domingo, 13 de abril de 2008

Outras segundas chances

Há muitos anos, no auge do Alzheimer de minha mãe, olhei para os lados e descobri que estava sozinha. E, também, cansada. E,triste. E, apática. Já não conseguia pensar direito. Olhei todas as coisas materiais que eram significativas pra mim: discos, um xale bordado com fitas de cetim lilás, um cálice de estanho, a biografia de Gandhi, um violão velho e encharcado de histórias, uma pedra que ganhara de presente de um dos meus alunos, uma caixa contendo os primeiros bilhetes de minha primeira turma de alfabetização... Nos dias seguintes, fui me despedindo de cada uma dessas coisas: o violão, doei a um colega de trabalho, que era responsável por um grupo de escoteiros, o cálice e o xale foram para Isabela, uma colega que não abraçava ninguém, e não esperava receber nada, também. A biografia de Gandhi, deixei no banco de uma lotação e os discos, em uma caixa na biblioteca do prédio onde trabalhava. A pedra e os bilhetinhos ficaram comigo. Bem, mesmo sendo discreta e realizando minhas doações espaçadamente, chamei a atenção de uma colega , que falou com outra, que encontrou alguém que ganhara um xale, que falara com outro que recebera um violão... E, numa tarde que encabeçava o final de semana, fui chamada na sala de minha coordenadora. Lá encontrei sete pessoas que viriam, nos meses e anos seguintes , a ser meu apoio e conforto até o falecimento de minha mãe. Do grupo, três permanecem muito próximas e se transformaram em valiosas amigas. Através delas percebi que eu não estava sozinha...apenas me isolara em um castelo de problemas e não falara com ninguém.



Decidi desgostar dos escritos futuros de Lya Luft em 2004. Não que eu discorde totalmente do que ela escreveu em um de seus artigos. Mas, ainda acho que certas comparações não são cabíveis, ainda acredito que pessoas se comovendo ao ver uma baleia encalhada e tentando ajudá-la, são bem melhores do que quem critica, escreve, e nada faz. O que me impede de ajudar um animal e TAMBÉM ajudar pessoas? Hoje, ler seu nome nas páginas da Veja é indicativo de "passar para outro artigo".

Mas não consigo esquecer de um de seus livros, A asa esquerda do anjo. Lembro-me da expressão "rasgando tecidos"; e também da sensação que isso me provocou: eu sabia exatamente como era sentir algo subindo pela garganta, arranhando-a, como era engolir o choro, engolir a dor, lutar contra eles e enviá-los de volta ao seu recomeço. Identifiquei-me , na época, com algumas coisas da personagem. Mas o tempo passa e, se você é "saudável", consegue reelaborar muita coisa e seguir em frente: as personagens nos acompanham por um tempo necessário..depois vão embora, para que a gente consiga viver nossa realidade. Tenho medo de reler a Asa esquerda e pensar "nossa, quanta bobagem... " Então, apenas recordo as sensações.


Pois, olha só: acabei de ouvir o poema de Jaime Caetano Braun, que a disciplina de Ciências nos ofertou. E acho que há muito relacionado com que eu escrevia, nessa postagem. Trabalhamos e vivemos pelas segundas chances, não é? E pelas terceiras e quartas, e quintas e sextas...
A personagem do poema teve outra chance que a vida lhe deu: mudou o seu olhar sobre aquele animal que, em suas lembranças infantis, sofria com suas brincadeiras de mau gosto. ("e na maldade campeira que identifica os piazotes, vivia te dando trotes, que hoje, recordo com mágoa...)
"Só há morte onde existe vida..."
Então... há um tempo atrás, eu me dei outra chance... outras pessoas também.
Em meu colo, acompanhando, interessada e sonolenta, o movimento da tela do micro, há outra personagem que recebeu uma segunda chance: batizei-a de Samanta. Ela foi abandonada lá na Restinga por um grupo de meninos, frente a uma casa, onde seu morador, de forma ineficaz, triste e solitária abriga mais de cem animais. Samanta ficou dois dias no pequeno pátio desta casa, embolada com outros filhotes que vieram a falecer. Agora, está comigo e com o Lú, aqui na Zona Norte. Tem aproximadamente dois meses , está subnutrida, anêmica, tem uma hérnia...enfim... Acho que depois de sentir o calor e aconchego de outro corpo, está lutando pra sobreviver. Samanta terá outra chance e outra vida.
Com pesar, relembro dos meninos que a largaram... gostaria que tivessem outra chance...

3 comentários:

Daiane Grassi disse...

Olá Bia, embora tenhamos conversado via skype sobre a tua postagem, venho aqui para continuar minhas percepções ;-)

É minha amiga, sabe aquele ditado que diz que "Um cavalo selado não passa na porta da mesma pessoa por duas vezes" ? Pois então, assim penso que devemos sempre ficarmos atentos às chances que nos são oportunizadas! As chances de fazer alguém feliz, alguém mais crítico, alguém mais inovador, mais criativo, mais... mais... mais! Só depende da gente não é mesmo?

Para isso é importante que tenhamos nossos objetivos de vida muito bem estruturados, organizados e planejados!

Que tal incorporar esta perspectiva lá no teu planejamento individual? Já vi que iniciaste os trabalhos. Em breve passarei por lá!

Acredito em você! Um abraço,

Daiane

mauranunes.com disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mauranunes.com disse...

Bia querida, linda reflexão!
O que escrevestes, a poesia, a tua nova 'filhota', me fizeram pensar que muitas vezes é mais "tolerável" para nós todos, quando colocamos o estranho no fora - o contraditório, o esquisito, o menlancólico, o sombrio, o abandonado, o excluído... Quando, me parece que todos somos "meio corujas", "meio samanthas", afinal há muitas coisas insondáveis dentro de nós mesmos...
E acredito que fazer as pazes com esses (nossos)personagens, e não expurgá-los, damos uma chance a nós mesmos... uma chance para a morte, uma chance para vida e... mais espaço!
Como sempre, consegues fazer uma preciosa conexão entre tudo o que experencias, Bia! Bjo!!!