quinta-feira, 28 de julho de 2011

De novo..




Pois lá vou eu de novo, querendo explicar fatos e ações de hoje a partir das recordações do que já se foi...







Uma das mais significativas personagens de minha infância, seguramente, foi meu padrinho.Recebi os primeiros gizões, as primeiras folhas para desenhar através de suas mãos. Era em sua biblioteca que eu realizava viagens ao redor do mundo na companhia de dragões, príncipes, anões, mágicos...

Suas conversas me proporcionavam aguçar a curiosidade e a vontade de buscar mais, querer mais, ser mais...

Eu crescia e o observava envelhecer ...mas sempre com o mesmo jeito perspicaz de ver o mundo e a extrema generosidade com animais.


Acho que já contei em algum espaço nessa rede que ele tinha dois cachorros. Todos os domingos , soltava-os para que dessem uma volta na quadra. Um dia, o mais festeiro e manso dos dois foi dar sua volta e não retornou.



Procuramos e esperamos pelo seu retorno e nunca aconteceu. Mesmo criança que era e, talvez, exatamente por esse motivo, percebi que no momento do desaparecimento de seu cachorro algo mais acontecera: foi ali que meu padrinho começou a entristecer e a morrer aos pouquinhos, de saudade. O outro companheiro canino foi mais rápido: em dois meses morrera de tristeza.



Minhas perguntas eram as mesmas: onde ele está? Por que ele foi? Alguém o levou? Por quê? Ele está bem? Será que ele volta?



Enquanto eu crescia, acimentava internamente aquele sentimento de perda, de incompreensão e incompletude. E, embora nunca mais falássemos neste assunto, vez por outra eu encontrava o olhar vago de meu padrinho e sabia que ele estava longe, em busca de um grande companheiro que partira.



Muitos anos mais tarde, quando eu já acompanhava os pequenos passos de meus alunos, meu padrinho viajara em busca de uma temperatura mais cordial, em busca do calor. Poucos dias antes de sua ida para outro estado almoçamos juntos e relembramos episódios felizes de minha infância. Antecipávamos muitas coisas naquele almoço, como o dia em que eu terminaria a faculdade, como seriam minhas chances profissionais e o que eu produziria no futuro. Meu padrinho adorava planejar.



O tempo foi passando e seu retorno não acontecia como esperava. Por telefone, ele me contava de como estava aproveitando o clima do outro estado e como teria coisas a contar e mostrar, quando retornasse.



Então, um telefonema vindo do distante anunciou que a espera se transformara em despedida: em outro ponto do mapa meu padrinho morrera. E, no momento em que ouvia a notícia de sua morte uma voz infantil do passado sussurava em meu pescoço: Onde ele está? Por que ele foi? Ele está bem? Por quê?



E foi ali, naquele momento que eu aprendi aquilo que testemunhara . Aprendi a chorar por dentro, mantendo o olhar sereno, um sorriso no rosto acompanhado de palavras sem muito significado. Aprendi a acalentar quem procurava espaço para me acalmar.



Mas eu lembrei disso por quê?




Então o tempo passou bem mais... diferente e vagaroso, seletivo... e era uma vez um cachorro que apareceu em minha escola.



Algumas colegas e eu resgatamos o bichinho que tinha fome, frio e medo. Tornamo-nos responsáveis por ele e em troca o mascote começou a interagir com alunos e familiares do jeito que sabia: brincando, oferecendo carinho e companhia. Mas ele não era unanimidade entre as professoras. Algumas não gostavam de suas patas alegres, de seu pelo viralata com border collie, de sua alegria exuberante para muitos. E embora não auxiliassem com o mascote criticavam quem por ele tinha afeição. Então, um dia, misteriosamente, Bob Borges desapareceu.



A tristeza de uns era a satisfação disfarçada de outros. Como muitas coisas na vida, penso eu.





E novamente, silenciosamente eu enterrava a saudade e agigantava o olhar...



Em quase dois anos do desaparecimento de Bob, nunca deixei de renovar a solicitação de ajuda em sites de buscas. Assim como eu, algumas colegas relembravam do mascote. Eu tinha a certeza de que algum dia iria reencontrá-lo. A história de Bob tem mais contornos do que se pensa ou espera. Mas o que importa é que no dia 5 de janeiro de 2010 ele sumiu e em 23 de julho de 2011 , finalmente, foi encontrado. Está mais medroso, mais magro, mais descrente... mas está de volta. Enquanto escrevo, está deitado em meus pés. Saiu da clínica veterinária onde está hospedado e sendo tratado para permanecer comigo e com meu marido, por algumas horas. Ainda não está saudável, mas um dos remédios principais é o carinho e companhia de quem se gosta e confia.



Onde ele esteve? Por que ele foi? Agora, o importante é uma resposta: Sim, ele voltou.




Bob, Guria, Samantha, Nath, eu e Zuleica, que o encontrou.

4 comentários:

Iris disse...

Bia, Bia, que texto lindo!

Beatriz disse...

Bob meu amigo, nem imaginas a dona que tens!! Bjos
Bea

Rafael Schilling Fuck disse...

Que linda história! Que bom que o Bob foi encontrado! Eu nem saberia o que fazer se meu cachorro sumisse...
Muito legal teu relato!
Um abraço!
Rafael

Rafael Schilling Fuck disse...

Ah, esqueci de comentar antes que sou seu colega no curso de pós em EAD da PUCRS.