No início desta semana, aquele aluno que
gosta da música do Mágico de Oz chegou muito mal. Desta vez, precisamos levá-lo
rapidamente ao hospital. Coordenadora, orientadora e eu o acompanhamos durante
toda a tarde e início da noite. Este menino, embora não consiga falar,
compreende muita coisa. Assim como nós , certamente, percebeu o descaso com que
foi atendido por alguns profissionais da saúde. Enquanto ele grunhia de dor,
apertava nossas mãos, buscava nossos olhos pedindo o afastamento da dor, a
preocupação de uma médica era conversar com seus pares sobre como atender
aquele adolescente.
Sobre a postagem: não fui adiante porque ainda estava impactada pelo atendimento recebido pelo meu aluno. Comprovei, naquele dia, que alguns médicos necessitam, muito, aprender como atender um adolescente especial.
O aluno já saiu de minha escola, pois completou 21 anos. Não sei como está. Mas não deixo de lembrar dele e desejar que sua vida seja bem mais amena...
Consegui, mais tarde, escrever uma postagem sobre ele...
Segunda:
Reencontrei Carlinhos
Eu queria descer da lotação bem na esquina do prédio do
Santander. O motorista me avisara que "só se não tiver azulzinho por perto." Tinha. Tudo bem, fui até o fim
da linha, na outra esquina, já atrasada para o meu compromisso. Mas, nada é por
acaso: ao descer da lotação, caí na década de 60, quando estava no início do
meu primeiro grau. O dia em que desci atrasada da lotação, na Rua Sete de
Setembro, foi o dia em que reencontrei Carlinhos.
Carlinhos me acompanhou na primeira,
segunda, terceira e quarta-séries do primeiro grau, há mais de trinta anos
atrás. Fora alvo das brincadeiras maldosas de muitos de meus colegas. Com seu
andar peculiar, sua fisionomia diferente e fala prejudicada, não tinha muitos
amigos. Alguns o chamavam, escondido da professora, de "cara de
macaco". Acredito que as provocações poderiam ser mais constantes e cruéis
não fosse o detalhe dele ser filho da vice-diretora da escola. Quase todo mundo
tinha receio da diretora e da vice...
Bem, o fato é que era um menino
especial. Era mais lento em
tudo. Ficava sozinho na hora do recreio e, muitas vezes, ia
até a sala da mãe onde, hoje percebo, se sentia protegido. Na primeira série ,
fora o fato de ter uma curiosidade em espiá-lo em alguns momentos e observar
que babava quando nervoso, não tive nenhum interesse em ser sua amiga.Ele
enfrentou a implicância de colegas e a indiferença de outros(inclusive a minha)
com silêncio , incompreensão e , por vezes, proteção de professores e de sua
mãe.
Acho que foi pela metade da segunda
série que as coisas começaram a mudar... Minha mãe e meus padrinhos adoravam
ver meus cabelos balançando sob a forma de cachos. Isso implicava em , no
mínimo, meia-hora sentada em um banquinho, imóvel, sentindo mecha por mecha ser
esticada e enrolada com um pente. Eu achava um tédio ter que ir com aqueles
cachos balançando e amarrados a uma fita colorida no alto da cabeça. Foi então
que surgiu o Marcos, um menino chato e grande que implicava com todos .
Carlinhos era uma de suas vítimas. Meus cachos também. Primeiro ele começou com
um gesto rápido: passava e puxava meu cabelo, antes de fugir. Depois, o que me
indignava deveras, sofisticou o gesto: puxava os cabelos e murmurava: "muuu vaquinha".
Bah! Comecei a observar o vilão no
recreio, na hora da saída, na entrada: eu precisava dar um jeito de parar com
aquelas brincadeiras. E , aí, percebi que o Carlinhos passava por momentos
difíceis, também: lápis roubados, folhas de caderno amassadas...
Fazia um bom tempo que eu pensava no que
fazer: contar pra minha mãe ou dar um jeito sozinha.
Em um dia de chuva, em que o recreio fora na sala, Marcos se aproximou de meus cachos com seus dedos irritantes.
Depois de sentir o puxão, grudei minhas mãos em sua camisa e puxei com força.
