Analisar 2008 é relembrar a pergunta de um aluno sobre os motivos de ser como é, relembrar de professores inesquecíveis e aqueles inesquecíveis para lembrar de "como não ser", falas ingênuas, evidências, o ofício de escrever...é falar de números, idéias românticas sobre trabalho com alunos especiais, redescobrir e relembrar de um estudo de caso com a ajuda de Naruto e, amorosamente, recordar de meu grande companheiro de adolescência e idade adulta: Beethoven. ..é relembrar do BatPostePreto, de como cursei e porque abandonei a Faculdade de Letras, é , acima de tudo, refletir sobre qual o meu papel, nesta vida e sobre segundas chances...Pois então, vamos lá...
Faz pouquinho, acordei com a imagem vista em alguns filmes de ficção: abertura de um portal.
Sabe aqueles filmes em que um Portal do Tempo se abre, permitindo que alguns personagens saiam de sua dimensão e vão para outra? Pois é...

Se eu usar este artifício de imagem posso afirmar que , em 2008, tive a possibilidade de me tornar uma pessoa...digamos, melhor. Um portal se abriu...
Mas para explicar isso devo relembrar de agora, 2010, quando estava no Laboratório de Informática com os meus alunos do estágio. (alunos que revejo todas as terças feiras, por conta de meu voluntariado na escola)
Estava sentada entre dois alunos, buscando entender o que um deles me dizia. Com dificuldade de fala, o adolescente repetia pausadamente o título de uma novela que muito o comovera. Queria rever imagens e ouvir a trilha sonora. Depois de algumas tentativas e questionamentos de nossa parte, chegamos a conclusão (eu e a outra aluna) de que a novela era do SBT e falava de irmãs gêmeas que trocaram de lugar e de vidas. Com a ajuda do Google descobrimos: Cúmplice de um Resgate.
Eu nunca ouvira falar de tal novela mas, naquele momento, assisti interessada o quanto ela mobilizava meu aluno que, visivelmente emocionado, observava as cenas de abertura, no youtube.

Enquanto eu pensava que teria de pesquisar mais a respeito para entendê-lo melhor , mais um portal se abriu... o rapaz desviou os olhos da tela e me buscou perguntando:
Bia, por que a gente é assim?
Hã? Assim, como?
Assim como eu, Bia...deficiente!
Pronto! A resposta e conversa que tivemos eu vou contar. Mas antes, fui sugada pelo portal... Relembrar 2008 é escrever sobre algumas disciplinas que me mobilizaram positivamente e nem tanto. Inicio por uma "nem tanto": Matemática.
Mas para dissecá-la, retorno a outra disciplina e seu professor, desta vez na Faculdade de Letras...
Estávamos no meio do semestre e o professor solicitara uma monografia sobre determinado assunto.
A maior parte dos alunos, no primeiro semestre daquela faculdade nunca fizera uma monografia. Alguns nunca tinham ouvido falar.
Inicialmente curiosa, eu aguardava que o professor nos indicasse um caminho. Apenas ouvimos "Pesquisem..." e assistimos o seu movimento característico: voltar os olhos para um livro.
Em suas aulas eu assistia o interesse que ele tinha pelos livros, pelo que continham e a dificuldade que possuia de enxergar além dos mesmos: de enxergar seus alunos.
Àqueles que eram considerados alunos exemplares, que já haviam lido os mesmos livros, pensado igual e que demonstravam isso facilmente, o professor dedicava um pouco de seu tempo. Aos outros, relembrava as tarefas colocadas no quadro . O interessante é que , aquele professor era uma grande referência: tinha livros publicados e reconhecidos nacionalmente, fora mestre de muitos dos professores da própria faculdade e participava de palestras e debates sobre a sua área em várias cidades do estado. Representava muito bem, a faculdade, portanto.
