quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Seu klein, Picasso e Jonas

Talvez comece por Jonas, porque é quem resta... ou ainda, por ser ele o desencadeador de minhas memórias. É meu aluno. Na verdade, seu nome não é Jonas. Mas não importa.
Ele tem 9 anos aprisionados em um corpo adolescente. O gigantismo acelera seu crescimento e os transtornos mentais dificultam todo o seu desenvolvimento. Mora em um abrigo pois, seus pais são desconhecidos. Foi abandonado com poucos dias de vida.
Numa casa em que as crianças têm até seis anos e mal ultrapassam as maçanetas das portas, ele pode ser considerado "um pato no meio dos gansos". Ou, o contrário. Fato é, que acompanha o vem-e-vai de crianças que chegam, criam vínculos com ele e depois se vão, adotadas. Mas Jonas, sempre fica.
Hoje pela manhã, depois do recreio, pegou colchonete e almofada e foi descansar. Todos fazem isso, mas de diferentes formas: olhando uma revista, ouvindo uma música , fechando os olhos... Eu estava sentada em um dos colchonetes, fazendo uma trança nos cabelos de uma das meninas quando, já deitado, com sua fala atrapalhada, ele disse "Bia, tô com muita febre".
Essa frase, sem um pingo de veracidade, é a "deixa" para que eu saiba que ele precisa de mais atenção, de carinho, de colo.Terminei a trança e fui até o colchonete febril. Coloquei sua cabeçona em meu colo, acariciei sua testa e diagnostiquei : "sem febre...mas com vontade de carinho, né?" Foi então, que ele virou a cabeça, sorriu, "pendurou" seus olhos nos meus e, lutando contra a dificuldade verbal, me disse uma coisa...



Pois, naquela época em que eu era bem menor, dizem que ao ouvir pela primeira vez o nome Picasso fiquei repetindo baixinho como se fosse uma cantiga: "Picasso, Picasso, Picasso..." Muito mais tarde, associei o nome à imagem, às telas...
Mas a musicalidade da palavra me acompanhou até a maioridade. Quando esperava um elevador, cansada, ficava repetindo "Picasso, Picasso, Picasso..."; quando, distraída, aguardava a minha vez, na fila, repetia "Picasso, Picasso, Picasso"...
Estranho, mas inquestionável...
Nada mais natural, portanto, que MEU primeiro cachorro fosse batizado com este nome.
Eu o ganhei , passada a minha adolescência. Picasso me conquistou com sua fidelidade, com seu mau-humor para com qualquer outra pessoa, sua cumplicidade em brincadeiras, em momentos alegres e solitários, também. Sempre me ofereceu seu focinho, quando percebia-me carente e seu vigor e ferocidade ao impedir, por exemplo, que fosse abordada por um ingênuo assaltante. Troquei a cantilena infantil por uma personificação de quatro patas. Picasso! Picasso! Picasso! E, lá vinha ele, correndo e "sorrindo dentes" afiados.
Meu companheiro suportou, heroicamente, a chegada de um "irmão" canino. Sabíamos , nós dois que, por mais que o filhote de orelhas grandes fosse lindo e sedutoramente atrapalhado, sempre seria o segundo em meu amor.
Desesseis anos passaram rápido e pesaram muito no corpo de meu amigo. Acompanhei sua infância, seu vigor adolescente, sua serenidade adulta e , infelizmente, sua velhice. Já cego, com dificuldade para caminhar, para deglutir, para evacuar, com dores pelo corpo, foi levado por meu companheiro e por mim até a veterinária. Relutante, carregando-o em meu colo cheguei na sala e coloquei-o sobre a maca. Eu sentia uma espécie de "bola", subindo e descendo pela minha garganta. Lutava. E sabia, estar perdendo. Aproximei meu rosto de sua cara e disse-lhe baixinho "vai passar, Picasso". Foi então que,vagarosamente, virou seus olhos opacos em minha direção e lambeu meu rosto. Parecia estar dizendo "tudo, bem... eu confio em você... faça a dor nas patas passar, minha visão voltar, meu faro, minha velocidade. Faça!"
A veterinária, sua conhecida desde o tempo de filhote, já se aproximara com a seringa na mão. Ele deitou a cabeça na maca e esperou. Rapidamente, eu disse adeus, afaguei-o e saí da sala. Fui embora, deixando que a "bola" saltasse de minha boca e de meus olhos em forma de soluços e choro . Meu marido me seguiu, preocupado comigo, mas sei que teria preferido acompanhar a despedida de Picasso até o fim. Eu não pude. Simplesmente, não pude.
Naquela e nas próximas noites a cantilena voltara: "Picasso, Picasso, Picasso". Fechei os olhos e adormeci minha culpa, durante anos.

Agora, falta contar sobre Seu Klein e qual a relação entre ele, Picasso e Jonas. Mas isso fica pra depois, porque eu sinto que uma "bola" se agiganta , em minha garganta...

5 comentários:

Suzana Gutierrez disse...

Prezada Bia

Estou comentando aqui a respeito de seu comentário na postagem da ECS 9.

Na interdisciplina Escola, Cultura e Sociedade o blog é nosso webfolio, tendo isso sido informado nos primeiros encontros presenciais. Não estamos usando o webfolio da interdisciplina no Rooda, embora tivessemos solicitado aos alun@s que colocassem lá links para as atividades postadas no blog.

Porém, estes links, por um defeito no ambiente, ainda não funcionam, mesmo colocados corretamente. Assim sendo, deixamos de fazer esta solicitação, enquanto a falha não for corrigida.

A nossa opção por ter o webfolio no blog individual de cada uma, juntamente com as reflexões de vocês e tarefas de outras interdisciplinas se deve a facilidade do uso do blog, dos recursos que ele disponibiliza (imagens, links) sem a necessidade de co nhecimentos técnicos mais avançados e, também, por seu caráter público e interativo, característicos da www.

Portanto, as atividades da ECS serão quase sempre colocadas ou no blog individual de cada alun@ ou, em alguns casos específicos, no blog colaborativo do Polo.

abraço,

Suzana Gutierrez
abraço

Tatiana Gomes disse...

NOSSA.. TU DEVES SER UM APROFE E TANTO HEIN!!!!
BJS NO CORAÇÃO...GOSTEI MUITO DE TI...

Luciene Sobotyk disse...

Oi Bia,passei prá desejar um bom início de semana.Beijão,Luciene

Colégio Érico Veríssimo disse...

Oi Bia!!!
Otimo inicio de semana!!!
Um super beijo, Vanessa

Izolete disse...

Olá Bia! Que ótimo que tu sempre aparece.Obrigada pela visita! Teu blog está lindão!É gostoso ler tuas reflexões.
Beijos,boa semana!