Nesse meio tempo, Carlinhos corria até a classe de Marcos e começava a quebrar
os seus lápis. Naquela tarde, Marcos saiu com a camisa rasgada, os lápis
quebrados e o orgulho violado. Eu e Carlinhos ficamos sentados na direção
enquanto nossas mães conversavam. No dia seguinte, os três: Marcos, Carlinhos e
eu pedíamos desculpas uns aos outros, sob os olhares atentos de nossas mães.
Como eu não fora suficientemente convencida, terminei meu pedido-ensaiado de
desculpas colocando a língua para o colega.
Mas foi aí que nossa cumplicidade
começou. Carlinhos e eu nos encontramos naquele sentimento chamado amizade.
Sobre a postagem: esse reencontro aconteceu e me sensibilizou por demais. Ali, no meio da rua, 30 anos depois, Carlinhos me reconhecia e me chamava como na época em que tínhamos 8 anos: "coleguinha Beatriz"
Entretanto, por mais que eu tentasse, nunca consegui escrever a respeito desse amigo da forma como acredito que deveria: com excelência. todas as postagens iniciadas, como essa, não conseguiram dar conta do carinho que sentia por esse pequeno e especial amigo. Hoje, percebo que foi meu primeiro contato com uma criança especial. E acho interessante eu trabalhar com especiais já há muito tempo... sem nunca ter feito nenhuma relação com aquele meu amigo...
Terceira:
Shena
Antes de qualquer coisa é preciso dizer
que Shena nasceu no exato dia em que eu e o Lu nos conhecemos.
Dito isso, me pergunto por que algumas
pessoas se apegam a crenças, sinais que surgem como respostas a perguntas não
formuladas mas guardadas internamente?
A resposta me chega fácil: para se
proteger, para criar mecanismos que possibilitem que trafeguem pela vida de um
jeito mais ameno, sem tanta dor, com mais confiança. E podemos dizer que a
crendice, superstição ou coisa parecida se origina na brincadeira, quase como
se não fosse tão importante quanto, em algum momento, realmente é.
Crer em alguma coisa é motivo para sermos
mais fortes.
Shena foi um presente meu no dia dos
namorados. Fomos até a casa do criador e o Lu escolheu a bolinha saltitante de
pelos que lhe fez festa com maior confiança. Ali ele decidiu que ela seria
Shena. E brincou, acrescentando "a princesa guerreira." Achei
engraçado.
Eu e uma querida amiga temos uma
combinação feita em tom de brincadeira, há quase vinte anos e que é levada
muito à sério: se uma estiver em dificuldades, seja aonde for, na beira de um
precipício...vai chamar a outra. Em momentos difíceis para ambas, estivemos
juntas, amparando quem precisava. E com o tempo, acrescentei detalhes que só o
meu específico humor seria capaz de utilizar; "Carmela, se eu passar para
o outro lado, antes, faço questão de me despedir do Lu e de ti..." Foi por
isso, que anos atrás, enquanto um assustado motorista me levava para a
emergência de um hospital , eu ligava e a convocava. Ela e o Lu estavam lá, mas
eu não desci nenhum precipício. Com o tempo, o "estar lá" se tornou
rotina para diferentes e importantes acontecimentos.
Por que as pessoas têm imagens ou objetos
como símbolos de sorte, crença, fé? Atribuir a uma determinada imagem a
responsabilidade por conquistas, respostas...
A imagem não é a imagem. Significado e
significante...Signos... A imagem é a idéia personificada, o desejo, a busca e
a resposta...
Neste ano, descobri que um diagnóstico
equivocado fora o responsável por um longo tempo de fisioterapias sem sucesso.
Com a certeza da necessidade de uma cirurgia (rotineira, segundo o médico,
simples e rápida) comecei a, de forma desapercebida, buscar sinais que
indicassem sorte e sucesso no procedimento.
Shena, a princesa guerreira era calma e
totalmente focada na atenção àquele que escolhera como dono. Entretanto, aos
nove meses, interceptou um ataque de um fila que fugira de seu pátio e tentara
atacar a pessoa que passava mais próxima. E essa, era eu. A filhote de
Rotweiller se colocou entre mim e o Fila, deixando que ele atacasse seu
pescoço. Do episódio só a lembrança da coragem da guerreira.
Na semana que antecedia meu procedimento
cirúrgico simples e rápido comecei a intensificar minha busca por sinais. O
primeiro veio através da Internet: uma modelo americana de roupas GG se
internara para fazer o mesmo procedimento que eu faria: morreu durante a cirurgia.
