Saí de casa com uma certa resistência: por mais incrível que pareça, naquele momento, eu pensava que estava em dívida com Pavarotti. Sentia necessidade de escrever algo em meu blog, sobre ele, sobre sua partida... afinal, no mês anterior , diariamente , sua voz ao cantar Nessum Dorma, tocava fundo nas ondas agitadas que se tornava a mente de um de meus alunos. Ouvindo-o, o adolescente se acalmava, relaxava, parava de gritar e tentar machucar a si e aos que estavam próximos. Como não falar em Pavarotti?Mas meu marido, com sua insistência, venceu e saímos rapidamente de casa. Nosso destino ficava do outro lado da cidade. Ao chegar na sala já minha conhecida, utilizei o mesmo mecanismo de alguns alunos lá da escola: fixei minha atenção no espaço físico, procurando reconhecer objetos e verificando se houvera alguma mudança. Concentrei-me, antes mesmo de responder aos cumprimentos, nas poltronas. Lá estavam elas! Poltronas grandes, reclináveis e confortáveis. Poltronas cinzas com rodinhas vermelhas. Perfeito! Agora eu ia escolher o meu lugar.
Olhei as pessoas que já estavam acomodadas e percebi que entre um homem de olhos fechados e rosto virado para a parede e uma velhinha de aparência gentil, havia uma possibilidade... Sentei-me, refletindo que o homem não teria nenhuma condição de conversar e que a velhinha provavelmente só iria sorrir ou, nem isso. Talvez estivesse com mais receio do que os outros, sentindo-se sozinha... neste caso, eu abdicaria do meu voto de silêncio e tentaria distrair sua atenção, se a tosse me permitisse. Era muito importante fazer um rápido reconhecimento e escolher estrategicamente o lugar onde sentar pois eu tinha noção de que ficaria no mínimo umas cinco horas por ali...
Próxima etapa: observar discreta e rapidamente as outras poltronas. A sala é dividida em dois ambientes. No primeiro, onde eu sentara, havia oito poltonas. Nas cinco à minha frente estavam sentadas quatro mulheres e um senhor de aproximadamente 80 anos. Uma, a mais jovem , estava de abrigo e tênis. A outra, ao seu lado, vestia uma blusa lilás que chamou minha atenção. Calçava uns tamancos de plataforma. As duas regulavam a idade: por volta de trinta anos. Na poltrona do centro, uma idosa que saiu pouco tempo depois: cabelos tingidos e olhos atentos, controladores. Observava os responsáveis pela sala com certa desconfiança( o que eu traduziria em medo, pela situação em que se encontrava). Ao lado dela, sentadinho de olhos fechados e expressão de muita dor estava o Seu Ari. Fiquei sabendo logo o seu nome pois todos que estavam à trabalho perguntavam "Passou um pouco, Seu Ari?", "Ainda dói muito, Seu Ari?" Ao que ele respondia com balançar de cabeça. Parecia um Papai Noel desnutrido, fraco... mas os indícios de uma vida bondosa "estavam fortes" através de suas tentativas de sorriso e dos frágeis agradecimentos a quem lhe dava atenção. Gostei dele e adotei-o mentalmente. Durante todo o tempo que estive a sua frente, enviei-lhe sorrisos e olhares ,procurando demonstrar que eu observava e , de alguma forma, entendia a sua situação.
Por último, uma senhora de aproximadamente 50 anos, coberta com o seu casaco. Estava de abrigo de passeio . Gostei do tênis dela mas achei-a antipática. Reconhecimento feito em poucos minutos.
Comecei a tossir novamente e lá veio um dos rapazes com uma bandeja na mão , certificando-se de meu nome: "Dona Maria Beatriz?" - "Eu mesma, sem o o Dona." - "Ok, Maria Beatriz... agora eu vou te machucar só um pouquinho, certo?" Por entre tosse , brincando e já esticando o braço... "Nem pensar, meu amigo... vim aqui pra dormir nessa poltrona e já vou avisando: minhas veias são 'bailarinas'." Gilberto, esse era o nome dele, sorriu e respondeu "hum...veias de nenê...difíceis de encontrar..."
Na quarta tentativa, encontrou. Enquanto virava o rosto para não olhar a agulha entrando em minha pele eu pensava no Lu, que estava me aguardando em outra sala. Provavelmente, ouvindo música com os fones de ouvido e tentando, frente a outras pessoas, disfarçar a apreensão. Em todas as minhas idas sempre ficamos assim: ele extremamente preocupado por minha causa e eu, por minha situação e, também pela dele, que sempre vem acompanhada de um grande sentimento de impotência, de querer fazer mais do que consegue. Esse sentimento não o abandona: sei que , antes mesmo de ser atendida pelos médicos, ele já fantasia diagnósticos complicados.
Na verdade, tanto ele como eu (e milhares de pessoas) não conseguimos lidar muito bem com hospitais. Mas devo admitir que utilizo vários mecanismos de defesa e disfarço de forma bastante satisfatória.
