segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Para a "amigairmã"...


Começou a arrumar as malas devagar..a cada dia, colocava um item que julgava muito necessário: lembranças da infância, saudades do pão quentinho feito por sua avó, um sorriso recebido ao demonstrar que já não tinha receio de cair da escada, o primeiro e significativo olhar, o primeiro beijo... a imagem de um pequeninho embrulho entregue por uma enfermeira no hospital, o orgulho de ter gerado, a alegria de ter acompanhado, a satisfação de ter guiado...
O tempo ia passando e o conteúdo da mala se agigantando... Em uma noite, resolveu singularizar o Tempo e com ele, conversou por algumas horas. O Tempo sentou na cabeceira de sua cama e contou-lhe um de seus segredos. E ela sorriu e acenou afirmativamente.
No outro dia, começou a desfazer as malas, recolocando tudo em diferentes lugares. Na manhã seguinte, enquanto sua pele se rejuvenescia e seus olhos ganhavam outro tom, a família observava o contrário: olhos que já não se abriam, dedos que pouco  se moviam, uma pele que dormia...
Na outra manhã, todas as malas estavam guardadas e seus pés descalços formigavam convidando-a a levantar. Resolveu ficar mais um pouco, respeitando o prazo limite confidenciado por seu amigo.

Em poucos dias , o corpo estava mais leve, pronto para alcançar grandes e necessários vôos. Seu cabelo voltara a ter o brilho e comprimento da adolescência. Sabia estar pronta mas aguardou. Passou a tarde com uma de suas mais queridas e próximas  amigas. Riu discretamente ao perceber que sua companheira não percebera a contribuição mágica do Tempo. Mas, feliz por estarem novamente juntas, enovelou-a em seu manto de amizade e gratidão. E, neste momento, teve a certeza de que, mais uma vez, iriam se reencontrar e celebrar o que jamais acaba...
Horas mais tarde, partiu. Deixou o corpo, as malas, as roupas, as lembranças, a saudade e a alegria pelo que vivera e fora tão bom. Na saída, já tinha outra matéria, que preferiu visualizar em corpo:  jovem, atento, aberto para novos caminhos...Foi caminhando...depois, resolveu pedalar...


E logo, ao passar pelo Tempo que lhe acenava sorridente, percebeu não mais precisar da bicicleta: recebera de volta o que deixara guardado em outros tempos. Agora, ela já conseguia voar!



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Na retaguarda...


Pois é o segundo dia que, ao acordar, dou de cara com um comprido focinho me aguardando. Desde o primeiro, percebi que  minha companheira de tanto tempo queria me dizer algo em especial...
"Estou cansada..."
"Sei..."
"Sério, Bia, estou cansada... nem preciso explicar em detalhes..mas meu momento de partir não está muito longe. É preciso que te prepares..."
"Sim...eu já venho percebendo...teus olhos já são de despedida, estás mais dorminhoca e não consegues correr mais...e correr era a tua alegria maior, lembra? Samantha já percebeu, também, não é?"
"É, já faz um tempo que a doida me sufoca com lambidas insistentes,  me dá patadas quando estou descansando, para se certificar que ainda estou... e o mais incrível,  tenta dormir comigo, na minha caminha. Mais do que os outros, ela vai sentir minha falta. Mas sabemos que é uma outra possibilidade de aprendizagem, não é?"
 "Sim, vou ficar de olho nela. Não te preocupa."
"Fizemos uma bonita parceria, não é?"
"Sim, Guria, fizemos. E espero que o tempo que ficaste comigo tenha  te possibilitado um novo e belo recomeço... Guria, te agradeço todos esses anos, teu carinho, tua presença, tua companhia serena em momentos alegres e em outros, mais difíceis. Aprendi muito contigo... vou sentir tua falta quando fores. Mas dá para esperar mais um pouquinho?"
"Vou fazer o possível, Bia...vou tentar."
"rs Aprendi a falar com os olhos contigo..."
"E a Nith, também..."
"Nossa! Foi contigo que ela aprendeu?"
"Aprendeu e aperfeiçoou a técnica..."
"Verdade!"
"Está chovendo, não é?"
"Sim, hoje o Rodrigo não vem para passear com vocês. O máximo é darmos uma volta na quadra mais tarde e , de novo, antes de sair para trabalhar."
"Ok, essas saídas já não me fazem tanta falta. Prefiro dormir enrolada no meu edredon."
"Guria, eu te contei que quero trabalhar um dia com cuidados paliativos? Que é isso que me falta?"
"Não precisou contar. Eu sei. Além disso, eu não parto à toa... E espero que tenhas tempo para fazer o que desejas. Mas sabes, que se não conseguires todo o tempo que precisas..."
"Sim...eu sei. Terei outro tempo."
"Bia..."
"O que é?"
"Melhor deixar essa conversa para mais tarde. Olha quem está se espreguiçando, ali no tapete..."
"O Júnior!"
"Vai acordar, subir na cama e ficar nos provocando até que todos se levantem... só não se mete com a Nath..."
"Então, tá! Mas fica mais um pouco...enquanto não sentires dor...Pode ser?"
"Pode! E Bia...uma última coisa...eu aprendi a te amar. Aprendi a ser paciente com tua  inexperiência em algumas questões. Aprendi a correr em círculos ao teu redor só para te ver ficar tonta...e para receber um abraço apertado, depois. Isso foi bom!"
"Eu aprendi muito com a tua chegada, tua presença e companhia...e vou aprender mais ainda com tua partida. Um amor que é eterno."
"Júnior acordou! Argh"
"Argh! rs"

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre corações postiços...