Resolvi, então, aguardar outros sinais não tão distantes do Brasil. Por via das
dúvidas, telefonei para minha amiga e avisei de minha cirurgia, prometendo que
um dia antes, telefonaria para relembrar e dizer o horário. Por via das dúvidas
novamente, telefonei para outra querida amiga e a relembrei pois eu sabia que
já estava focando suas energias no sucesso que viria.
Então, fiquei esperando...
Shena, no auge de seus quase onze anos,
arrancou uma das unhas da pata , ao cavocar buracos no pátio. Precisamos
levá-la à veterinária e deixá-la hospedada pois necessitava tomar antibióticos
para ceder a inflamação.
Poucas horas antes de minha cirurgia a
veterinária ligou solicitando que fossemos até lá. Um novo agravante se
apresentava e, devido, a sua idade avançada a tentativa de recuperação não era
certa mas indicava uma dose de sofrimento.
Ao sairmos de casa, no pátio do prédio, a
primeira coisa que enxerguei foi um chaveiro. Ao pegá-lo, identifiquem a única
imagem à qual atribuo respostas, sorte e sucesso: uma imagem incomum e difícil
de ser encontrada no pátio de meu prédio.
Eu e o Lu resolvemos ir de táxi até o
hospital: como passageiros conduzidos tínhamos tempo para pensar , repensar e
relembrar.
Minha amiga dos momentos difíceis não foi
encontrada em casa, no celular, não respondeu a mensagens deixadas e, nem
conectou-se às minhas frustadas tentativas de uso de paranormalidade. "Cadê você, criatura?"
Então, eu soube e quis acreditar que, de
alguma forma, a princesa guerreira partia como resultado de um duelo e
negociação. Imaginei-a dizendo "Deixa meu Lu feliz. Ela fica mais um pouco
por aqui e eu vou em seu lugar..."
Quando avistou meu marido, após chegarmos
na veterinária, fez força para se levantar, fez festa, lambeu seu rosto. Partiu
algumas horas depois...
Minha cirurgia foi bem sucedida e aqui
estou eu, escrevendo sobre ela, entre outras coisas. Mas sempre vou me lembrar
dos olhos de despedida de Shena, poucas horas antes de minha internação...
Sobre a postagem: Shena faz muita falta, principalmente, para o Lu. Ainda hoje, a enxergamos através das brincadeiras e olhares do seu filhote, Thor.
Não achei que tivesse escrito um bom texto, que desse conta da emoção que eu sentia, sem parecer piegas...por isso, não publiquei...
Quarta:
Quando
as evidências não correspondem aos fatos
Pois hoje, no Dia
Mundial dos Animais, estou bem triste.
Bob apareceu ,
não por acaso. De todas as casas e prédios foi em uma escola especial que,
inicialmente, foi acolhido. Não por todos, é verdade. Ironicamente, esse
bichinho veio mostrar que, muitas vezes, falamos da boca para fora. Somos a
favor da inclusão mas excluímos um animal pela sua aparência, por seu
cheiro...Não temos tolerância de aguardar que o pelo seja limpo, que as
cicatrizes da pele sejam cuidadas e curadas. Somos favoráveis à inclusão de
duas patas, apenas. Ah, mas adoramos quando vemos um lindo cachorrinho de raça,
cheiroso, bem cuidado...fazemos festa e pegamos no colo, não é?
Achamos lindo
quando ouvimos pessoas falando em uma vida mais sustentável, em desprendimento...chegamos
a dizer que essa é nossa meta: caminhar mais devagar, perceber a beleza das
plantas, colher frutos pela manhã, meditar... Mas não deixamos de questionar a
presença de um filhote abandonado, não para ajudar, mas para certificarmo-nos
que vai sair de nossa visão. Pois as diferenças tão respeitadas não chegam até
o corpo machucado de um animal...
Bem...Bob está
melhorando: sem carrapatos, comendo todos os dias, brincando com quem o aceitou
incondicionalmente e, tentando conquistar quem não o enxerga. Mas o fato é que
o cachorrinho que dá a pata quando pedimos bom dia precisa de um lar, de
pessoas que o queiram e possam adotá-lo com carinho.
