo.

Minha madrinha, sua companheira por mais de 50 anos, confidenciou-me, sentada em sua cama, meses depois da morte de seu companheiro: "Doca, ontem teu padrinho veio até aqui. Ele sentou nessa cama e me disse que em breve vem me buscar..." Naquele momento, dei umas batidinhas consoladoras na mão enrugada à minha frente dizendo que  não pensasse naquilo, que ainda tinha um tempo conosco, com seu filho, com seus netos...que em breve, sim, faria uma viagem para passar o Natal com todos eles...que a Vida continuava e que meu padrinho , certamente, desejava que estivesse em paz. Três dias depois, na noite de Natal , ela se despedia dos netos e filho dizendo que estava cansada e ia tirar um cochilo. Dormiu e não mais acordou entre nós. Se foi, como o prometido.

" Para onde eles vão?"

Ação e reação... para onde vamos está ligado intimamente com nossas ações, com o que fizemos e com o que representamos.
Olho as pombas enfileiradas no fio de um poste em frente à janela de meu quarto e lembro da Íris e da conversa que teve , no PEAD, comigo e com a Iliana... As abelhas e as pombas (e os filhotes de pombas por mim jamais vistos) sempre me lembrarão da risada de nossa querida mestra e dos seus comentários bem-humorados. Mas lembrarei, em outros momentos de sua suave elegância e de sua grande generosidade .
Não estou triste, aviso. Estou apenas saudosa...saudosa de quem conheci e foi importante em minha jornada...das pessoas que, de diferentes formas, me ajudaram a crescer, a me transformar em quem sou.  Para onde elas foram? Para um lugar  melhor, certamente. Porque era chegada a hora de sua partida, porque seus serviços, sua experiência, sua generosidade, sua capacidade de transformar...eram necessários e solicitados em outros lugares.
E nós, que ficamos? Para onde vamos?
A resposta é outra...ficamos porque ainda temos que aprender, compartilhar, errar, acertar, perdoar, sermos perdoados... ficamos porque não chegou nosso grande momento. E quando ele chegar...que seja pleno, belo e justificado.
Penso nas memórias que temos ou perdemos e lembro de mães que não conheci ...mas de suas filhas com quem convivi (e ainda convivo) Penso na Regi, na Juli e na capacidade que ambas possuem de perpetuar a Vida através do que aprenderam, através de suas filhas, netos...através de incontáveis atos de generosidade e sensibilidade...
Penso na Val e em sua força através de aparente fragilidade...na sua tristeza neste momento...e desejo que fique bem...que continue celebrando a Vida com bom humor...com alegria, acompanhando sua pequena...
"Para onde eles vão?" Para onde forem necessários...

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