Alguns colegas e eu o procuramos, durante o intervalo, para perguntarmos sobre o trabalho: apressado, dísse-nos que fízéssemos o nosso melhor e que só depois de entregue, faria comentários. Mas não desejávamos comentários, queríamos ajuda. Dias depois, surge um aluno de outro semestre com a solução para muitos: "copiem do livro tal, páginas x, x, x e y... ele nem vai perceber...pede a mesma coisa todo o ano e acho que nem lê. Eu copiei tudo e tirei A!"
Fiquei horrorizada!
Mas o fato é que, pouco tempo mais tarde, eu abandonava a disciplina. Muitos colegas fizeram o sugerido e passaram. Sem nenhum louvor.
Durante anos eu refleti sobre aquele "famoso mestre escritor de livros" que tinha dificuldade de enxergar seus alunos, de vê-los não apenas como peças de uma pesquisa mas, como pessoas, que necessitavam interagir com ele. O conteúdo de sua disciplina era mais importante que o seu grupo...
Fiz, na época da Faculdade de Letras, algo que não teria coragem para fazer novamente: assistia todas as aulas das disciplinas cujos mestres eu admirava,mesmo não tendo conseguido vaga para tal. Explico-me relembrando de uma professora que tinha paixão por sua disciplina e profundo respeito por seus alunos: Maria da Glória Bordini. Suas aulas eram muito disputadas e, por conseguinte, as inscrições para sua disciplina encerravam logo. A outra oferta era muito parecida com o professor que eu descrevi anteriormente. Então, mesmo inscrita em outra turma, eu buscava aqueles que considerava em nível de excelência admirável. Fui reprovada em algumas disciplinas por não ter assiduidade: estava na sala ao lado.
A disciplina a Representação do Mundo através da Matemática trouxe-nos uma "avalanche de atividades e prazos a cumprir". Ainda hoje, lembro das palavras da professora, na primeira presencial, dizendo que ela e sua equipe haviam preparado um material com muito carinho , para o grupo. Realmente, todo o conteúdo estava matematicamente organizado, preparado, elaborado, pensado e repensado. Início, meio e fim. Prazos para isso, para aquilo, postagem nesta página, outro tipo na outra... E a densidade do material não previa,inicialmente, atrasos...
Inegável a competência da professora e sua equipe. E mesmo assim, faltava, no meu caso, alguma coisa.
Enquanto eu me perdia em atividades que, para mim, não faziam o melhor, digo, menor sentido (fazendo referência ao meu contexto de trabalho em uma escola especial com alunos com TGD) pensava que, em outros tempos, já teria desistido da disciplina e buscado outra referência. Mas não desisti. Apenas, ressignifiquei, apresentando a Matemática vivida em meu contexto.
A partir de uma experiência nada agradável eu viria a realizar uma interessante produção: a escrita sobre meu trabalho e sobre de que forma interajo com meus alunos.
E, neste momento, não posso deixar de relembrar uma palavra trazida por Paulo Freire: AMOROSIDADE.
Se você não sabe o que é, se não consegue vivenciar o que a palavra nos sugere, pode até ser a maior referência em determinado assunto...mas faltará , sempre, alguma coisa que o tornaria bem melhor.
A questão das evidências já vinha sendo amplamente trabalhada com as professoras Íris e Bea, no SI... Por isso, a curiosidade se transformava em algo mais concreto:
Por que a disciplina me trazia tanto desprazer?
Quais as evidências que comprovariam as minhas críticas?
A primeira se refere ao fato que a disciplina tão bem formatada, planejada, não previra um detalhe: entre todos os alunos da turma havia uma que tinha "clientela" diferente dos demais. O que era ótimo para a maioria não se adequava ao meu contexto. Meus alunos vivenciavam a Matemática de outra forma.
A professora e sua equipe haviam pensado sobre isso? Não. E então, enquanto eu trabalhava com alunos que possuiam dificuldade nas AVD (atividades de vida diária como vestir-se, sentar-se, levar à boca um talher, higienizar-se), deveria apresentar propostas para trabalhar com geoplano, no computador. A maior parte de minha turma nem conseguia associar o objeto computador à algumas de suas possibilidades. Portanto, havia alguém, naquela turma que não se beneficiava inicialmente com muitas das propostas oferecidas. Era eu.
