O objetivo deste post é retomar a conversa iniciada com as professoras Bea e Íris através de postagem e comentários neste blog sobre fórum e trocas realizadas. Acho pertinente partilhar alguns vídeos e escritos que mobilizaram a minha reflexão.
Volta e meia retomo alguns vídeos e escritos de Paulo Freire. Se quero assistir a um depoimento apaixonado sobre seu ofício, geralmente, começo com ele.
"...antes da palavra o que a gente tem pra ler... é o mundo. A gente lê o mundo na medida em que o compreende e o interpreta..." (Paulo Freire)
Em minhas circuladas pela rede encontrei um vídeo falando sobre as idéias de Paulo, uma leitura e escrita equivocada na Revista Veja e uma bronca de outro Paulo. Interessante assistir...
Dinéia Hypólitto, em seu artigo O Professor Como Profissional Reflexivo, escreve:
Dinéia Hypólitto, em seu artigo O Professor Como Profissional Reflexivo, escreve:
"O saudosismo, o desejo da volta a um mundo em que não havia contestação, o professor tinha status e era o centro da sala de aula, ditando normas, pontos e conceitos, não se coadunam com o professor reflexivo, homem de seu tempo, de passo acertado com a evolução que continua. Vasconcellos nos explica que: “O espaço de reflexão crítica, coletiva e constante sobre a prática é essencial para um trabalho que se quer transformador."
Acho interessante pensar que somos seres inacabados buscando a perfeição. Hoje, bem mais do que antes, acredito que o mais significativo seja o processo de busca, a forma como idealizamos e realizamos nossas caminhadas.
Ter a certeza de tudo e de todos nos engessa, nos formata, impede o processo de procura.
Quando Paulo Freire fala sobre a leitura de mundo nos aponta um dos caminhos: o caminho de "nos sabermos", "nos conhecermos" e conhecermos nossos alunos: o caminho da investigação.
Em seu comentário neste INTERDISCIPLINAS a professora Bea escreve "...pois não se saber impede que se mude..."
A professora Íris indaga : "...precisamos pensar como colocar a situação: desabafamos e denunciamos mais do que criamos e anunciamos ou tendemos ao contrário?"
Ah! Posso estar sendo repetitiva mas lá vem, bem grudadinho nas palavras de nossas mestras, o nosso amigo Platão. O que fazemos? temos a certeza do que fazemos? Mesmo?
Pois o Platão já nos indicava que uma boa pergunta pode ser bem mais produtiva do que uma resposta.
Afinal, o que queremos desde a entrada neste curso? Qual a nossa busca? Queremos apenas um canudo ao final do último semestre ou , ao contrário, desejamos ir além, através das experiências possibilitadas?
Será que conseguimos fazer a relação (longínqua para uns, inexistente para outros, mas presente para alguns) entre o que vivenciamos e a possibilidade de termos uma sociedade melhor? Com alunos mais criativos, mais ousados, mais confiantes e, ao mesmo tempo, com um olhar mais terno e respeitoso com todos os seres? Conseguimos perceber que nossa postura, aquilo que pensamos, dizemos e criamos tem a ver com a sustentabilidade desse planeta?
Nossas ações correspondem aos fatos?
Se queremos transformar precisamos nos buscar. Assim como Hypólitto e Vasconcellos escreveram a reflexão é necessária.
Será que eu já escrevi em algum lugar sobre o que eu mais observava quando ia assistir óperas com meu padrinho?
Pois bem, vou contar. Meu padrinho era fã de óperas e eu, a mais nova da casa, era fã do meu padrinho. rs A única que o acompanhava até a PUC para assistí-las, era eu. E com o tempo, à medida em que ia crescendo, meu olhar se tornou um pouco mais exigente.
Um dia, olhei para o maestro que regia a orquestra e me encantei: a partir daquele momento, as óperas e concertos eram a possibilidade para que eu revisse o que tanto me chamara a atenção: um homem que falava musicalmente com os braços e que interagia com um grande grupo...
Ainda hoje, a regência me fascina. O conhecimento que o maestro tem dos instrumentos, dos músicos e da relação de ambos o torna um excelente "articulador musical".

Bah! Lembrei agora, de João Carlos Martins!
Aprendeu a tocar piano aos sete anos e, antes dos vinte, já tocava no exterior. Foi considerado o maior intérprete de Bach, pela crítica mundial. Com vinte anos, ao tocar no Carnegie Hall, foi aplaudido de pé, por 10 minutos, pela platéia.
Vários episódios e lesões fizeram com que fosse perdendo o movimento dos dedos. Aparentemente, sem poder tocar piano, a história deste homem podería partir para um epílogo. Não foi o que aconteceu. João nos prova que sua vida apenas recomeçara com outro caminho...
Mas o que Paulo Freire, João Carlos Martins , Platão, as professoras Bea e Íris e a professora Hypólitto têm em comum?
Mas o que Paulo Freire, João Carlos Martins , Platão, as professoras Bea e Íris e a professora Hypólitto têm em comum?
Todos falam e mostram que é possível, através de nossa postura, nossas ações, transformar vidas. Todos eles falam e agem com paixão. Buscam, de diferentes formas partilhar o que possuem de melhor: a sua crença.
