Eu sou um "saco"! E foi assim que comecei a perceber...
Dia de sol, sentei na frente da casa com uma das cachorras e fiquei aproveitando um tímido calor.
Pela rua, um rapaz aparentando ter menos de trinta anos, se aproximou: mochila surrada nas costas, sapatos gastos e camiseta de manga comprida. (só pra situar, estamos no inverno e , nesta época, até o sol é cúmplice da estação...)
Pouco antes de sentar na varanda eu arrumara cuidadosamente os sacos de lixo e os colocara na calçada, à espera do recolhimento, mais tarde.
O rapaz , sem perceber minha presença, rasgou um dos sacos deixando cair metade de seu conteúdo no chão, enquanto procurava algum material que o interessasse. Não parecia nem um pouco preocupado com a sujeira que espalhava. E aí, começou o meu desconforto: ao ver sua ação, imediatamente , pensei "Puxa! Mas precisa rasgar e fazer essa lambança? Custava desamarrar o nó?"
Meu desagrado deve ter sido acompanhado de algum movimento pois ele virou e me enxergou. "Fechei a cara" tipo "estou vendo o que você está fazendo e não estou gostando!" Fui encarada por alguns segundos antes que a busca continuasse. Entretanto, ao encerrá-la, o rapaz buscou meus olhos e, cuidadosamente, recolocou o lixo no saco e fez das pontas que rasgara um nó. Abriu com estudada lentidão, para que eu acompanhasse, o outro saco e fez a mesma busca. Nada o interessou e amarrou-o como o encontrara.
Certamente, já desanuviara meu semblante e esperava acompanhar a sua retirada silenciosa. E foi então que ele se aproximou das grades que separavam a varanda da calçada e me ofereceu os seus olhos. E li, nos pontos esverdeados daquele rosto, uma compreensão que eu não tivera. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, insistiu no olhar , me informou e perguntou "Senhora...eu pedi na outra casa e não puderam me dar... a senhora me consegue um copo d'água ?"
Então, junto com o bolo estranho na garganta veio uma imagem...e eu lembrei da Olga e de sabonetes...
Era na década de 90 e eu começara a trabalhar em minha nova função como assessora pedagógica na Ed. Infantil. Eu iria acompanhar o trabalho de nove escolas e creches na cidade. Minha primeira visita e participação foi em uma creche comunitária em uma vila da região norte de Porto Alegre. Olga, a coordenadora, me receberia. E recebeu. Embora, de uma forma peculiar.
Minha expectativa era grande: conhecer a coordenadora, que me relataria o trabalho que estava sendo realizado, mostraria o espaço, as turmas, as educadoras, as crianças...sentaríamos, eu perguntaria de que forma ela pensava que eu pudesse ajudar, etc, etc...
Cheguei na creche com caderno e canetas novas, como uma ansiosa aluna, á espera de sua primeira aprendizagem formal. E o incrível é que foi...mas sem os acessórios típicos do que é formal. Ao abraçar-me na entrada, Olga segurou minhas mãos e me puxou para uma pequena sala já esclarecendo:
"Hoje é um dia daqueles, Bia! Não vou conseguir ficar em reunião contigo por muito tempo, viu?"
"?"
É o seguinte: morreu uma das moradoras da vila e o velório está acontecendo... e tu sabes né...ela tá sendo velada aqui..."
"Aqui? Aqui, na creche? Com as crianças???"
"Não , Bia (suspirou pacientemente para mostrar a impaciência frente a minha lentidão de raciocínio...)... aqui ao lado. Todo mundo sabe que o salão da associação é ao lado da creche. Parede com parede, na verdade."
"É? Bem, eu não sabia... então, vais participar do velório, é isso?"
"Não. Na verdade eu te conto isso porque vais ouvir, quando fores ao refeitório comigo, o barulho das rezas e choros...Não há outro lugar pra que ela seja velada, sabe. Tem que ser na associação. É praxe. Eu já fui ali e já falei com a família, abracei todo mundo e lembrei que temos as crianças ao lado...Mas eu não vou poder ficar porque a esposa do meu marido está em casa, doente, e eu preciso ir até lá, medicá-la.
"Como???"
E Olga me explicou, com renovada paciência, que se juntara com o grande amor de sua vida, um caminhoneiro bem apessoado, segundo ela. Depois de um tempo, soubera que ele era casado. Em suas explicações e justificativas para ter omitido este pequeno detalhe durante anos, o companheiro de Olga falara que a esposa tinha câncer e depressão e que ele, embora não mais a amasse, jamais a abandonaria.
"E onde ela está?", perguntou Olga.
"Em Santa Catarina, morando com minha irmã que cuida dela, quando estou aqui no Rio Grande."
Então, traga pra cá. Para minha casa. Eu vou cuidar dela. Vamos viver os três..."
E assim foi, até o caminhoneiro bem apessoado ter um ataque cardíaco e deixar as duas. E sua companheira, ficou com a esposa Amália, cuidando, velando seu sono, acompanhando suas faltas de ar, levando-a para as consultas...
"Mas é bem pertinho, Bia. Vou lá, dou o remédio e volto. Menos de quatro quadras da vila..."
Neste momento eu já fechara o caderno, guardara a caneta e me tornara uma esponja, absorvendo o que me era exposto. E aprendendo a ouvir, esperar, silenciar, questionar em momentos específicos...
e ouvindo um coro específico:
"Pai nosso que estais no céu..."