Rubem Braga, Fernando Sabino... fico pensando numa nova geração que , talvez, nem saiba quem é o Fernando e o Rubem. Que pena...
Mas o fato, não é esse...é sobre o tal menino que nasceu em Budapeste e o outro, o paulistinha. E eu não recordava da crônica muito bem mas relembrava o sentimento que tive ao lê-la pela primeira vez, há muitas décadas atrás. Incrível! Aquele sentimento foi guardado, arquivado em uma das "caixinhas do meu interior". E ela se abriu faz pouco tempo...
Fiquei pensando  "mas o que dizia o Fernando Sabino, sobre o menino que nasceu com o coração fora do peito?"  Sobre esse menino, ele não disse nada. Quem disse, quem falou, quem escreveu e gravou em mim...ah, foi o Rubem Braga.
Mas por que lembrar disso, agora? Qual o elemento catalisador?
O nome da crônica é "Como se fora um coração postiço".
 "Saladadefruticamente" falando... esse fevereiro tem sido muito especial. Através de contatos, compartilhamentos, cutucadas pela rede, conseguimos que o o casal de manos cinza (vide Juli, Dulcídio e Louise) finalmente ganhasse um lar. Vão juntos para Garopaba...com as nossas bençãos e desejos de muita felicidade.




E, enquanto eu procurava informações sobre como alimentar 3 gatinhos órfãos que nem tinham aberto os olhos, Nith, nossa cadelinha petterapeuta, charmosa, que adora ser o centro das atenções e distribuir carinho...pois bem, ela se ajeitou, aconchegou os filhotes e amamentou-os como se fossem seus. Sim, até leite ela conseguiu produzir...E tem feito isso, sistematicamente, sempre que os filhotes acordam famintos. Mesmo com mamadeira complementar, que agora, bem instruídos, oferecemos.
E aí, nesses momentos, sempre vinha lá de longe...da minha adolescência, um sussurro... "Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito..."






Observava Nith lambendo os gatinhos e ouvia, "na doce Budapeste", "coração fora do peito"...
E com os dias passando, a voz teimava em sussurrar mais coisas... "Dr. Merege"... "em São Paulo, há 7 anos, também nasceu uma criança assim...", "seis horas, sete horas... nove horas..."
Noite dessas, acho ontem, conversava com a Juli e comentava "Salvamos mais dois, não é?"
Isso é tão bom, que vicia..."salvar pequenas e indefesas vidas". Vidas que, para muita gente, nem existem, que fazem parte de uma uma espécie diferente e menor, segundo alguns. Pois quantas pessoas passam por bichos abandonados, machucados e famintos e não  os enxergam? Para dizer o mínimo, pois há os que nem deveriam enxergar, mesmo...
Dos pequeninhos, Anita já tem uma tutora chamada Liane...e o Félix ( o amarelo) vai para a casa da querida Lisi, mãe do Pedrinho. E a menor, chamada Nithinha...vai ficando sob as lambidas e cuidados insistentes da mãe Nith.
Uma cachorrinha que adotou gatinhos... que não liga para diferenças ou supostas impossibilidades criadas por gente boba: adotou-os e são seus. Nith é mãe.
E, bem agora, me lembrei de uma história que eu adoro contar: Coração de galinha. Nessa história, os órfãos são cachorrinhos e a mãe é uma "penosa". Quando um deles resolve buscar a história de sua origem e conhecer sua primeira mãe...bem, aí... eu poderia , certamente, ouvir uma voz sussurrar alguma coisa. O Livro é muuuito bom. Preciso reencontrá-lo, na biblioteca da escola...





E eu sonhei que estava sentada em um banquinho conversando com um santo chamado Expedito. E ele me perguntava "Doca, do que tu gosta mais? De gatos? Ou de ajudar gatos? De cachorros? Ou de ajudar cachorros?"
Eu, intrigada, respondia "Mas não é a mesma coisa, Expedito? Eu gosto e ajudo. "
"Pois não é, Doca. Tem gente que gosta. Dos seus. E  só..."
"Ah...então...eu gosto...e não consigo separar uma coisa da outra...mesmo, não sendo "meus", se tornam minha responsabilidade...eu preciso salvar, ajudar, encaminhar...sempre que é possível. E nesse processo, tenho conhecido tanta gente boa... que supera os que nem precisam ser lembrados..."
E o Expedito ria e dizia "Tá na hora de relembrar tudo, não achas? Tá na hora de saber do paulistinha, que nasceu com o coração fora do peito..."
Acordei. Ajudei a Nith com os filhotes. Dei mamadeira. Sentei frente ao notebook e pedi ajuda ao Google: "Nasceu, na doce Budapeste, um menino..."
E ele, respondeu. Li e reli a crônica que há mais de 30 anos ficou gravada em mim. Descobri que às nove horas, morrera o menino com o coração fora do peito, que o Dr. Mereje era como muitos de nós, mas diferente de muitos outros, graças aos céus.
Conta o Rubem, sobre o menino que fala com os anjos..

 Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Pois eu ousaria: escreveria uma carta celeste ou melhor, mandaria um email ou  WhatsApp Celestial para o menino contando:
Menino paulista do coração fora do peito...
Nem todos são como o Dr. Mereje, sabe.
Tem muita gente que, do mesmo jeito que você, nasceu com o coração pulsando fora do peito. E estão em todo o lugar. E aprenderam a abrigar o coração dentro de suas vestes, sim. Mas deixam que ele trabalhe sempre em função  da generosidade e compartilhamento. Tenho conhecido muita gente que é assim.
Dia desses, um livro me chamou...dia desses, a parede de um prédio na Ramiro, me gritou... e uma adolescente bateu à minha porta pra falar de 3 gatinhos... Ontem, uma amiga me buscou e me ofereceu uma possibilidade...antes disso, uma pessoa chamada Vera me reencontrou... Tanta gente com "coração postiço" brilhando e pulsando feliz... 
Menino com o coração fora do peito que o Rubem Braga imortalizou...eu acho que te conheci...