Crença que vai para além dos desabafos e denúncias. Vai para a possibilidade de aprendizagem através de um processo em que a investigação, a formulação de hipóteses, a sustentação de teorias através da busca de soluções e respostas é o trajeto.
Precisamos pensar, refletir, avaliar, reformular. Precisamos ler e sustentar nossa prática à luz das teorias.
No primeiro semestre, minha colega e eu organizamos um ppt para a entrega dos relatórios de acompanhamento. Ali, junto às fotos do trabalho com os alunos, colocamos alguns trechos de teóricos da educação que sustentavam o que mostrávamos. Desta forma, a importância do jogo, foi apresentada com escritos de Constance Kammii. Buscamos falas de fotógrafos que salientavam o significado do ato de fotografar, o que é muito trabalhado por minha turma.
Conversávamos sobre o grupo, sobre suas preferências, necessidades, prazeres e conquistas enquanto as imagens eram disponibilizadas.
No momento em que, em um clima de bate-papo, colocávamos as imagens à luz da teoria, desnudávamos a nossa intencionalidade pedagógica: estávamos mostrando o que fazíamos, como fazíamos e o porquê de fazermos.
É através de ações deste tipo que valorizamos o nosso ofício.
Temos ouvido muitas queixas de falta de valorização do professor mas, penso que esta se dá a partir de nós, de nossas ações, de nosso engajamento político-pedagógico.
Uma das leituras que considerei muito significativa, no semestre passado, foi através de um trabalho acadêmico de Karina Mollon e Bettina dos Santos. Ao final de sua tese comentam e destacam uma afirmação de Miguel Arroyo:
“... Miguel Arroyo (2000) ao reforçar a idéia de uma nova pedagogia, capaz de recuperar a centralidade do como, comenta que a escola pode ser um espaço facilitador do desenvolvimento ou um entrave para ele. Para que possamos nos encaminhar a uma educação de qualidade, precisamos refletir sobre como nossos alunos aprendem mais. Esse é um questionamento pertinente. E ainda me pergunto se os educadores têm a percepção de que:” O que fica para a vida, para o desenvolvimento humano são os conhecimentos que ensinamos, mas também, e, sobretudo, as posturas, os processos e significados que são postos em ação, as formas de aprender, de se interessar, de ter curiosidade, de sentir, de raciocinar e de interrogar” (ARROYO, 2000, p.110
Pois sobre isso, sobre as formas de aprender, de se interessar, de interrogar, de desacomodar, nossa dupla do Seminário Integrador tem sido incansável, não é?
Pois sobre isso, sobre as formas de aprender, de se interessar, de interrogar, de desacomodar, nossa dupla do Seminário Integrador tem sido incansável, não é?
Quando a professora Bea, através de uma breve retomada dos movimentos realizados desde o início do curso, nos traz o indicativo de que podemos mais, julgo necessário partirmos para a ação. Em nossas salas, com nossos alunos, com nossos colegas, em nossos trabalhos, em nossa vida.
Quando a colega Neusa nos conta que, a cada dificuldade surgida, uma forma de contorná-la (ou enfrentá-la) é buscada eu acredito que aí está uma resposta para perguntas e provocações que têm sido feitas por Bea e Íris, desde o início do curso.
Danielle, uma de minhas colegas no Lucena, gosta de comentar que, quando cheguei na escola, não sabia nem digitar um parecer e salvá-lo em um disquete. Depois de falar isso, dá uma pausa e finaliza "eta faculdade, hein, Bia! Olha só o que tu fazes, agora..."
Pois é...
Ah! E se alguém ficar pensando qual a relação do título desta postagem com o seu conteúdo, a resposta não é tão óbvia: Para todos os 15 de outubro eu desejo mais 364 dias de alegria, bom-humor, paixão e, sobretudo, superação.
Por último mesmo, um presentinho: a primeira parte de um documentário sobre João Carlos Martins e a possibilidade de vê-lo tocando em 1970!



Um comentário:
Bia amada, que gentiliza e que honra nos destes, nos colocando ao lado do Paulo Freire. Como sempre, tu és impecável nas tuas reflexões, apertando os pontos que precisam, ressaltando a mudança individual e coletiva e a vontade de continuar.
Eu tb acho, como o Arroyo (aliás isso já é bem velho) que o que sobra mesmo está carregado de operacionalização conjunta e cooparticipada. Quando há essa liga, a gente não esquece mais o nosso companheiro de trabalho e de descoberta e, se somos algo diferente, com certeza ele tb o é.Isso não é maravilhoso? termos companheiros de crença e de ação, nos mais diversos espaços desse mundão. Adoro, qdo Paulo Freire diz que pertencemos a raça humana porque isso nos reduz ao verdadeiro: simplifica a coisa e descarrega o conceito de enfeites e descalabros. Somos gente e ponto. Mais que tudo, podemos ser gente que se acredita e acredita nos outros, que faz uma aposta constante na capacidade do outro. E ai, vamos vivendo...ajudando o mundo a ser mais mãe terra do que filho enjeitado. Valeu !!
Um abração
Bea
Postar um comentário