Lá pelos anos de 2002, 2003 quando assessorava uma creche no bairro Rubem Berta, resolvi promover uma sessão de cinema para as educadoras da instituição. Lembro que, após o filme e comentários emocionados, todas receberam um pequeno papel, escreveram 3 nomes e fizeram um planejamento...assim como a personagem principal .
Observe bem a imagem...sobre um detalhezinho que se destaca, talvez eu tenha uma outra história a contar...
Há dias penso em escrever sobre algumas questões. Guardei na memória algumas recentes falas significativas tipo "não podemos esquecer que o que importa são as...flores...", "senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado...",
Observo novamente a primeira foto e lembro de uma imagem que registrei há alguns dias.
Como ele mesmo me disse , "É pra vida..."
Nas duas imagens há algumas semelhanças... ambos são professores e buscam alguma coisa. O primeiro, já com muitas cicatrizes, entende que suas difíceis vivências podem se transformar em potência...para o melhor de seus alunos e, consequentemente, de si.
O segundo se despede de um período de sua vida e recomeça nova história com o mesmo olhar atento e sensibilidade da personagem interpretada por Kevin Spacey.
Como muitos sabem, sou professora, contadora de histórias e , portanto, trabalho muito próxima aos livros. Poderia dizer que sou uma das professoras que trabalha na Biblioteca da escola. Poderia...
Bibliotecas sempre me fascinaram, entre tantas outras coisas. Tenho a imagem da biblioteca de cada uma das escolas em que estudei. E, também da Biblioteca do SESI, na Leonardo Truda, da Biblioteca da ASBAC, Biblioteca da SOGIPA, da biblioteca primeira: a da casa de meu padrinho.
Então... então, o amigo querido, companheiro de bons momentos com os alunos, na sala que poderia ser chamada de Biblioteca, inicia sua trajetória como professor em uma escola que assessorei há anos, um pouco antes da época que promovi aquela sessão de cinema. Comento com o amigo que auxiliei indicando livros e acompanhando as diretoras, daquela época, na compra de material para a Biblio que se começava a organizar.
Pouco tempo depois, recebo mensagem "Estou aqui mexendo na Biblio e olha quem eu acho..."
E eu me vejo, 25 anos mais jovem, sentada com um grupo de professores e coordenadoras na escola onde meu amigo está. Pois tem como não afirmar que a Vida é uma espiral? Cada vez mais percebo que passamos ou voltamos a mesmos lugares , em diferentes épocas...e estamos mudados. Não somos mais os mesmos, nem os lugares são.
Você que me lê, deve estar pensando na provável salada de frutas que pode ser este texto. Mas eu gosto da não linearidade, além de ser muito boa em fluxos de consciência. Isso de ser boa em fluxos, não fui eu que criei. Quem disse foi o Luís Antônio Assis Brasil, quando fui sua aluna de criação literária. E se o mestre disse...rs
Agora, percebo porque gostei tanto da série THIS IS US. Porque a não linearidade está presente, as espirais se movimentam, as cicatrizes são expostas e , de alguma forma, tratadas e resignificadas.
Então, quase que didaticamente, é hora de relacionar, de fazer entrelaçamentos. E começo com uma das falas significativas, mais precisamente de um senhor chamado Pedro, deitado em um leito na mesma sala em que eu me encontrava, também deitada e aguardando uma melhora.
Cheguei na emergência passando mal, piorei, melhorei, aguardei, piorei novamente, aguardei e , finalmente, estabilizei, como ouvi falarem. Mas foram oito horas no local e seus anexos. Após ser medicada e ter taquicardia, fui levada para "dentro", passei das salas de recepção, triagem, consultórios e fui para uma sala onde os técnicos selecionavam as medicações, preparavam exames e faziam comentários sobre o novo colapso de Covid que lota os hospitais e postos de saúde. Ali, pertinho deles, nos leitos, estavam aqueles que precisavam ser monitorados. Eu e o Seu Pedro estávamos lá.
As filhas de Seu Pedro também . Mas em outra espaço, bem pertinho. Podíamos ouvir seus choros e palavras de preocupação. A técnica balançava a cabeça e desviava o olhar para os comprimidos a sua frente. Mas eu percebia que estava atenta ao que se passava. Talvez, quebrando um protocolo, pelo espanto de quem nos monitorava, o médico saiu do consultório e veio , junto com as filhas de Seu Pedro, até o leito do mesmo . E a conversa foi mais ou menos assim:
"Seu Pedro, suas filhas estão aqui... Seu Pedro, antes de qualquer coisa o senhor precisa colaborar. Os procedimentos podem ser incômodos mas são necessários..."
"Pai, estamos aqui. Queremos que fique conosco... É preciso..."
Depois que as filhas e o médico saíram, ouvi um resmungo...olhei para o lado e só enxerguei dor. E ele falou baixinho, como se dividisse um segredo: "Senhora...minhas filhas não entendem que eu preciso descansar. Se não fosse por elas...eu já teria descansado..."
Percebi que Seu Pedro queria percorrer aqueles vagões, como a Rebecca fez, como cada um de nós, fará, um dia. Mas as "meninas" não o deixavam partir. E ele ia ficando, com dor... Amar, também é deixar partir, não, é?
Por outro lado, também é comprometimento, não é? E eu penso sempre no compromisso que tenho em relação à minha petfamília. Certamente, sem eles, eu estaria em outra trajetória...bem mais curta, acredito.
A Vida é uma espiral. E, em um ponto da minha, me revejo pegando carona da minha querida Silvia Rios, descendo na Protásio, subindo uma rua e chegando no Hospital Santo Antônio. Lá, como voluntária de uma ONG chamada Viva e Deixe Viver, eu contava histórias tentando atenuar alguma dor. Aprendi muito circulando pelos corredores do hospital, fazendo cócegas em médicos e enfermeiras e contando histórias para quem quisesse ouvir. Talvez por isso, mesmo quando sou a paciente, procuro fazer o outro rir.
Em outro ponto de minha espiral eu me encontro no auditório de uma das creches religiosas que eu assessorava. As famílias pediram uma palestra sobre saúde, cuidados com recém nascidos, sobre cuidados na infância, de um modo geral. Convidei minha colega de assessoria que era, além de professora de Ciências, enfermeira. E lá fomos nós, rumo à Vila Navegantes.
A conversa rendeu e impactou muitos familiares após minha colega explicar o que era, na verdade, o nascimento. Dizia ela que, ao nascermos estamos na "plenitude celular"...há milhões de células em nosso pequeno corpo, trabalhando pela sua manutenção. E, no exato momento em que chegamos ao mundo de fora, como ela explicou, as células começam a morrer. Na verdade, o nosso crescimento, nosso desenvolvimento é a trajetória das células que terminam e das que continuam a sua jornada. Estamos crescendo e morrendo ao mesmo tempo. E ela dizia " a morte é uma jornada. Está conosco , nos acompanha , desde que nascemos. Mas, vivida de forma saudável , podemos fazer muitas coisas para que a jornada seja uma bonita história a se contar."
Mudar é morrer um pouco, também, não é?
Fim da Primeira Parte
Mas aguarde...que eu ainda tenho o que contar...






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