Escolhi ser professora na quarta série primária, por causa da mãe do Antônio Augusto, meu colega e por quem eu viria a suspirar muito, alguns anos depois.
Já na quarta série, eu tinha curiosidade em saber como era o pai de Antônio. Deveria ser uma pessoa muito bondosa e querida. Afinal, meu colega deveria ter a quem puxar...
Minha professora de quarta série se chamava Sônia, era mãe do Ântonio Augusto e uma "peste".
Nas segundas e quintas-feiras, era assim: ela chegava e cumprimentáva-nos secamente, deixava bolsa sobre a cadeira, livros na mesa e escrevia, no quadro, dezenas de equações, uma para cada um de nós. Enquanto escrevia furiosamente , a turma deveria estar em silêncio, copiando e aguardando o que, sabíamos, viria... Mas na verdade, estávamos em ebulição silenciosa.
A professora funcionava do mesmo jeito, sempre. Por isso, sabíamos que a primeira equação seria resolvida, no quadro, pelo primeiro da chamada; a segunda pelo número dois, da chamada e, assim,sucessivamente. (A minha equação sempre era a 12!) Também sabíamos que ela diria "bom" para quem acertasse, começaria a bater a caneta sobre a classe se o aluno demorasse a resolver e humilharia quem errasse.("criança burrinha", "esqueceu a matéria?", "dormiu demais?", "ficou brincando?")
O que fazíamos, enquanto ela estava de costas? Cada um esperava pela sua equação e começava a resolvê-la. Caso não soubesse, procurava ajuda, pé ante pé, pela sala. Promessas eram feitas: "se resolver pra mim, te dou meu lanche...uma canetinha...faço teu tema de casa". Quem não tinha nada para barganhar, tentava a troca de lugar com um colega que estivesse "sentado numa equação fácil".
Naquele tempo, eu me perguntava várias coisas: Por que ela quase nunca olhava para nós? (E, se olhava, parecia estar sempre com raiva...) Será mesmo, que não percebia que algumas crianças, tinham trocado de lugar? Não se interessava em saber o motivo? Ela não tinha pena, quando alguns de nós, os mais frágeis, os não tão populares para conseguir uma troca ou ajuda, começavam a chorar, já na classe? Por que ela não ajudava? Coitado do Antônio Augusto...
Pois foi num dia em que "a escolhida" era eu, enquanto ouvia risinhos de deboche de alguns colegas e as ironias da professora, que eu "fugi" e decidi. Fiquei em pé, frente ao quadro, giz na mão suada, ouvindo, longe, a voz da professora. Não sabia como , mas eu fora para um outro lugar, onde a raiva e o descaso não eram aceitos. Fiquei parada, pensando em outra coisa, virei estátua. Mas, antes de retornar, pensei "Quando for grande..."(putz! eu pensava que seria...rs),"...vou ser professora e não vou magoar ninguém, vou ajudar... e os meus alunos vão gostar de mim."
Na tarde, do mesmo dia, enquanto chorava com a cabeça em seu colo, dizendo que não ia voltar para a escola, ouvia minha mãe dizer "Doca, tu és muito melhor que ela, chora mas não esquece... e , amanhã , cabeça erguida, na sala de aula."
Na noite, daquele mesmo dia, quando meu padrinho chegou, contei a minha decisão: "Vou ser professora. "
Pouco tempo depois, meu padrinho perguntou se a decisão continuava "firme". Ao ouvir a resposta afirmativa sorriu e me entregou um livro de histórias. "Vai ter que ler muito, sabe? Começa , agora."
Algumas de minhas influências: minha mãe, que me ensinou a reagir e que, mesmo sendo muito humilde,colocou sua melhor roupa e foi conversar com "quem não olhava os seus alunos"; meu padrinho que, anos antes, mostrou-me um galho de uma árvore e falou-me como ele tinha a capacidade de, muitas vezes, "vergar, mas não quebrar" e, mesmo assim, a professora que me mostrou como eu não queria ser.