A cortizona já começava a circular em minha corrente sanguínea... pensei sobre isso, "deixei" o Lu ouvindo música e lembrei do Pavarotti. Antes de sair de casa eu dera mais uma olhada no blog da Neusa. Ela fizera uma postagem sobre o tenor... senti-me, brevemente, representada pela minha amiga.
Observei que os rapazes da sala, pela altura, poderiam estar numa quadra de basquete. Mas estavam ali, conosco, e tentavam minimizar nossas dores de várias maneiras. Junto com os medicamentos , um deles distribuia sorrisos e dava tapinhas confortadores nas mãos dos mais idosos. O mais sério era rápido, respondia a todos sem deixar de verificar temperaturas e aplicar injeções. Ao contrário de Gilberto, não olhava nos olhos dos pacientes. Mas era ele, juntamente com uma colega, que firme e educadamente retirava os parentes mais afoitos que insistiam em permanecer na sala, atrapalhando a circulação e demonstrando o nervosismo comum de quem gostaria de tirar a dor e doença de seu ente querido. Só nestes momentos, ele olhava nos olhos dos familiares.
Gilberto era o gozador: tinha noção de que era divertido e procurava desviar a atenção de quem atendia. Achei engraçado quando se dirigiu à moça de lilás e disse: "tenho duas notícias pra te dar: uma é tchan a outra é...tchan-tchan. Qual quer primeiro?" Entretanto, a "Lilás" estava tão desorientada que só ficou olhando para ele. E ele continuou: a notícia-tchan é que vais ter que fazer uma medicação na veia do braço e a tchan-tchan é que precisas fazer na nádega também. Qual vai querer primeiro?" O jeito com que falou lembrava muito um vendedor ambulante e, acredito que até ela percebeu porque deu uma risada baixinho e disse que preferia primeiro a menos dolorida. "Braço!" ele respondeu. É... ele poderia ser um pivô de um time de basquete, distribuindo as jogadas... chamou uma das atendentes e disse "o tchan-tchan é teu". Por alguns minutos nem lembrei de dor nas costas, tosse, vômitos. Só fiquei observando a performance do rapaz.
O time era composto por cinco. Os rapazes e duas moças que não "solavam" tanto quanto eles. Ficavam mais no "coro". Mas cada qual demonstrava saber muito bem a função de cada um: quando uma outra senhora com saltinho agulha e olhar de "venham todos me atender" fez sua primeira das muitas exigências , Gilberto se afastou e deixou que o Sério assumisse a bronca. Quando Seu Ari começou a chorar enquanto tirava sangue, com uma das moças, foi o "Tapinha nas Mãos" que se aproximou e afagou seu ombro. Também foi ele quem buscou a filha de Seu Ari, para confortá-lo e acalmá-lo .
Nesse meio tempo, o velhinho se desculpava por chorar e explicava que fazia quimioterapia e que seus braços já estavam doloridos, sua pele não aguentava mais tantas espetas das seringas.
Mesmo sensibilizada não deixei de pensar que Seu Ari tinha o privilégio, como nós, de ter, no mínimo, um convênio. Relembrei de alguns de meus alunos e suas mães que esperam meses por um atendimento. Aí, "saltei" para Pavarotti, de novo, imaginando que tipo de paciente ele fora. E refleti, que ele se fora mas jamais deixaria de ser imortal. Estaria sempre conosco, através de tudo que fez. "Serviço feito...e bem feito" ele poderia dizer, ao chegar em sua nova morada.
Tenho uma amiga que brinca dizendo que, na sua morte, vai subir até o Céu e marcar uma hora com Deus. Só fará uma pergunta, após sentar em sua frente: "Mas Deus...pra que tudo aquilo, lá embaixo?"
Eu acho que o tenor nem precisou marcar hora ao chegar. Após um período de descanso deve ter recebido muitos convites pra cantar no céu.
O tempo passara e eu já estava em minha segunda nebulização. Até o momento de minha saída, às 21h, ainda faria mais duas nebulizaçoes e três exames.
Meu braço começou a formigar, coração acelerou e a visão ficou turva. Pensei: "me sedaram! Droga!" Chamei o "Sério". Disse-me ser efeito do medicamento e que logo iria passar. Sem preocupações, eu estava "sendo monitorada'. ("Ah, tá! O Pavarotti também estava...")
Dormi. Ao acordar, tinha novos companheiros nas poltronas cinza. Cadê o Seu Ari? E a velhinha muda, do meu lado? E a "Salto agulha"? Em minha frente, um cara musculoso e tatuado. Pressão, ele dizia. É a minha pressão. Enquanto isso, na entrada, "Sério " explicava a uma familiar os motivos pelos quais não poderia ficar na sala.
Independente de quem sejamos, de como estamos vestidos, que acessórios colocamos ou, não... nestes momentos, quase sempre todos comungam de sentimentos parecidos: receio, dor, tristeza, impaciência, agradecimento, impotência. A velhinha cuja filha insistia em entrar falava de seu arrependimento em relação ao marido: deveria tê-lo abraçado mais nos últimos meses antes de sua morte, deveria conversar sobre coisas alegres para fazê-lo mais feliz. Mas não conseguia... Da porta a filha sinalizava para que a mãe se acalmasse. Novamente "Tapinhas nas Mãos" surgiu, permitindo a entrada, por breve período, da filha. Após conversar baixinho com a mãe, deu-lhe um abraço e disse que estaria esperando.