PS: Doca era meu apelido de infância.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Links

Antes de qualquer outra coisa, é preciso destacar que:

1) Há mais ou menos uns 10 anos eu não via uma querida professora da rede, chamada Vera. Assessorei a escola em que ela trabalhou no início dos anos 2000 e um pouco mais.

2) Uma criatura que não conheço e nem necessito, adotou dois gatinhos, ainda bebês. Depois de mais ou menos 6 meses, resolveu que não gostava de gatos porque eles soltam pêlos e sobem nos sofás. Colocou-os para fora de seu apartamento, do prédio e de sua vida. Mas os dois, não entenderam nada e ficaram dias rondando e pedindo para entrar. Cansados, buscaram abrigo no pátio de um apartamento térreo. A dona do apartamento, não gosta de gatos também, mas está na praia, curtindo as suas férias. Os gatinhos tomaram conta. E deles, uma outra vizinha e eu. Nós duas temos gatos, cachorros e mais nenhum espaço físico. Mas não nos furtamos de fazer o que é possível.

3) Guardo o que considero a "melhor parte de mim" para meus alunos, meus bichos, minha família, meus amigos e para quem precisa. Mas não tenho muita paciência com gente chata, cruel e ignorante. Deveria? Não sei... mas o que sei é que, por conta dessa minha "impaciência" , brinco com duas queridas amigas e colegas de trabalho  dizendo da dificuldade que terei para evoluir por causa de certas criaturas que teimam em "causar" no meu caminho. rs Claro, coloco a culpa nos outros...

4) A acupuntura me faz muito bem.  Eu gosto muito da minha médica acupunturista. Fazia muito tempo que não a via e que não era "espetada" por suas agulhas.

5) Amo nadar.

Agora, vamos às outras coisas:

Quarta-feira, saí da sessão de acupuntura e fui caminhar pelo shopping, ali perto. Aos costumes, fui parar dentro de uma  livraria. Circulei, li muitas orelhas de livros, anotei alguns títulos mentalmente e já ia saindo quando um deles me chamou. Sim, um livro me chamou: Psiuuuuuuuu....
Voltei e fiquei frente a frente com ele, decidindo o que fazer. E ele, baixinho, dizia: me leva, me compra...  Comprei. Levei. Em casa, guardei-o para uma futura leitura.


A filha da dona do pátio onde os gatinhos se abrigaram voltou da praia. E expulsou os dois. E aí, uma nova e bela corrente começou a se estabelecer: Patrícia, Kati, Luísa, Juli, Cassalina, Louise, Dúlcídio, Bia...
Cada um do seu jeito, com suas possibilidades... O fato é que os bichanos foram recolhidos, tratados, e agora, em lar temporário, esperam uma nova vida. O macho tem perfil para petterapia: apresenta a docilidade e tranquilidade necessárias, entre outras coisas. Tudo isso, foi ontem. E eu resumi , bastante. Mas de ontem, o que levei para casa foram algumas palavras e questionamentos sobre o "viver livre, na natureza, nas ruas...já tendo nascido na rua" e o "viver nas ruas, após um abandono...",entre mais outras coisas.







E, lendo as postagens do face, encontrei as palavras que resumem o que penso. Elas antecedem o relato sensível e generoso da Deputada Estadual Regina Becker. A postagem se chama As fitas do adeus aos 120 cães .

Ontem passou. Hoje é agora. E , pela manhã, fui até um laboratório perto de minha casa, realizar exames. E o improvável aconteceu: o laboratório não atende mais meu convênio. Um pouco incomodada, subi numa lotação e fui para o laboratório do Hospital Moinhos de Vento. No caminho, lembrei de ter pego um livro para o tempo ocupar o tempo de espera. Comecei a ler na lotação e já na primeira página uma interessante surpresa:  fora escrito para uma pessoa com o meu primeiro nome: "Antes de começar o livro, Maria, quero falar de duas preocupações..." Ok! Pode falar... E falou sobre várias coisas, entre elas, uma palavra conhecida: evoluir. (Viu, Sandra?)
Desci e, caminhando em direção ao hospital vi uma pintura nos muros de um prédio na calçada oposta com os dizeres "Cuide da Vida." Cliquei.




Enquanto descia a lomba da Ramiro, pensava no artigo final do meu segundo Pós. O tema trata da viabilidade de um projeto, através das ações de um gestor escolar. E aí, eu lembrava da sensibilidade necessária, da sensibilidade e preocupação que vi, ontem, nas palavras e gestos da Kati. Relembrei da Luísa que retornou ao nosso convívio , o que me deixa imensamente feliz. Enquanto caminhava, lembrei do Rodrigo que recebeu outra oportunidade de continuar conosco, lembrei de sua sabedoria e generosidade com os cães ...com a minha turma, entre tantos. Lembrei da Cassalina, sempre ajudando...de sua disposição e preocupação com os bichanos.  Lembrei do trio Juli, Louise e Dulcídio...fazendo o bem, levando os gatinhos e organizando um "quarto cruz vermelha felina", para que ambos se recuperem em paz e com afeto...


 Pensei num pastor chamado Sombra e desejei que minhas boas energias fossem até ele e ajudassem  a acalmar seu desconforto... Saboreei o gostinho de saudade da bela turma da escola: colegas, mães, alunos... e cheguei no  laboratório. Fiz os exames e , depois, comecei a subir lomba da Ramiro, em direção à Independência.
Na esquina da Independência,uma mulher retira os óculos escuros, ao me ver e sorri. "Tu és a Bia, não é?"
"Sou!"
"Eu sou a Vera".
Vera é a professora de ed. infantil que eu não via há anos. Lembro de seu trabalho amoroso com os pequenos, de sua sede por fazer mais e melhor e da alegria ao me receber em sua turma. "Vera dos pequenos e das Artes" me conta que se aposentou mas que continua trabalhando com Arte , em escola privada. Conta que está feliz, que esteve doente e se curou. Na despedida, abre a bolsa e, timidamente, me oferece "Posso te fazer um carinho te dando um  livro ?" "Claaaro" E ela me presenteou, disse que tinha a certeza de que deveria me reencontrar, me abraçou e se foi para algum lugar. O livro...é esse...