O mais legal, é que muuuuuito tempo depois, numa escola estadual chamada Japão, eu fui professora de quarta série. Ensinei equações. Expliquei, repeti... meus alunos não tinham medo, nem vergonha de dizer que não entendiam ou não sabiam. Ofereciam-se para ir ao quadro, ajudavam os colegas e inventavam as suas próprias equações. Eu gostava muito deles. E a recíproca, era verdadeira.
Ah! Mas acho importante contar que duas de minhas influências "já se foram", a professora Sônia, nunca mais vi depois que saí da escola para cursar o normal e, há muito tempo, um caixa do Banrisul, enquanto me atendia, perguntou se eu era a colega de cachos chamada Bia, que fora sua companheira de brincadeiras, da segunda até a quarta série. Era eu. Ele, era o Antônio Augusto.
Agora, sentada frente ao computador, realizando parte de uma tarefa, considero-me o resultado de lembranças e muita, muita saudade.
11 comentários:
Bia onde você consegue fotos tão lindas!!!Depois vou postar algo sobre teu texto,ok?Beijo,Luciene
Bia adorei teu texto.Parece que tu estás na frente,pois a poucos minutos que acabei de ler as atividades e tu já está com ela pronta.Que memória!
Estou apavorada com as atividades iniciais.Quando vais ao Pólo?Um beijão
Tu és o maximo mesmo, hein. Está sempre bem informada. Parabéns. O teu blog é que está lindo. Abraços.
Bia adorei o teu texto !
E com certeza, se o Antônio Augusto era bondoso e querido, foi ao pai que ele puxou !!! Que bom que você sobreviveu a esta terrível professora !
Que dia você vai ao Pólo ?
Beijos ! Kátia
Oi Bia ! Você notou que o horário mostrado no teu BLOG não está correto ?
Você deve ir em configurar BLOG - onde se ajusta o FUSO HORÁRIO - o do Brasil é - 3. Qualquer dúvida fala comigo ! Beijos !
Kátia
Oi Bia!
Que bom saber que apesar de tudo que passaste conseguiste ser crítica,tão pequenina,para perceber o que era certo e o que era errado.Soubeste desde tão pequena saber o que querias e principalmente o que não querias.Pelo que escreveste acredito que muito disto vem daqueles que te deram educação,amor,carinho e principalmente atenção para te ouvir e dizer o que precisavas ouvir na hora em que precisavas ouvir.Estas experiências que relataste são a mais pura visão de um aluno,do lado que já estivemos.Serve para lembrarmos de nossas experiências,refletirmos sobre como somos com nossos pequeninos,como queremos transmitir as informações para eles,como queremos desenvolvê-los(sem nunca desmotivá-los,magoá-los). Beijos,Magali.
Oi Bia!Obrigada pelo comentário que fizeste a respeito do meu texto.Agradeço também a dica do google.Beijão,Luciene
Oi Bia ! O texto eu já comentei eu quero é mandar um recadinho: Coloquei no meu BLOG como configurar o Merlin copia e cola no teu BLOG !
Eu quero te ligar, mas eu só consigo sentar na frente do micro depois da meia-noite, desconfio que não seja um bom horário para ligar para as colegas ! Beijos !
Oi Bia ! Quando eu te mandei o recadinho anterior eu já havia feito a postagem, mas na hora de publicar, o blog não aceitou, porque era em java-script. Para te mandar o Merlin, eu tentei solucionar o problema anexando este conteúdo no teu pbwiki, lá a linguagem " Script " foi aceita.
Agora tu entras lá copia e cola no BLOG.
Entra em: 1° Alterar definições ( ícone de uma engrenagem azul )
2° Modelo
3° Salvar alterações do modelo e 4° Republicar - depois e só visualizar o blog.
Qualquer dúvida, me liga !
Beijos !
Bia adorei teu texto! Identifiquei-me em muitos momentos.E outra coincidência é que estudei na escola Japão da 1ªa 4ªsérie. Beijos!!!
Olá Bia!!
Sou a nova tutora da sede (Porto Alegre) e vou acompanhar a turma na disciplina Escola, Cultura e Sociedade.
Fiquei encantada com o que escreveste, com a maneira como foste construindo teu texto. Dá gosto de ler! Sucesso na tua caminhada!
Um abraço, Simone Ramminger - Tutora Porto Alegre
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