A médica que me atendera na chegada, fora verificar como eu estava. Conversou um pouco comigo e com outros pacientes.
Seu Ari voltou do exame e sentou ao meu lado. Contou-me das idas dolorosas á quimioterapia e de como sentia falta de sua mulher que casara com ele aos 18 anos e ficara em sua companhia até os 65. Muito tempo depois de ter saído do hospital pensei que mais forte que o câncer que lhe corroía era a saudade de sua companheira. Há alguns anos atrás , o Lu me disse que seu projeto de vida mais importante era envelhecer ao meu lado, serenamente. Fiquei pensando nisso e em outras coisas, outras planos, outras palavras... Pensei, que apesar da dor eu poderia me considerar uma pessoa feliz.
Com a certeza de que eu saíria do hospital, de que meu marido me aguardava e , que juntos iríamos para casa, as nove horas que permaneci entre exames e sala de medicação foram rápidas, até. Ter a consciência de que seu problema não é o único e de que existem pessoas para amenizar a sua dor é um alento. Não perder a consciência e humanidade é importante. Difícil, para alguns...mas necessário para todos.
Pavarotti fez a sua parte, o quinteto da sala de medicação fazia o melhor que o tempo e as condições permitiam, Seu Ari fez a sua parte com esposa, filhos, netos e um bisneto a caminho. De alguma forma, enquanto não partir pra me encontrar com a Outra Turma, faço o melhor que posso. Quando chegar frente a Deus vou dizer "Serviço bem-feito. Tem mais algum?"
6 comentários:
Nossa Bia,é de arrepiar esta tua postagem!
Como sempre com uma imensa sensibilidade.Quisera eu ter essa percepção que tens de tudo e todos.
Beijão que Deus te ilumune e te cure.Lu
Mto bom, Bia!!! Temos mtas sensações dentro de um hospital (sentimentos são despertados a todo momento) e fico admirada pela forma como te colocas e como são teus olhares ao encarar estas idas.
Qto ao novo recurso, adorei tuas personagens. Confesso que gravei umas 5 mensagens antes daquela. Ficava com vergonha e começava a rir... haha... na quinta vez, consegui.
Estou curiosa... quero saber mais da tua idéia dos blogs. Em breve, verás minha postagem. Bjão, Anice.
O ser humano é realmente estranho, normalmente lembra-se do que poderia ter sido feito depois da partida, depois da total impossibilidade de algo se fazer. Tenho o hábito de diariamente, antes de dormir, fazer um "balanço" (quem sabe pro causa da formação acadêmica, Ciências Contábeis?) dos acontecimentos diários, do que tenha feito ou deixado de fazer, para corrigir falhas e repetir acertos (nada há ver com o chamado publicitário do atual governo municipal), mas sempre fico com a nítida sensação de sempre ficou faltando algo.
Lindo teu post menina, sem muito esforço nos leva a refletir sobre nossa existência. Carinho e beijos. Miro
"Serviço bem-feito", muito bem-feito!
Bia, que saudade!!! Estive afastada do net, por problemas tecnicos, mas assim que retornei, primeira parada: blog da Bia.
Teu trabalho sempre é maravilhoso, tudo que tu produz é divino, tuas palavras são realmente especiais, linda postagem, sem maiores comentários! Beijos e desejos intensos de melhoras...
É amiga.Lendo o que produzistes se confirma o quanto somos pequeninos e frágeis.Nestes momentos de dificuldade é que percebemos e valorizamos tudo que temos e as pessoas que amamos.Muitas vezes na rotina diária deixamos de lado muitas coisas porque pensamos que sempre estarão lá a nossa disposição,coisas como saúde,sonhos,rotina,amigos,parentes,filhos,etc...quando somos colocados á prova começamos a valorizar tudo,desde um raio de sol,um cheirinho de chuva ,um olhar meigo,uma atenção amiga,palavras doces,tudo nos sensibiliza e nos dá força para continuar a nossa caminhada.Você escreve com uma naturalidade e com um carinho que envolve cada uma das pessoas que lê.É um dom natural seu,presente que Deus lhe deu, mas principalmente é um presente para nós que adoramos ler e viajar na imaginação quando somos levados pelos teus pensamentos em forma de texto.
beijinho.
Bia, és uma Pândega!! Até no hospital tu dás uma jeitinho de tornar a vida menos difícil e mais divertida!! Eu adoro teu senso de humor e a tua ligeireza em observar e caracterizar os tipos singulares.Sem dúvida, olho científico não te falta e o usas em todos os momentos, provando que o conhecimento e as competências científicas tem espaço em todo o nosso viver, principalemnte qdo se junta ao conjunto de intuições. Mostras como sem elas, tudo fica mais difícil. Já pensastes como seria difícil caracterizar a do salto agulha e outro?
Um beijão
Bea
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