Então, tá. Abençoados links que a Vida nos oferece...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Laurinha

Vez por outra, penso se meu Laboratório não esta chegando ao seu fim. E esse pensar está intimamente ligado ao cansaço que sinto ao rever cenas que considero barbárie...ou  , pela milésima vez, lidar com situações de cruel abandono e maus tratos.
Penso que não é por acaso que  gosto tanto da música Fix You. A Vida é uma salada de frutas: doce ou amarga. Enquanto visualizo fotos enviadas de uma cachorrinha chamada Laurinha (a parte amarga, infelizmente) assisto na TV o maestro João Carlos Martins. Admiro profundamente a história de vida desse cara... Dor e Arte..Dor e Superação... Dor e Recomeço..  (agora lembrei do Alexandre Brito e seu carinho pelas palavras... Dormir... seria possível  , através da dor, ir? Dormir...dor...ir...)

Mas, agora, "saladadefruticamente" falando, relembro de Adorno, por causa da barbárie e do grupo Young@Heart, por causa do documentário que assisti há tempos atrás...

 
No documentário, podemos saber em que condições esse grupo fez a apresentação acima. Sabemos que se despediam de um colega que partira...que dormira...que já não sentia dor...que fazia outra caminhada...
Ano passado, há poucos dias, recebi uma solicitação  que muito me incomodou: uma pessoa que conheço pedia ajuda para conseguir um lugar para sua cachorrinha pois ela "está velha e rabugenta, não querendo ficar sozinha" em casa enquanto a dona trabalha, "já não dá mais pra ficar...mas eu a amo profundamente". Ora! Me poupe! Por anos, essa bichinha  doou o seu melhor...e agora, já não mais serve...
Revi as fotos dessa pessoa, em momentos familiares, com o bichinho no colo... Enfim, resumindo: começo 2015 com uma limpa em meu facebook. E, Não!, não ajudo uma pessoa se DESFAZER de um ser. Pedir-me isso é me ofender, procurar briga... enfim, dificultar minha evolução!!! É mostrar que não me  conhece...
Logo depois, pessoas com a maior boa vontade, compartilham fotos de Laurinha, contando o seu caso e solicitando ajuda. E é aí, que me sinto tão cansada e impotente ...
"Crianças" amarraram bombinhas na boca da cachorrinha e estouraram. Não tenho coragem de postar aqui as fotos. Mas o link...
Hoje eu soube que a Laurinha está melhor: recebeu ajuda, fez cirurgia e está sendo acompanhada por anjos em forma de gente.
Mas fico tão triste e cansada ao pensar nas "crianças" que fizeram isso...que estão em evolução ao inverso, que , provavelmente, cometerão outras infrações, se não encontrarem melhores possibilidades pelo caminho... Fico pensando no pouco que consigo fazer e tenho pressa... mas ontem, li e postei que "Devagar também é pressa..." E, talvez, eu possa acrescentar "E tudo é evolução."
Aí, continuo minha caminhada na certeza de que contribuo para que crianças e adolescentes vivam outras possibilidades...melhores possibilidades. Com respeito ao próximo e a si mesmo.
Hoje eu soube que Rodrigo, nosso amigo que passou um tempo na UTI, recebeu alta. E sei que o seu retorno foi uma grande batalha de muitos e é uma demonstração de que "ainda há o que fazer".
Eu pergunto e tenho a resposta, linhas depois...
Então tá: "bora" continuar a encontrar lugares, pessoas, a estender a mão, oferecer ração, brigar, insistir, acompanhar meus alunos amados, reclamar, sonhar com uma casa com pátio, realizar sonhos, testemunhar o que não gostaria,dizer o que talvez não deveria (mas que bom!!! só que sim!!!), ... bora...  tenho pressa e sei que, por vezes, vou com vagar...e que continuo... Silencio algumas vezes mas, por dentro, estou a gritar... E sei que há quem esteja a escutar...

sábado, 27 de dezembro de 2014

Natal ...ou Receita para Amenizar Saudades


Pois então... sabem aquelas fotos onde há uma árvore, luzes piscando, presentes e toda uma expectativa e energias positivas ao seu redor? Podem chamar de foto de árvore de Natal, foto natalina... a foto carrega o significado...
E sabendo o significado, considero essa foto o verdadeiro Natal. Bem...essa e mais algumas...


Filha, mãe e pai ali estavam, no pátio de nossa escola, generosamente, fotografando nossos pet terapeutas e seus irmãos. E a alegria em compartilhar, em oferecer era evidente. Dulcídio já havia fotografado Nith e Samantha por ocasião da premiação na FAPA. E suas fotos nos proporcionaram um contato muito legal e a proposta de uma parceria.
E novamente ele, Louise e Juli promoveram um momento como esse: de doação, profundo carinho, amor ao próximo e comunhão.  Aí eu digo, "então é Natal".
Volto pra Juli, daqui a pouco...mas preciso mostrar outra foto natalina:


Mães da Oficina, Sandra, Priscila e eu: celebrando nosso encontro, nossa junção de forças, sonhos e ações. Natal!
E mais outra:

A Equipe e os Pets! O Natal acontece no dia a dia: através de amizades que construímos, de parcerias, de momentos especiais que vivemos. Essa foto retrata um de meus mais belos momentos de 2014. Então, realmente, é Natal.