Mas que interessante! Essa foi a possibilidade encontrada para que eu escrevesse o Vide Bula e o Resignificando, dois textos que muito me auxiliaram no sentido de que algumas pessoas pudessem enxergar que existem vários tipos de alunos, vários contextos e, portanto, a necessidade de termos mais de um plano na manga. (Bea e Íris diriam "o Plano B"...)
Outra evidência diz respeito "ao material preparado com tanto carinho":
Mas todos aprendemos com segundas chances, não é?
O que eu não conseguira aprender com aquele renomado mestre, viria a exercitar na disciplina de Matemática: não aceitar tudo o que é proposto apenas porque É proposta já definida organizada, formatada; criticar a partir da busca de evidências que sustentem a própria crítica, reconhecer o que nunca pretenderei ser e reconhecer quando outra chance é oferecida.
"Nossa! Quanta matemática! Quanto trabalho de educador, esse, que vai além de qualquer divisão de área de conhecimento! Aqui, eu encontrei atividades CS, NO e EF! tudo em uma única página e, talvez, sem intencionalidade, como tu dizes algumas vezes no teu texto. Com certeza, conhecer mais a tua turma e o teu trabalho só tem a me acrescentar, pois, como a Bea, eu também não tenho [espero poder dizer 'tinha' em seguida ;o)] familiaridade com a Educação Especial. Parece que nos encontramos!"
Comentário realizado pela professora da disciplina no wiki de Bia Guterres
Ao mesmo tempo em que a professora, finalmente, enxergava uma diferente aluna em sua turma e conseguia, associar as vivências que a mesma trazia, com suas propostas de trabalho eu reconhecia e constatava que independentemente da função que realizemos, estaremos sempre aprendendo com o outro. Não havia mágoas, apenas compreensão e a certeza de que "tudo passa".
Ah...mas foi através da disciplina de Seminário Integrador e a sua proposta de PIE que encontrei espaço para reflexão, prazer, conhecimento e aprendizagem. Tudo junto e entrelaçado! Maravilha!

Com o PIE, tive oportunidade de conhecer e desvendar alguns segredos de um de meus alunos. Através de um universo desconhecido até então ( mangás, animês sobre o personagem Naruto) realizei um estudo de caso que muito me auxiliou na aproximação e construção de vínculos com um dos adolescentes de minha turma.
Através das provocações e comentários das professoras da disciplina eu viria a construir a minha admiração pelas mesmas, pelas propostas que traziam e pela forma com que interagiam com seus alunos, sabendo estimulá-los, cobrando quando necessário e, acima de tudo, dialogando. Amorosamente.
Dia desses recebi deste aluno, que foi foco de meu PIE, oseguinte recado, através de um email:
" bia meis que vem quero voce na ct3" Tiago (nome fictício)
Receber este email de um aluno como este é saber que vínculos foram construídos, que de alguma forma ele expressa seu carinho e sua saudade (mesmo tendo grande dificuldade em fazê-lo).
Depois de recebido o email, recebi sua visita na biblioteca, para que me explicasse que ele me dava um prazo para voltar a ser sua professora. E para minha alegria ele não propunha uma troca: sua professora deste ano sair para que eu voltasse. Ele queria um acréscimo: mais uma professora (eu) em sua turma. Evidência que os vínculos com minha colega também estão sendo constrídos positivamente.
O recebimento deste email e "carinho" é fruto de uma relação construída com muito cuidado , planejamento , pesquisa e reflexão. Tenho a certeza de que a disciplina do SI, através da proposta do PIE, muito me auxiliou neste aspecto.
Bem...mas comecei esta postagem relatando, entre outras coisas, a pergunta que meu aluno me fizera sobre o porquê ser deficiente.
Já está na hora de relembrar o que respondi.





















