Como escrevi, agora há pouco, para uma querida colega, "tenho pensado muito na finitude das coisas, ultimamente...do Tempo, das oportunidades, das companhias e amizades..."
Ao contrário da música ,eu ando depressa porque , sim, tenho pressa. Sou de Áries...
O QUE ANTECEDE A PARTE PRIMEIRA...
Entre tantos cachorrinhos, que estavam dentro do cercado esperando adoção, aquela pequena se destacava : com uma postura calma, aguardava as carícias e atenção. Não disputava com os outros que saltitavam na cerca, ao contrário, permanecia mais afastada e atenta. Se destacava e, ao ser chamada, corria para receber carinho, olhando fixamente nos olhos de quem a segurava.
Comentei baixinho: "Minha nossa...ela é especial. Tem perfil para ser petterapeuta..." Ao meu lado, a responsável pelas adoções sorriu e questionou: "Então, que tal adotar essa mocinha?"
"Não posso. Vou viajar daqui a algum tempo..."
"E ela não poderia ir junto?"
Sorri e expliquei "sou tutora de um bando. Não posso, realmente..."
PARTE PRIMEIRA
Décadas atrás, uma de minhas professoras da faculdade propunha que escrevêssemos do que somos feitos...DO QUE VOCÊ É FEITO(A)? ESCREVA SOBRE...
Escrevi que era feita de canetinhas Pelikan e chocolates Kri degustados na última fila de classes, no fundo da sala de aula...em todos os meus anos iniciais, na escola. Lá, onde sentavam os diferentes, os bagunceiros, os não tão populares, os desafiadores para alguns, os excluídos, para outros...
Fui da "turma do fundão" por muitos anos. Ali , me fortaleci e aprendi a rir de minhas aparentes dificuldades. Um dia, resolvi sair de lá. Sentei bem na frente, quase encostando na mesa da professora e olhando direto em seus olhos, sempre.
Fiquei ali por bom tempo, até perceber que meu lugar sempre seria onde eu quisesse estar.
Hoje, percebo ser feita das dificuldades que vivi, da força com que sobrevivi, das leituras, dos sonhos, das conquistas...sou feita das canetinhas Pelikan, chocolates Kri, de todas as bibliotecas que percorri, das caminhadas em direção ao mar, de mãos dadas com meu padrinho. Sou feita de livros que li, de filmes que assisti, pessoas que conheci e de todos os bichos com quem convivi. Lembro de Maturana...
Daqui a algum tempo, vou viajar...
Sou feita das séries que assisti: Ally McBeal e seus companheiros singulares, se encontrando no final da tarde no bar localizado no mesmo prédio onde trabalhavam. Ally e Biscoito , o advogado franzino, que sonhava ser Barry White, ao se observar no banheiro da firma, em frente ao espelho.
Quem somos? Quem queremos ser? E o que fazemos para isso acontecer?
Dia desses, busquei o último episódio da última temporada do House (sim, assisti todas as temporadas!)
Queria relembrar da cena em que os dois amigos saiam de moto, em viagem não tão programada, mas não tão inesperada. Queria ouvir aquela trilha sonora que os encaminhou para o final da série. E assim que concluí meu objetivo me dei conta das várias vezes que busquei o final da trilogia de filmes A Barraca do Beijo, indicada por uma de minhas divertidas ex-alunas adolescentes: "Profeeeeee! Sabe aqueles filmes da Barraca do Beijo? Não??? ASSISTE,PROFE! É TUUUUUDO! Aqueles filmes me representam!!!"
"Sério?", perguntei, surpresa. "Vou assistir, lógico!
Assisti. E o que ficou foi a última cena da última parte da trilogia, quando a dupla principal desliza sinuosamente pelas curvas de uma estrada, com suas motocicletas.
No House, um ciclo parece terminar...na Barraca...um está começando.
Motos, estradas. jornadas, a música cantada por Renato Teixeira e Almir Sater... "pela longa estrada eu vou, estrada eu sou..."
Finquei meus pés no chão e comecei a trabalhar, comecei a criar...sempre por perto, sempre atenta a quem precisar...
Um dia, escrevi um texto chamado O VÔO dos Tuxirantans... pouco tempo depois, descobri que eu era um dos mursiatans, apesar de permanecer na estrada ou pista, observando...eu podia ensinar a voar. E assim fiz.
Sobre vôos, relembro de uma querida amiga irmã que, anos atrás, alimentou por algum tempo, uma águia machucada que caíra em seu terreno. Seu marido me contava que a ave comia carne na mão de minha amiga. Ao se fortalecer e testar satisfatoriamente a força de suas asas, o animal voou alto e circulou todo o terreno como em uma silenciosa e agradecida despedida. Renovou-se e partiu.
Percebo que somos o caminho, a estrada e o caminhar...
Quanto tempo temos? Não sabemos... E, enquanto temos, o que fazemos?
Tenho acompanhado muitas partidas, ultimamente. E relembro, que daqui a algum tempo vou viajar. Mas antes, como clássica ariana que sou, preciso organizar, planejar, doar, compartilhar, resgatar o que precisa ser resgatado, descartar o que é preciso... rs talvez leve mais alguns anos, fazendo isso. Quem sabe?
Vou levar pouca bagagem...e junto comigo estará, certamente, aquela que se recusa a me deixar...Samantha Elisa. Juntas, algum dia...não agora...mas juntas, nós vamos voar! E depois, vamos ser chuva e, com certeza, vamos florir!
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