Agora eu volto para o meu foco inicial: a Juli. Dormi com a satisfação de olhar uma caixinha, ler uma carta e segurar um presente recebido. Na verdade,os 3 são o presente: a caixinha (maravilhosa) , a carta(sem palavras...)  e o chaveiro especial. Dormi e acordei no outro dia. Lembrei de tudo isso e do Coldplay, que eu adoro. Mais especificamente de uma música.... Fix You. E achei que ela tinha que ser ouvida pela Juli...


E agora , eu busco a segunda pessoa, eu singularizo para compartilhar uma receita, Juli:

Ouça muita música e relembre muitos melhores momentos.
Continua fazendo o teu melhor: através  de tuas ações, do jeito com que apresentas a Vida para uma linda pessoa chamada Louise, perpetuas o espírito de quem te faz falta.
Mas o fazer falta está relacionado com saudades e sentir saudades é afirmar que os bons momentos estiveram conosco e que,... de outra forma vão continuar. A saudade continua conosco e vai se modificando, deixando que a dor vá embora e que as lembranças nos tornem mais alegres, mais felizes.
Vive intensamente e não esquece que , para qualquer dificuldade, como na música, "luzes vão te guiar para casa" e quem nunca se foi, de alguma forma, vai te ajudar...sempre.
Juli, nossas mães estão em nós, parte delas... quando eu salvo um cachorro ou gato, quando saio á noite para oferecer comida a um bicho com fome, quando eu teimo e insisto até conseguir...tudo isso é minha mãe. Eu não sou ela, mas tenho muito... e o  que faço, atualmente, é agradecer e continuar fazendo o meu melhor. Tenho  a certeza de que  toda a trajetória percorrida é o caminho de volta para nossa casa, com os nossos, que nos fazem bem. Que venha 2015! Que nos desafie, nos canse e nos conforte , pois somos muitas: passado, presente e o que virá.
Bjks!

sábado, 12 de abril de 2014

Então...

Ao contrário de alguns, eu atendo à pedidos!
Reportando problemas para o Google!

domingo, 12 de maio de 2013

Resgate

Esse post era para ser sobre mães, genéricas e similares. Era. Talvez, seja. Talvez, não. Dependerá da trilha que vou encontrar. (trilha musical)
É fato que estou cansada, ultimamente. E tenho sentido vontade de mudar alguma coisa... ainda não sei o quê. Procuro, nas últimas semanas, algo que me impulsione, que justifique minha permanência neste tempo e espaço.
Cada vez mais, sinto a fragilidade da Vida, o descontrole de seres ditos humanos, a indiferença em relação ao sofrimento alheio... pena... E vejo isso relacionado com a Educação que temos ou não temos, com movimentos sociais, com políticas públicas. Acredito que estamos em falta conosco...
E o improvável aconteceu: encontrei a trilha! Vou de Beyonce!

Pois é...
Acho que uma breve imagem do vídeo já começa a me dar a resposta.




No mês passado, enquanto as vozes do American Idol me acompanhavam na sala, ouvi um estampido e um barulho de pneus de um carro que saia da frente de nosso prédio. Eram quase duas e meia da manhã e o corpo do segundo taxista executado em Porto Alegre, fora deixado em nosso calçada. Eduardo era o seu nome, fiquei sabendo depois. 
Quando o vi, pela janela, pensei "Mas é um menino..." Não era, mas parecia. Ainda hoje consigo , claramente, visualizar mais tarde os policiais brigadianos cercando o corpo, outros fazendo uma espécie de corrente humana frente ao portão, impedindo entradas e saídas de quem , por acaso, quisesse saciar mais de perto sua curiosidade.
Atentamente, sempre da janela, acompanhei o trabalho da perícia que veio horas depois. E foi quando vi o fotógrafo se ajoelhando ao lado do rapaz que percebi que ali não estava mais uma pessoa deitada: era só mais um corpo...estatística. Será?


Não tenho conseguido dormir tranquilamente, deste então. Acordo com qualquer ruído, já relembrando um sábado infeliz para tantas famílias... tantos filhos, companheiras, amigos...

Foi aí que a idéia de mudar começou a tomar contorno. Inicialmente, mudar de casa, de cidade, de ir para um lugar  mais tranquilo. E esperei   uma trilha adequada para isso ...


Acho que "perto de uma mata e de um ribeirão", talvez, por algum tempo, eu ficasse mais feliz. Mas só por um tempo...e não muito longe. Então, defini que vou pensar a respeito e, se possível, concretizar essa mudança dentro do tempo que já estabeleci.
Mas, por enquanto, ainda estou aqui. Ainda trabalho na escola, ainda circulo pelas ruas de uma cidade cada vez mais urbana e confusa, ainda tento dormir sem lembrar-me da violência que deixou suas marcas em nossa casa.
A música de Vítor e Léo eu ouvi ontem, em uma seleção feita, com as canções prediletas das mães de nossos alunos. Enquanto confraternizavam com os filhos e equipe da escola, ouviam a sua seleção musical. Gostei da melodia e resolvi procurar no youtube. Era a trilha "da fuga da cidade".

Hoje à tarde, receberemos novamente a visita dos futuros pais do Bolota, um cachorrinho que resgatei, vítima de negligência. Em junho, Bolotinha irá para sua nova casa. Assistir ao carinho que este jovem casal dedica ao "filho escolhido" me preenche de alegria e de esperança. Sensibilizada, acompanho o cuidado que possuem ao pegá-lo no colo, ao abraçá-lo e aproximá-lo de sua nova irmã, Moçamba, uma linda mix de Border Collie.
Como li no facebook da Ana e de várias outras pessoas, "Mãe de cachorro, também é mãe." E eu concordo. E mãe de gato, de porco, de cavalo e de terneirinho , também.
Agora lembrei da Emeraci, amiga protetora, que hoje, no dia das mães, está participando de uma feirinha de adoção. Tentando encontrar boas mães para filhotes maltratados e abandonados.