Pessoas especiais
estão em todos os lugares.Se você conhece alguma que possa adotar o nosso
amigo, entre em contato, ok?
Um recadinho pra
quem sofre por um animal que já se foi: adote! Não sofra mais...
Sobre a postagem: resolvi arquivá-la porque identifiquei muita raiva em sua escrita. Naquele momento, Bob enfrentava a rejeição de algumas colegas e resolvemos, para livrá-lo das mesmas, oferecê-lo para adoção. O resto é uma longa história já contada... Bob "desapareceu", foi muito procurado, buscamos a polícia para tentar resgatá-lo, ouvimos muitas histórias bem e mal contadas...mas de uma coisa eu tive a certeza: da participação de pelo menos uma pessoa conhecida, em seu desaparecimento. Mas eu nunca esqueço que "A vida é um bumerangue". Você recebe de volta...
Hoje, Bob está comigo. E estamos felizes. Há muitas pessoas que o adoram e protegem, com certeza.
Quinta:
A perfeição do descanso na imperfeição das férias
Você já sentiu o corpo cansado de tanto descansar? Tédio
de tanto dormir (aquilo que você sonhava fazer, durante o ano)? Preguiça de se
encontrar com pessoas que você adora? Enjoo de tanto comer doce? Desejos de
fazer todas as provas de vestibulares possíveis (na verdade,
vestibular=estudo=leituras=organização do ambiente de forma a atingir
objetivo=sair do marasmo)? Vontade de se transformar em um corretor ortográfico
, ao ler alguns blogs, incluindo o seu (meu)? Preguiça de responder perguntas
feitas em dias muito quentes, quando você não está em um ambiente refrigerado?
Tem pensamentos tipo "que tédio, que preguiça, que sono, que dor no corpo
de tanto que dormi.."? Hum... Talvez pense que está enlouquecendo. Tá não!
Mas , inegavelmente, você faz parte do meu clubinho. Qual o nome dele, do
clubinho? Ainda não sei, mas vou tentar descobrir. Sou boa em títulos. Mas, aos
pouquinhos, vou escrever uns textos pra você tentar se-me entender. ok?
Sobre a postagem: Sou boa em títulos, é fato. rs
Sexta:
Seu Klein
Conheci Seu Klein quando ainda calçava
botas ortopédicas e entrelaçava meus dedos nos de minha mãe, que me conduzia
diariamente, ao Jardim de Infância. Sempre passávamos em frente "à casa
com um pátio bonito e varanda", que eu insistia em dizer
"vranda". Curiosa, eu queria saber quem era aquele que, todos os
dias, ali ficava, sentado em uma "cadeira diferente". Eu abanava para
o "tio"e ficava zangada por nunca receber um aceno. Mesmo assim, insistia:
queria saber quem era, por que ficava sempre sentado na "vranda", por
que geralmente estava de pijamas, o que comia, o que bebia, se usava chinelos
ou "botinhas", se os dedinhos do pé ardiam e outras coisas mais.
Na verdade, ele tivera um derrame e não
caminhava, nem falava. Sua cadeira era de rodas.
Um dia, desentrelacei meus dedos e fugi,
indo parar bem a sua frente , com minha mãe se desculpando, atrás. Sua esposa
chegou na varanda e achou graça ao ver "uma coisinha cacheada"
puxando conversa com seu marido. Explicou o que acontecera mas eu, "nem
bola": queria falar e , melhor, contar coisas. Foi assim que, durante
muito tempo eu caminhei pelo gramado do pátio bonito, com as devidas permissões,
e fiz companhia para Seu Klein. Lembro que eu falava pelos dois, contava de
minhas amigas, fazia queixas.... Eu olhava em seus olhos e sabia que era
entendida. Com o tempo, sabia quando ele estava feliz, quando achava graça no
que eu falava e quando precisava que a esposa viesse até a varanda. E eu a
chamava. Todos diziam que a menina dos cachos e Seu Klein se entendiam como se
falassem um com outro. Eu nem ligava para isso. simplesmente éramos amigos e
nos comunicávamos.
Sobre a postagem: Não consegui terminá-la. Mas conto o que, infelizmente, aconteceu: um dia, já adolescente, não consegui mais entender o Seu Klein. E até hoje me pergunto se ele fora embora e deixara o corpo ou se eu é que "desaprendi ao adolescer"...