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terça-feira, 20 de novembro de 2007

"Um galo sozinho não tece uma manhã"

"Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos".

[João Cabral de Melo Neto, in Tecendo a Manhã"]

A rede aumenta a cada dia e é tecida em nossas casas, no Pólo, em casas de parentes, em praças de POA. Para o trabalho de Literatura , organizamo-nos de forma a nos encontrarmos em diferentes locais (Praça Província de Shiga, QG da mãe da Lú e, por último, na Praça Leonardo Macedônia.) Outros trabalhos e lugares virão. Mas fica a constatação de que nosso grupo aumenta, prazerosamente, a cada dia: filhos, maridos, cachorros nos acompanham e nos auxiliam com idéias ou com sua presença.
No dia 19, finalmente, nosso grupo realizou a tarefa combinada e prometida. DIVERTÍMO-NOS MUUUUITO! Valeu!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Um pouco da gente...

Esta postagem está no webfólio da Interdisciplinas Artes Visuais, excetuando os slides. Achei pertinente colocar também no blog.



RELATO DE TRABALHO REALIZADO COM A TURMA CT3, A PARTIR DA RELEITURA, REALIZADA PELA PROFESSORA, DA OBRA AS MENINAS, DE VELÁSQUEZ

Contextualizando

Meus alunos têm idades entre 15 e 21 anos. Todos são portadores de Transtornos Globais de Desenvolvimento. (autismo ou psicose associados a outras síndromes e/ou deficiências). De todo o grupo, apenas uma das adolescentes consegue se expressar através da fala, utilizando pequenas frases.
A utilização de roupas, fantasias, acessórios e espelho em sala de aula é atividade comum para o grupo. Divertem-se ao se olhar no espelho. Do grupo, duas alunas têm autonomia para escolher suas fantasias, colocá-las com relativa facilidade e compreender a proposta de uma brincadeira dramatizada. Os outros alunos necessitam de auxílio para colocar as roupas e realizar alguma proposta a partir desta ação. Entretanto, o grupo mantém a unanimidade no que se refere a fotos. Reconhecem a máquina fotográfica e a associam a “fazer poses”, sorrir, mostrar objetos. No livrão da turma, observam com atenção e satisfação as fotos tiradas pelas professoras, que revelam momentos da rotina na escola e passeios realizados..

A proposta

A partir de duas fotos tiradas frente ao espelho, pensei em reunir dois momentos que a turma aprecia: a produção através das roupas de teatro e a produção para as “poses para as fotos”. Desta vez, procuraria envolver as famílias convidando-as a participar de uma sessão de fotos.
Levei para a sala algumas reproduções de obras de pintores conhecidos (Pinacoteca Caras), dentre eles, Velásquez com sua “As meninas”. Na roda, oportunizamos minha colega e eu, que manuseassem o material. Uma das adolescentes chamou a atenção do grupo ao comentar, apontando para “As meninas”: vai casar, ela vai casar. (importante registrar que esta aluna tem fixação por casamentos e tudo relacionado ao mesmo...).
Com uma moldura trazida por uma colega iniciamos o que chamamos de “construção de quadros fora de esquadro”. Brincávamos com as roupas de Teatro e acessórios e montávamos a nossa obra.
Aqui, vale salientar o quanto essa atividade, iniciada timidamente, cresceu. Escolher as roupas, partilhar com os colegas, observar as reproduções que ficaram expostas na sala por alguns dias, receber sua família e, com ela, “entrar no quadro”, trouxe muito prazer para todos os envolvidos.
Novamente, cabe ressaltar outra questão: uma vez por semana, enquanto nossos alunos estão em aulas especializadas reúno as mães que aguardam seus filhos no pátio externo da escola e faço um momento de contação de histórias. Conto histórias, conversamos sobre as mesmas, rimos... Começo a vislumbrar outras possibilidades com este grupo, utilizando algumas reproduções que possuo. Posteriormente, este trabalho será registrado no webfólio.
Retomando aos “quadros fora de esquadro”: colocamos este nome porque sabíamos que a moldura traria algum estranhamento da parte de alguns alunos e que, certamente, outros não se “enquadrariam” na mesma. Estávamos certas. Como exemplo, há a foto em que apareço com uma coroa cor de laranja, na cabeça. Colocar a coroa e ficar na moldura foi a única solução para que um dos alunos se aproximasse. Na verdade, seu objetivo era resgatar o objeto preferido. (o que conseguiu fazer, não sem antes, puxar o tecido do fundo, derrubar alguns objetos e tentar empurrar-me para que eu também me afastasse. Tudo, dentro da nossa normalidade...).


As evidências

Esta proposta apenas inicia, pois percebo a grande possibilidade de trabalhar, a partir da releitura de Velásquez, de forma interdisciplinar unindo Artes, Teatro, Literatura e Música.
Neste momento, toda a equipe de professores e funcionários da escola também participou do quadro, indo até nossa sala, se produzindo e posando para as fotos. Durante este mês estaremos realizando uma exposição de todas as fotos produzidas e das reproduções utilizadas. Estaremos ainda visitando a Bienal e registrando nossas impressões.
A participação e alegria das famílias é um destaque. Cabe aqui salientar que, sem ter visto a foto que a filha tirara, uma das mães se produziu de forma quase que idêntica à da filha, destacando uma figura que indicava, segundo ela, uma noiva.