 Quando tento me definir penso que sou professora, contadora de histórias e protetora , cada vez mais, uma pessoa que resgata animais do abandono, de maus tratos e da indiferença. Sou muito mais, eu sei, mas isso já me define e satisfaz...

Amo meu trabalho e também, a possibilidade de proporcionar  uma vida melhor a outras vidas. Relembrando o vídeo da Beyonce, foi no "um minuto e quatro segundos" do mesmo, que encontrei uma de minhas respostas. Até porque já estive muitas vezes num local como aquele, rindo, contando histórias e fazendo outras pessoas esquecerem, por um tempo, de suas aflições. É...acho que sei fazer isso, também. Mas preciso me concentrar bastante. E estar bem...e ter a certeza de que esses são os melhores resgates.
Na verdade, a resgatada sempre sou eu. Quando vejo meus cachorros brincando, quando percebo um sorriso de resposta de um aluno, ou mesmo um relance de olhar, quando conheço pessoas como a Emeraci, como a Luísa, como a Ana e o Ricardo...pessoas que fazem o bem para além de seus corpos, de suas casas percebo que tudo isso é conhecimento e oportunidade.
Então eu me resgato todos os dias, com meus alunos, no meu trabalho, com as opções que faço, com as vidas de quatro patas que encaminho. E é pouco, eu sei.


Minha mãe se chamava Judite e morreu há mais de 10 anos. Antes até, se considerarmos que o Alzheimer nos retira mais cedo, a pessoa que o possui. Permanece o corpo, que vai se esvaziando... Minha mãe se chamava Judite e gostava de gatos e cachorros. Acho que não tanto quanto eu. Ainda hoje, sinto falta de nossos melhores momentos. 

Minha mãe me deixou como legado a capacidade de indignar-me e de fazer alguma coisa. A vontade de ir além, de mudar, de buscar o que falta, de caminhar sabendo que, muitas vezes, a chegada não é o principal.
Com ela, aprendi a me resgatar.
E a Beyoce canta Halo, Halo, Halo... 
Em todos os lugares que estou olhando agora
Você me cerca com seu abraço...

Eu sempre soube. Obrigada.

Um beijo especial para as mães Taís, Vainir, Adriana, Lúcia, Ale, Rejane, Márcia (todas elas!rs),Silvinha, Lu Mosqueteira, Ada, Gi, Sandra, Lu, Íris, Bea, Denise, Ilsa, Magali, Angélica,Leila, Keila, Rita, Fátima, Patti, Luísa, Dalila, Giovana, Carlinha, Marília, Maria...





segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Rascunhos

Pois tive uma ideia interessante: resgatar os rascunhos do meu blog e publicá-los do jeito que ficaram quando eu acreditava não ter condições de completar a sua escrita.
São projetos de textos, pequenos parágrafos ou postagens quase completas. Mas por diferentes motivos, resolvi guardá-los. Lembrando que boas idéias e invenções, as vezes, partem de indivíduos com preguiça e que desejam " tornar o trabalho mais fácil", compartilho com os devidos comentários.  



Primeira:





No início desta semana, aquele aluno que gosta da música do Mágico de Oz chegou muito mal. Desta vez, precisamos levá-lo rapidamente ao hospital. Coordenadora, orientadora e eu o acompanhamos durante toda a tarde e início da noite. Este menino, embora não consiga falar, compreende muita coisa. Assim como nós , certamente, percebeu o descaso com que foi atendido por alguns profissionais da saúde. Enquanto ele grunhia de dor, apertava nossas mãos, buscava nossos olhos pedindo o afastamento da dor, a preocupação de uma médica era conversar com seus pares sobre como atender aquele adolescente.

Sobre a postagem: não fui adiante porque ainda estava impactada pelo atendimento recebido pelo meu aluno. Comprovei, naquele dia, que alguns médicos necessitam, muito, aprender como atender um adolescente especial.
O aluno já saiu de minha escola, pois completou 21 anos. Não sei como está. Mas não deixo de lembrar dele e desejar que sua vida seja bem mais amena...
Consegui, mais tarde, escrever uma postagem sobre ele...

Segunda:


Reencontrei Carlinhos

  
Eu queria descer da lotação bem na esquina do prédio do Santander. O motorista me avisara que "só se não tiver azulzinho por perto." Tinha. Tudo bem, fui até o fim da linha, na outra esquina, já atrasada para o meu compromisso. Mas, nada é por acaso: ao descer da lotação, caí na década de 60, quando estava no início do meu primeiro grau. O dia em que desci atrasada da lotação, na Rua Sete de Setembro, foi o dia em que reencontrei Carlinhos.



Carlinhos me acompanhou na primeira, segunda, terceira e quarta-séries do primeiro grau, há mais de trinta anos atrás. Fora alvo das brincadeiras maldosas de muitos de meus colegas. Com seu andar peculiar, sua fisionomia diferente e fala prejudicada, não tinha muitos amigos. Alguns o chamavam, escondido da professora, de "cara de macaco". Acredito que as provocações poderiam ser mais constantes e cruéis não fosse o detalhe dele ser filho da vice-diretora da escola. Quase todo mundo tinha receio da diretora e da vice... 
Bem, o fato é que era um menino especial. Era mais lento em tudo. Ficava sozinho na hora do recreio e, muitas vezes, ia até a sala da mãe onde, hoje percebo, se sentia protegido. Na primeira série , fora o fato de ter uma curiosidade em espiá-lo em alguns momentos e observar que babava quando nervoso, não tive nenhum interesse em ser sua amiga.Ele enfrentou a implicância de colegas e a indiferença de outros(inclusive a minha) com silêncio , incompreensão e , por vezes, proteção de professores e de sua mãe. 
Acho que foi pela metade da segunda série que as coisas começaram a mudar... Minha mãe e meus padrinhos adoravam ver meus cabelos balançando sob a forma de cachos. Isso implicava em , no mínimo, meia-hora sentada em um banquinho, imóvel, sentindo mecha por mecha ser esticada e enrolada com um pente. Eu achava um tédio ter que ir com aqueles cachos balançando e amarrados a uma fita colorida no alto da cabeça. Foi então que surgiu o Marcos, um menino chato e grande que implicava com todos . Carlinhos era uma de suas vítimas. Meus cachos também. Primeiro ele começou com um gesto rápido: passava e puxava meu cabelo, antes de fugir. Depois, o que me indignava deveras, sofisticou o gesto: puxava os cabelos e murmurava: "muuu vaquinha". 
Bah! Comecei a observar o vilão no recreio, na hora da saída, na entrada: eu precisava dar um jeito de parar com aquelas brincadeiras. E , aí, percebi que o Carlinhos passava por momentos difíceis, também: lápis roubados, folhas de caderno amassadas...

