sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre corações postiços...

Rubem Braga, Fernando Sabino... fico pensando numa nova geração que , talvez, nem saiba quem é o Fernando e o Rubem. Que pena...
Mas o fato, não é esse...é sobre o tal menino que nasceu em Budapeste e o outro, o paulistinha. E eu não recordava da crônica muito bem mas relembrava o sentimento que tive ao lê-la pela primeira vez, há muitas décadas atrás. Incrível! Aquele sentimento foi guardado, arquivado em uma das "caixinhas do meu interior". E ela se abriu faz pouco tempo...
Fiquei pensando  "mas o que dizia o Fernando Sabino, sobre o menino que nasceu com o coração fora do peito?"  Sobre esse menino, ele não disse nada. Quem disse, quem falou, quem escreveu e gravou em mim...ah, foi o Rubem Braga.
Mas por que lembrar disso, agora? Qual o elemento catalisador?
O nome da crônica é "Como se fora um coração postiço".
 "Saladadefruticamente" falando... esse fevereiro tem sido muito especial. Através de contatos, compartilhamentos, cutucadas pela rede, conseguimos que o o casal de manos cinza (vide Juli, Dulcídio e Louise) finalmente ganhasse um lar. Vão juntos para Garopaba...com as nossas bençãos e desejos de muita felicidade.




E, enquanto eu procurava informações sobre como alimentar 3 gatinhos órfãos que nem tinham aberto os olhos, Nith, nossa cadelinha petterapeuta, charmosa, que adora ser o centro das atenções e distribuir carinho...pois bem, ela se ajeitou, aconchegou os filhotes e amamentou-os como se fossem seus. Sim, até leite ela conseguiu produzir...E tem feito isso, sistematicamente, sempre que os filhotes acordam famintos. Mesmo com mamadeira complementar, que agora, bem instruídos, oferecemos.
E aí, nesses momentos, sempre vinha lá de longe...da minha adolescência, um sussurro... "Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito..."






Observava Nith lambendo os gatinhos e ouvia, "na doce Budapeste", "coração fora do peito"...
E com os dias passando, a voz teimava em sussurrar mais coisas... "Dr. Merege"... "em São Paulo, há 7 anos, também nasceu uma criança assim...", "seis horas, sete horas... nove horas..."
Noite dessas, acho ontem, conversava com a Juli e comentava "Salvamos mais dois, não é?"
Isso é tão bom, que vicia..."salvar pequenas e indefesas vidas". Vidas que, para muita gente, nem existem, que fazem parte de uma uma espécie diferente e menor, segundo alguns. Pois quantas pessoas passam por bichos abandonados, machucados e famintos e não  os enxergam? Para dizer o mínimo, pois há os que nem deveriam enxergar, mesmo...
Dos pequeninhos, Anita já tem uma tutora chamada Liane...e o Félix ( o amarelo) vai para a casa da querida Lisi, mãe do Pedrinho. E a menor, chamada Nithinha...vai ficando sob as lambidas e cuidados insistentes da mãe Nith.
Uma cachorrinha que adotou gatinhos... que não liga para diferenças ou supostas impossibilidades criadas por gente boba: adotou-os e são seus. Nith é mãe.
E, bem agora, me lembrei de uma história que eu adoro contar: Coração de galinha. Nessa história, os órfãos são cachorrinhos e a mãe é uma "penosa". Quando um deles resolve buscar a história de sua origem e conhecer sua primeira mãe...bem, aí... eu poderia , certamente, ouvir uma voz sussurrar alguma coisa. O Livro é muuuito bom. Preciso reencontrá-lo, na biblioteca da escola...





E eu sonhei que estava sentada em um banquinho conversando com um santo chamado Expedito. E ele me perguntava "Doca, do que tu gosta mais? De gatos? Ou de ajudar gatos? De cachorros? Ou de ajudar cachorros?"
Eu, intrigada, respondia "Mas não é a mesma coisa, Expedito? Eu gosto e ajudo. "
"Pois não é, Doca. Tem gente que gosta. Dos seus. E  só..."
"Ah...então...eu gosto...e não consigo separar uma coisa da outra...mesmo, não sendo "meus", se tornam minha responsabilidade...eu preciso salvar, ajudar, encaminhar...sempre que é possível. E nesse processo, tenho conhecido tanta gente boa... que supera os que nem precisam ser lembrados..."
E o Expedito ria e dizia "Tá na hora de relembrar tudo, não achas? Tá na hora de saber do paulistinha, que nasceu com o coração fora do peito..."
Acordei. Ajudei a Nith com os filhotes. Dei mamadeira. Sentei frente ao notebook e pedi ajuda ao Google: "Nasceu, na doce Budapeste, um menino..."
E ele, respondeu. Li e reli a crônica que há mais de 30 anos ficou gravada em mim. Descobri que às nove horas, morrera o menino com o coração fora do peito, que o Dr. Mereje era como muitos de nós, mas diferente de muitos outros, graças aos céus.
Conta o Rubem, sobre o menino que fala com os anjos..

 Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Pois eu ousaria: escreveria uma carta celeste ou melhor, mandaria um email ou  WhatsApp Celestial para o menino contando:
Menino paulista do coração fora do peito...
Nem todos são como o Dr. Mereje, sabe.
Tem muita gente que, do mesmo jeito que você, nasceu com o coração pulsando fora do peito. E estão em todo o lugar. E aprenderam a abrigar o coração dentro de suas vestes, sim. Mas deixam que ele trabalhe sempre em função  da generosidade e compartilhamento. Tenho conhecido muita gente que é assim.
Dia desses, um livro me chamou...dia desses, a parede de um prédio na Ramiro, me gritou... e uma adolescente bateu à minha porta pra falar de 3 gatinhos... Ontem, uma amiga me buscou e me ofereceu uma possibilidade...antes disso, uma pessoa chamada Vera me reencontrou... Tanta gente com "coração postiço" brilhando e pulsando feliz... 
Menino com o coração fora do peito que o Rubem Braga imortalizou...eu acho que te conheci...




PS: Doca era meu apelido de infância.

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