Esse post era para ser sobre mães, genéricas e similares. Era. Talvez, seja. Talvez, não. Dependerá da trilha que vou encontrar. (trilha musical)
É fato que estou cansada, ultimamente. E tenho sentido vontade de mudar alguma coisa... ainda não sei o quê. Procuro, nas últimas semanas, algo que me impulsione, que justifique minha permanência neste tempo e espaço.
Cada vez mais, sinto a fragilidade da Vida, o descontrole de seres ditos humanos, a indiferença em relação ao sofrimento alheio... pena... E vejo isso relacionado com a Educação que temos ou não temos, com movimentos sociais, com políticas públicas. Acredito que estamos em falta conosco...
E o improvável aconteceu: encontrei a trilha! Vou de Beyonce!
Pois é...
Acho que uma breve imagem do vídeo já começa a me dar a resposta.
No mês passado, enquanto as vozes do American Idol me acompanhavam na sala, ouvi um estampido e um barulho de pneus de um carro que saia da frente de nosso prédio. Eram quase duas e meia da manhã e o corpo do segundo taxista executado em Porto Alegre, fora deixado em nosso calçada. Eduardo era o seu nome, fiquei sabendo depois.
Quando o vi, pela janela, pensei "Mas é um menino..." Não era, mas parecia. Ainda hoje consigo , claramente, visualizar mais tarde os policiais brigadianos cercando o corpo, outros fazendo uma espécie de corrente humana frente ao portão, impedindo entradas e saídas de quem , por acaso, quisesse saciar mais de perto sua curiosidade.
Atentamente, sempre da janela, acompanhei o trabalho da perícia que veio horas depois. E foi quando vi o fotógrafo se ajoelhando ao lado do rapaz que percebi que ali não estava mais uma pessoa deitada: era só mais um corpo...estatística. Será?
Não tenho conseguido dormir tranquilamente, deste então. Acordo com qualquer ruído, já relembrando um sábado infeliz para tantas famílias... tantos filhos, companheiras, amigos...
Foi aí que a idéia de mudar começou a tomar contorno. Inicialmente, mudar de casa, de cidade, de ir para um lugar mais tranquilo. E esperei uma trilha adequada para isso ...
Acho que "perto de uma mata e de um ribeirão", talvez, por algum tempo, eu ficasse mais feliz. Mas só por um tempo...e não muito longe. Então, defini que vou pensar a respeito e, se possível, concretizar essa mudança dentro do tempo que já estabeleci.
Mas, por enquanto, ainda estou aqui. Ainda trabalho na escola, ainda circulo pelas ruas de uma cidade cada vez mais urbana e confusa, ainda tento dormir sem lembrar-me da violência que deixou suas marcas em nossa casa.
A música de Vítor e Léo eu ouvi ontem, em uma seleção feita, com as canções prediletas das mães de nossos alunos. Enquanto confraternizavam com os filhos e equipe da escola, ouviam a sua seleção musical. Gostei da melodia e resolvi procurar no youtube. Era a trilha "da fuga da cidade".
Hoje à tarde, receberemos novamente a visita dos futuros pais do Bolota, um cachorrinho que resgatei, vítima de negligência. Em junho, Bolotinha irá para sua nova casa. Assistir ao carinho que este jovem casal dedica ao "filho escolhido" me preenche de alegria e de esperança. Sensibilizada, acompanho o cuidado que possuem ao pegá-lo no colo, ao abraçá-lo e aproximá-lo de sua nova irmã, Moçamba, uma linda mix de Border Collie.
Como li no facebook da Ana e de várias outras pessoas, "Mãe de cachorro, também é mãe." E eu concordo. E mãe de gato, de porco, de cavalo e de terneirinho , também.
Agora lembrei da Emeraci, amiga protetora, que hoje, no dia das mães, está participando de uma feirinha de adoção. Tentando encontrar boas mães para filhotes maltratados e abandonados.
Quando tento me definir penso que sou professora, contadora de histórias e protetora , cada vez mais, uma pessoa que resgata animais do abandono, de maus tratos e da indiferença. Sou muito mais, eu sei, mas isso já me define e satisfaz...
Amo meu trabalho e também, a possibilidade de proporcionar uma vida melhor a outras vidas. Relembrando o vídeo da Beyonce, foi no "um minuto e quatro segundos" do mesmo, que encontrei uma de minhas respostas. Até porque já estive muitas vezes num local como aquele, rindo, contando histórias e fazendo outras pessoas esquecerem, por um tempo, de suas aflições. É...acho que sei fazer isso, também. Mas preciso me concentrar bastante. E estar bem...e ter a certeza de que esses são os melhores resgates.
Na verdade, a resgatada sempre sou eu. Quando vejo meus cachorros brincando, quando percebo um sorriso de resposta de um aluno, ou mesmo um relance de olhar, quando conheço pessoas como a Emeraci, como a Luísa, como a Ana e o Ricardo...pessoas que fazem o bem para além de seus corpos, de suas casas percebo que tudo isso é conhecimento e oportunidade.
Então eu me resgato todos os dias, com meus alunos, no meu trabalho, com as opções que faço, com as vidas de quatro patas que encaminho. E é pouco, eu sei.
Minha mãe se chamava Judite e morreu há mais de 10 anos. Antes até, se considerarmos que o Alzheimer nos retira mais cedo, a pessoa que o possui. Permanece o corpo, que vai se esvaziando... Minha mãe se chamava Judite e gostava de gatos e cachorros. Acho que não tanto quanto eu. Ainda hoje, sinto falta de nossos melhores momentos.
Minha mãe me deixou como legado a capacidade de indignar-me e de fazer alguma coisa. A vontade de ir além, de mudar, de buscar o que falta, de caminhar sabendo que, muitas vezes, a chegada não é o principal.
Com ela, aprendi a me resgatar.
E a Beyoce canta Halo, Halo, Halo...
Em todos os lugares que estou olhando agora
Você me cerca com seu abraço...
Eu sempre soube. Obrigada.
Um beijo especial para as mães Taís, Vainir, Adriana, Lúcia, Ale, Rejane, Márcia (todas elas!rs),Silvinha, Lu Mosqueteira, Ada, Gi, Sandra, Lu, Íris, Bea, Denise, Ilsa, Magali, Angélica,Leila, Keila, Rita, Fátima, Patti, Luísa, Dalila, Giovana, Carlinha, Marília, Maria...
Um comentário:
Feliz dia das mães para ti tb, querida!
Fica bem, por favor. :)
Bj
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