Eu simplesmente adorava a minha primeira série, meus colegas e a minha "Cartilha Marcelo, Vera e Faísca"! Aguardava com ansiedade o momento de desenhar e pintar a próxima página com novas aventuras dos três. Fui alfabetizada pelo método global e gostei muito.
Evidentemente, uma junção de fatores colaborou para que meu processo de alfabetização fosse tão prazeroso. Eu vinha de uma experiência não muito agradável na turma de jardim.
Minha professora era uma senhora rígida, que não manifestava tolerância com crianças aparentemente pobres e com suas famílias. Julgava-se superior a elas e, nas reuniões, minha mãe contava, dava quase toda a atenção à mãe que era irmã da diretora da escola. Bem, mas o fato é que essa professora me ajudou, de alguma forma.
Tínhamos, meus colegas e eu, a ingrata tarefa de decorar versos gigantescos para "exposição da nossa figura" em solenidades e eventos da escola. Todos achavam uma gracinha os "pequerruchos do jardim" enrolando a língua ao recitar versos sobre a Pátria, sobre as mães, os pais, a primavera, verão e tudo que nossa professora achasse importante. Argh! Evidentemente, nossa opinião não contava.
Lá em casa, minha mãe ficava angustiada ao perceber minha resistência em permanecer muito tempo repetindo os versos determinados pela professora. Da angústia ao sentimento de impotência era apenas uma lágrima das muitas que eu derramava por não poder ir brincar, naquele momento.
Depois das recitações, chegaram as "pecinhas da professora" onde os "pequerruchos do jardim" faziam todos rirem ao observá-los perdidos em um palco, tentando lembrar das falas e olhando para a expressão zangada da professora.
Dizem, que a pequerrucha de cachinhos pretos não era uma figurinha muito fácil de convencer: dava idéias para professora sobre as histórias que ela contava e dizia não gostar das pecinhas. Fugia do palco e, algumas vezes, era encontrada na biblioteca ou no gabinete dentário pois ela adorava a dentista.
Minha história no jardim encerrou bem antes de minha mãe receber o boletim (que tenho até hoje) com o conceito que chocou todos, em minha casa: "Regular em Dramatização"
Na verdade, terminou quando minha mãe decidiu dar "um basta" nas folhas de versos e falas de personagens. Foi até a escola e pediu que eu fosse liberada destas atividades, pois , para ela o mais importante era que eu brincasse, desenhasse, pintasse, soubesse ouvir e contar histórias. (nem preciso muito para saber que ela conversara com meu padrinho , antes do seu encontro com a professora) E o legal é que outras mães também foram, depois de algum tempo...
Enquanto tudo isso acontecia, lá em casa, eu mexia e brincava com os livros da biblioteca de meu padrinho, folheava revistas, ouvia atentamente histórias por ele contadas e observava o movimento de seu dedo sobre as páginas do livro....
Mas o fato é que minha mãe fora alertada, pela professora, de minha indisciplina e da , talvez, dificuldade que eu teria em me alfabetizar pois não permanecia muito tempo sentada, retrucava e "reinava" bastante.
Acho que essa professora, (que infelizmente, reencontrei na quarta série) funcionou como uma espécie de alavanca: eu era "regular" em dramatização? "pois vou ser muito boa nisso..."
Na chegada à primeira série encontrei um anjo disfarçado de jovem professora: muitas histórias, muitas risadas, muitas conversas de todos nós com quem nos ensinava. Tivemos muita sorte em um tempo e numa escola em que a regra era ser austero com os alunos.
Lembro da cartilha encapada por minha mãe com um plástico verde...dos pedacinhos de durex, que deixaram marcas no verso da capa e da contra-capa... dos lápis de cor espalhados pelo chão da sala, enquanto eu desenhava o Faísca correndo atrás do Marcelo.
Na primeira série, depois de algum tempo, a pequena de cachos não parava de soletrar em voz alta chamando a atenção e buscando elogios da profe. Tentando agradá-la procurou ler algumas palavras de um cartaz dos alunos maiores. E leu "futiferras" ao visualizar a palavra frutíferas.
Na saída, a professora, rindo, contou o equívoco ressaltando a importância de minha tentativa, de minha vontade de aprender e buscar soluções. Naquele dia, minha mãe voltou para casa inchada de tanto orgulho. Foi bom.
Mas, passados tantos anos, ainda relembro de minha professora-algoz, de minha querida professora alfabetizadora (lembro, inclusive de sua voz, de suas risadas...), do Marcelo, Vera e Faísca...
Ah! E se alguém ficar pensando... "mas onde está o Porquinho Babe e os analfabetos de coração", do título?
Quanto ao porquinho... quando comecei a escrever esta postagem, o filme "Babe, o porquinho..." passava na Tv. Gosto muito deste filme por motivos que não explicarei aqui. Mas enquanto escrevia, lembrava de outra situação mostrada anos atrás, no Fantástico: Em uma cidade do interior do Brasil a população, sempre na mesma época do ano, recolhe um filhotinho de porco. O bichinho é criado com todas as honras , passando alguns dias em cada casa do vilarejo, "trazendo sorte aos moradores". Passeia com as crianças, é afagado e acariciado por todos que desejam "ter uma vida próspera". Depois de meses, quando o bicho está enorme e já visitou todos os moradores, uma grande festa é realizada. Após uma missa na praça, alguns dos moradores matam e assam o porco que os acompanhou desde filhote. Quase em êxtase, os habitantes se acotovelam com seus pratos para conseguir uma fatia da carne suína...
Bom...aí, eu fico pensando em minhas duas professoras. Acho que a do jardim, se assistisse essa reportagem, talvez nem se abalasse. Já a minha professora de primeira série...nosssa! Acho, que, se assistiu, chorou bastante.
E, agora, será que preciso falar sobre quem são os "analfabetos de coração"?