"Bia, vou lá. Já volto. Tu ficas e vai conhecendo a creche. Bem que podes ir ao lado..."
"..santificado seja o vosso..."
"...cumprimentar a família . Pode ir. Eles são muito amigos da creche...nos ajudam bastante..."
"..nome. Venha a nós..."
" Certo, Olga. Mas prefiro ficar na creche e conhecer a família, se necessário, em outro momento, ok?"
Olga não era apenas uma coordenadora. Era uma líder comunitária, uma alma expandida que abraçava pessoas e animais em seus momentos de fragilidade.
Com ela e através dela, muito aprendi. E tive a oportunidade de retribuir compartilhando algumas questões. E o sabonete foi uma delas...o calcanhar de Aquiles de Olga...
As crianças tinham uma alimentação adequada e bem preparada, tinham brinquedos, educadoras que as estimulavam, materiais para pintura, desenho, argila...Olga se orgulhava do trabalho realizado e da atenção e cuidado com as crianças da creche. Muitas vezes falava que todos eram orientados em relação à higiene e cuidados com as roupas e que os pais reconheciam e agradeciam por isso. Mas um menino do jardim B, novo na creche, morador da parte "mais longe, na divisa" não conseguia estar dentro dos padrões almejados pela coordenadora: suas roupas vinham sujas ou amarrotadas. Ela conversara com a mãe que sempre dava uma desculpa mas retornava a enviar o filho com roupas sujas e, na mochila, algumas, até úmidas.
"E sabonete, Bia...nem pensar! Ele não usa sabonete ao ir no banheiro. Sempre temos que relembrá-lo!"
"Ok, vocês o relembram...e ele, usa, depois?"
"Sim..."
"?"
"Sim! Mas não está certo, Bia! Já mandei até sabonete na mochila pra ele tomar banho, pra mãe lavar as roupas dele... e nada!"
"Mandou?"
"Sim!"
"Olga, onde ele mora?"
"Lá no fim da vila..."
"Conhece?"
"Já fui lá há alguns anos..."
" E se tu parasses de mandar sabonete, de questionar a mãe...e fosses fazer uma visita? se combinasse com ela...seria possível? O que achas?"
"Tá bom..."
E lá se foi, depois de alguns dias, a desafiada , intrigada pela minha sugestão.
Após a visita, ao relatar-me o que acontecera, Olga chorava ao lembrar do que vira e não imaginara:
O menino, seus irmãos e a mãe viviam no final de um beco onde a luz do sol não conseguia chegar. Não havia pátio ou espaço para que roupas fossem estendidas ao ar livre. Também não havia banheiro. O banho era tomado algumas casas adiante, pequenas peças, na verdade. A vizinha compartilhava o pouco espaço de seu banheiro para que as crianças pudessem tomar um banho que não fosse de "caneca". Mas a mãe das crianças tinha vergonha e não queria abusar.
"Por isso Bia, as roupas úmidas, amassadas, ... e a gente não imaginava... Eles não têm o hábito de usar sabonete onde moram, sabe. É artigo de luxo. E sabe de uma coisa? A mãe me olhou nos olhos e me contou que todos os sabonetes que recebia da creche, dava para a vizinha como forma de gratidão...Ela me olhou bem nos olhos e eu soube que ela sabia o que eu pensava...e que me perdoava...acho que nunca vou esquecer aquele olhar, sabe... a gente acha que faz um monte, que sabe tudo, a gente julga os outros, muitas vezes sem saber...eu me achava a última cerejinha do bolo, sabe, Bia? Mas, na verdade...eu sou um saco!"
Olga e eu , em nossas conversas futuras, desconstruímos esse sentimento de culpa, buscando efetivas ações para que nosso olhar fosse outro, mais perceptivo, mais abrangente e, como consequência, as crianças fossem beneficiadas com isso. Tenho orgulho de relembrar que conseguimos...
Então, o rapaz olhou bem nos meus e eu soube que a maior compreensão vinha dele:
"Eu pedi água na casa lá da esquina mas eles disseram que não tinham como me dar..."
"Ok, eu vou lá buscar. Esperaí..." e no caminho para a cozinha fiquei pensando nos vizinhos, que provavelmente não queriam oferecer um de seus copos para o desconhecido. Peguei um copo, abri a geladeira e vi o suco de maracujá que eu fizera pela manhã. Peguei a garrafa e saí.
"Gosta de suco de maracujá? Quer?"
E ele não me respondeu de imediato pois olhava o copo que eu oferecia.
Depois de segundos, afirmou que tomar um suco de maracujá seria uma benção. Enquanto eu, em silêncio aguardava, contou-me que não era morador de rua, que tinha um trabalho e que , depois de largar o seu turno, vinha pelas ruas procurando material para reciclar, para que pudesse aumentar sua renda.
"E a gente tem que ser rápido, sabe? Porque muitas vezes as pessoas nos xingam... Obrigado, senhora. Esse suco foi uma benção. Fique com Deus."
Devolveu-me o copo, olhou nos meus olhos mais uma vez e eu soube que me perdoou. E se foi, pelas ruas, buscando melhorar da forma possivel, sua vida.
E eu? Eu sou um saco... mas posso melhorar...
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