Fazia um bom tempo que eu pensava no que fazer: contar pra minha mãe ou dar um jeito sozinha. 
Em um dia de chuva, em que o recreio fora na sala, Marcos se aproximou de meus cachos com seus dedos irritantes. Depois de sentir o puxão, grudei minhas mãos em sua camisa e puxei com força. Nesse meio tempo, Carlinhos corria até a classe de Marcos e começava a quebrar os seus lápis. Naquela tarde, Marcos saiu com a camisa rasgada, os lápis quebrados e o orgulho violado. Eu e Carlinhos ficamos sentados na direção enquanto nossas mães conversavam. No dia seguinte, os três: Marcos, Carlinhos e eu pedíamos desculpas uns aos outros, sob os olhares atentos de nossas mães. Como eu não fora suficientemente convencida, terminei meu pedido-ensaiado de desculpas colocando a língua para o colega.
Mas foi aí que nossa cumplicidade começou. Carlinhos e eu nos encontramos naquele sentimento chamado amizade.

Sobre a postagem: esse reencontro aconteceu e me sensibilizou por demais. Ali, no meio da rua, 30 anos depois, Carlinhos me reconhecia e me chamava como na época em que tínhamos 8 anos: "coleguinha Beatriz"
Entretanto, por mais que eu tentasse, nunca consegui escrever a respeito desse amigo da forma como acredito que deveria: com excelência. todas as postagens iniciadas, como essa, não conseguiram dar conta do carinho que sentia por esse pequeno e especial amigo. Hoje, percebo que foi meu primeiro contato com uma criança especial. E acho interessante eu trabalhar com especiais já há muito tempo... sem nunca ter feito nenhuma relação com aquele meu amigo... 

Terceira:




Shena

Antes de qualquer coisa é preciso dizer que Shena nasceu no exato dia em que eu e o Lu nos conhecemos.
Dito isso, me pergunto por que algumas pessoas se apegam a crenças, sinais que surgem como respostas a perguntas não formuladas mas guardadas internamente?
A resposta me chega fácil: para se proteger, para criar mecanismos que possibilitem que trafeguem pela vida de um jeito mais ameno, sem tanta dor, com mais confiança. E podemos dizer que a crendice, superstição ou coisa parecida se origina na brincadeira, quase como se não fosse tão importante quanto, em algum momento, realmente é.
Crer em alguma coisa é motivo para sermos mais fortes. 
Shena foi um presente meu no dia dos namorados. Fomos até a casa do criador e o Lu escolheu a bolinha saltitante de pelos que lhe fez festa com maior confiança. Ali ele decidiu que ela seria Shena. E brincou, acrescentando "a princesa guerreira." Achei engraçado. 
Eu e uma querida amiga temos uma combinação feita em tom de brincadeira, há quase vinte anos e que é levada muito à sério: se uma estiver em dificuldades, seja aonde for, na beira de um precipício...vai chamar a outra. Em momentos difíceis para ambas, estivemos juntas, amparando quem precisava. E com o tempo, acrescentei detalhes que só o meu específico humor seria capaz de utilizar; "Carmela, se eu passar para o outro lado, antes, faço questão de me despedir do Lu e de ti..." Foi por isso, que anos atrás, enquanto um assustado motorista me levava para a emergência de um hospital , eu ligava e a convocava. Ela e o Lu estavam lá, mas eu não desci nenhum precipício. Com o tempo, o "estar lá" se tornou rotina para diferentes e importantes acontecimentos. 
Por que as pessoas têm imagens ou objetos como símbolos de sorte, crença, fé? Atribuir a uma determinada imagem a responsabilidade por conquistas, respostas...
A imagem não é a imagem. Significado e significante...Signos... A imagem é a idéia personificada, o desejo, a busca e a resposta...

Neste ano, descobri que um diagnóstico equivocado fora o responsável por um longo tempo de fisioterapias sem sucesso. Com a certeza da necessidade de uma cirurgia (rotineira, segundo o médico, simples e rápida) comecei a, de forma desapercebida, buscar sinais que indicassem sorte e sucesso no procedimento. 
Shena, a princesa guerreira era calma e totalmente focada na atenção àquele que escolhera como dono. Entretanto, aos nove meses, interceptou um ataque de um fila que fugira de seu pátio e tentara atacar a pessoa que passava mais próxima. E essa, era eu. A filhote de Rotweiller se colocou entre mim e o Fila, deixando que ele atacasse seu pescoço. Do episódio só a lembrança da coragem da guerreira.

Na semana que antecedia meu procedimento cirúrgico simples e rápido comecei a intensificar minha busca por sinais. O primeiro veio através da Internet: uma modelo americana de roupas GG se internara para fazer o mesmo procedimento que eu faria: morreu durante a cirurgia. Resolvi, então, aguardar outros sinais não tão distantes do Brasil. Por via das dúvidas, telefonei para minha amiga e avisei de minha cirurgia, prometendo que um dia antes, telefonaria para relembrar e dizer o horário. Por via das dúvidas novamente, telefonei para outra querida amiga e a relembrei pois eu sabia que já estava focando suas energias no sucesso que viria.
Então, fiquei esperando...

