sábado, 10 de maio de 2008

Sempre em meus pensamentos

Em um de seus comentários em meu blog, a Professora Bea trouxe uma questão que me fascina e intriga: "o que será que tem algumas músicas ou qualquer outro tipo de comunicação que passa através dos tempos e encanta gente de várias idades que vivem em mundos completamente mudados? No que ela é especial?"
Bem, fiquei pensando nisso, na linha do tempo proposta pela professora Cida e pela Eliana, nas reflexões sobre a disciplina de Ciências e no meu PIE... por um momento visualizei a ampulheta postada pela Izolete em seu blog, com o movimento da areia a escorrer...
Em meu caso, muito mais as melodias do que algumas letras me chamam a atenção. Mas, na realidade, acredito que a Música transcenda, ultrapasse gerações por causa da genialidade de seus compositores e de seus intérpretes.
Em uma época em que Mulheres Melancia, criaturas dançando e cantando o tal do Créu são admiradas por muitos fico pensando no que passa na cabeça de alguns fãs. Tanto a mulher que, aparentemente, se julga incapaz de oferecer alguma coisa a mais do que pedaços do seu corpo e o homem que simula um ato sexual com sua "coreografia" são passageiros, facilmente serão abandonados no baú do esquecimento. Talvez ouvir uma melodia, escutar uma letra e, além disso, estabelecer relações a partir daí, seja um exercício complicado para alguns. O que é lamentável.
Fui buscar em alguns escritos (os famosos diários adolescentes, daquela época) algo que eu registrara sobre a Música . O ano era 1976 e várias flores desenhadas
com canetinhas enfeitavam a página. Mas eu escrevi isso:
"não sei porque a mãe e a dinda implicam com a minha mania de ouvir música, sentada no banheiro! Gosto da música em todos os lugares, até quando faço xixi, ora! Ouvir música é como se eu fosse pra outros lugares e voltasse só na hora do almoço. A música entra em mim e eu fico feliz, , lembro de coisas boas. Eu me imagino nas Olimpíadas, ganhando uma medalha ou nadando pra salvar um monte de gente que caiu no mar. Eu ainda não sei nadar mas ouvindo música parece que eu sei e sou capaz. Acho que vou pedir pro Tata me colocar nas aulas de natação. Quem faz música deve ser bem mais feliz do que quem não faz. ou, então senta no banheiro e pensa que nem eu...Droga! já tão batendo na porta do banheiro! E agora é o Neco que quer ouvir rádio também! quero um rádio só pra mim!"


Ouço a música cantada no vídeo acima e lembro da voz de Elvis Presley, de momentos de sua vida, registrados pela mídia, penso em toda a sua genialidade e em suas escolhas, suas opções que , muito provavelmente, tenham abreviado sua história. Seguindo outra linha de tempo sou capaz de emocionar-me com Willie Nelson, admirar-me com sua voz... e associado a tudo isso, a figura de Bon Jovi. Mas quem foi Elvis Presley, quem é Willie Nelson e este, agora não mais jovem, Bon Jovi?
Ouvir música pode ser estar aberto a pesquisar , estabelecer relações, não somente se encantar.
Bem, mas aí entra outra questão que relembro: criativos intérpretes. Falo criativos pela capacidade que alguns possuem de "trocar a roupagem" de algumas músicas. (Alguém já ouviu Adriana Calcanhoto interpretando Caminhoneiro, do Roberto Carlos?Bah!)



Mais uma vez, em seu comentário, a Professora Bea desata alguns nós : "Esse seria um dos papéis da escola não? Apurar o gosto e a sensibilidade dos alunos para todos os tipos de comunicação, na busca de uma maior aproximação entre pessoas."
Há alguns anos, na FAPA, assisti a um filme estrelado pela Jodie Foster, chamado Nell.
Nell vive até os 30 anos, afastada do contato com outras pessoas. Por conseguinte, não fala , nem se comunica, como a maioria. Desenvolveu uma linguagem própria. Fico pensando nas diferentes linguagens de nossos jovens e na capacidade ou incapacidade que temos de nos aproximarmos, traduzirmos e ofertarmos outras coisas além de funks com letras duvidosas e coreografias que estão bem para além do sensual....
Em um mundo em que o Imediato é cultuado, que a velocidade é admirada...o espaço para uma mudança de marcha precisa ser conquistado por nós, educadores. Resgatar diferentes histórias, a minha, a sua, a do colega, de meus alunos é importante. Entender como podemos, através de ações impensadas, abreviar a história do planeta, é imprescindível. Sempre foi.
Acho que precisamos descobrir os códigos de acesso de nossos alunos, de nossos pares, de nossos namorados, maridos, filhos...precisamos, por vezes, relembrar dos nossos próprios códigos.


O tema escolhido no meu PIE tem trazido alguns questionamentos e , por vezes, a incômoda sensação de ignorância. Conhecer o Universo Naruto não é tão simples, nem imediato. Mas estou tentando, arduamente.
Há poucos dias estive com alunos de ensino médio falando sobre como administro meus blogs. Em determinado momento, ao enxergarem no telão, um gif sobre o personagem Naruto manifestaram expressões de reconhecimento e satisfação. Foi como se eu tivesse, finalmente, acessado a senha de identificação com aquele grupo... a partir daquele momento eu era um deles, ingressara em outro seleto grupo. Interessante e passível de muita reflexão.



O fato é que estamos na "busca de uma maior aproximação entre as pessoas". Diferentes caminhos e obstáculos... mas quem sabe, um dia, tenhamos todos a mesma intensa determinação de sermos melhores pessoas com metas enfocando paz, felicidade, justiça, fé, criatividade e vontade.

2 comentários:

Izolete disse...

Olá Bia, é claro que não me importo, pelo contrário, é um prazer poder fazer parte dessa tua linda e profunda reflexão sobre a música. Me identifiquei contigo em muitos pontos da tua fala, acho que esses "créus" e outras maneiras vulgares de expressão musical na atualidade, se deva ao modo superficial e banal com que as pessoas encaram a vida atualmente!
Bjos.

Beatriz disse...

Bia, interesante a tua colocação acerca de descobrir os códigos de acesso das pessoas. Aliás, acho que temos, pelo menos, um código de acesso semelhante: o mesmo gosto de música.:-)
Se descobrirmos as diferenças de códigos e descobrirmos as senhas para "termos permissão", estaremos em sintonia com os diferentes alunos e com os diferentes contextos deles. Se descobrirmos isso, ninguém mais será considerado difícil não é mesmo? E, ao ouvir o Bon Jovi e pensar no Elvis Presley, Roberto Carlos, James Dean, Marlon Brando, Naruto, heróis de quadrinhos, me dei conta como a rebeldia, própria dos não acomodados, pode ser expressa por formas diferentes em momentos culturais diferentes!! E como traços quase que conflitantes aparecem no mesmo personagem!!!Elvis e Naruto são semelhantes: carregam a meiguice, o olhar penetrante e meio triste,são lindos, se movimentam como bailarinos,ao mesmo tempo em que fizeram muito mal a si próprios, se agrediram , se exterminam e ajudam na exterminação dos demais. Isso significa que faz parte do homem as facetas do amor e da agressão? E que o equilíbrio entre elas é o caminho? E me dou conta de que a música acompanha isso!! A diferença da linha sonora do Naruto e do Ben Jovi é imensa.
O video final é o símbolo dessa ambiguidade!! A violência ligada ao belo. A delicadeza e melodia da música e da ação se confrontam em um duelo muito interesante. Gostei demais!! Será que poderemos ajudar no confronto? A escola teria que ser a provedora dos contrastes não?
Um abração
Bea