Shena, no auge de seus quase onze anos, arrancou uma das unhas da pata , ao cavocar buracos no pátio. Precisamos levá-la à veterinária e deixá-la hospedada pois necessitava tomar antibióticos para ceder a inflamação.
Poucas horas antes de minha cirurgia a veterinária ligou solicitando que fossemos até lá. Um novo agravante se apresentava e, devido, a sua idade avançada a tentativa de recuperação não era certa mas indicava uma dose de sofrimento.
Ao sairmos de casa, no pátio do prédio, a primeira coisa que enxerguei foi um chaveiro. Ao pegá-lo, identifiquem a única imagem à qual atribuo respostas, sorte e sucesso: uma imagem incomum e difícil de ser encontrada no pátio de meu prédio. 
Eu e o Lu resolvemos ir de táxi até o hospital: como passageiros conduzidos tínhamos tempo para pensar , repensar e relembrar.
Minha amiga dos momentos difíceis não foi encontrada em casa, no celular, não respondeu a mensagens deixadas e, nem conectou-se às minhas frustadas tentativas de uso de paranormalidade.  "Cadê você, criatura?"
 Então, eu soube e quis acreditar que, de alguma forma, a princesa guerreira partia como resultado de um duelo e negociação. Imaginei-a dizendo "Deixa meu Lu feliz. Ela fica mais um pouco por aqui e eu vou em seu lugar..."
Quando avistou meu marido, após chegarmos na veterinária, fez força para se levantar, fez festa, lambeu seu rosto. Partiu algumas horas depois...

Minha cirurgia foi bem sucedida e aqui estou eu, escrevendo sobre ela, entre outras coisas. Mas sempre vou me lembrar dos olhos de despedida de Shena, poucas horas antes de minha internação...

Sobre a postagem: Shena faz muita falta, principalmente, para o Lu. Ainda hoje, a enxergamos através das brincadeiras e olhares do seu filhote, Thor.
Não achei que tivesse escrito um bom texto, que desse conta da emoção que eu sentia, sem parecer piegas...por isso, não publiquei...


Quarta:

Quando as evidências não correspondem aos fatos
Pois hoje, no Dia Mundial dos Animais, estou bem triste.
Bob apareceu , não por acaso. De todas as casas e prédios foi em uma escola especial que, inicialmente, foi acolhido. Não por todos, é verdade. Ironicamente, esse bichinho veio mostrar que, muitas vezes, falamos da boca para fora. Somos a favor da inclusão mas excluímos um animal pela sua aparência, por seu cheiro...Não temos tolerância de aguardar que o pelo seja limpo, que as cicatrizes da pele sejam cuidadas e curadas. Somos favoráveis à inclusão de duas patas, apenas. Ah, mas adoramos quando vemos um lindo cachorrinho de raça, cheiroso, bem cuidado...fazemos festa e pegamos no colo, não é?
Achamos lindo quando ouvimos pessoas falando em uma vida mais sustentável, em desprendimento...chegamos a dizer que essa é nossa meta: caminhar mais devagar, perceber a beleza das plantas, colher frutos pela manhã, meditar... Mas não deixamos de questionar a presença de um filhote abandonado, não para ajudar, mas para certificarmo-nos que vai sair de nossa visão. Pois as diferenças tão respeitadas não chegam até o corpo machucado de um animal...
Bem...Bob está melhorando: sem carrapatos, comendo todos os dias, brincando com quem o aceitou incondicionalmente e, tentando conquistar quem não o enxerga. Mas o fato é que o cachorrinho que dá a pata quando pedimos bom dia precisa de um lar, de pessoas que o queiram e possam adotá-lo com carinho.
Pessoas especiais estão em todos os lugares.Se você conhece alguma que possa adotar o nosso amigo, entre em contato, ok?

Um recadinho pra quem sofre por um animal que já se foi: adote! Não sofra mais...


Sobre a postagem: resolvi arquivá-la porque identifiquei muita raiva em sua escrita. Naquele momento, Bob enfrentava a rejeição de algumas colegas e  resolvemos, para livrá-lo das mesmas, oferecê-lo para  adoção. O resto é uma longa história já contada... Bob "desapareceu", foi muito procurado, buscamos a polícia para tentar resgatá-lo, ouvimos muitas histórias bem e mal contadas...mas de uma coisa eu tive a certeza: da participação de pelo menos uma pessoa conhecida, em seu desaparecimento. Mas eu nunca esqueço que "A vida é um bumerangue". Você recebe de volta...

Hoje, Bob está comigo. E estamos felizes. Há muitas pessoas que o adoram e protegem, com certeza.


Quinta:


A perfeição do descanso na imperfeição das férias

Você já sentiu o corpo cansado de tanto descansar? Tédio de tanto dormir (aquilo que você sonhava fazer, durante o ano)? Preguiça de se encontrar com pessoas que você adora? Enjoo de tanto comer doce? Desejos de fazer todas as provas de vestibulares possíveis (na verdade, vestibular=estudo=leituras=organização do ambiente de forma a atingir objetivo=sair do marasmo)? Vontade de se transformar em um corretor ortográfico , ao ler alguns blogs, incluindo o seu (meu)? Preguiça de responder perguntas feitas em dias muito quentes, quando você não está em um ambiente refrigerado? Tem pensamentos tipo "que tédio, que preguiça, que sono, que dor no corpo de tanto que dormi.."? Hum... Talvez pense que está enlouquecendo. Tá não! Mas , inegavelmente, você faz parte do meu clubinho. Qual o nome dele, do clubinho? Ainda não sei, mas vou tentar descobrir. Sou boa em títulos. Mas, aos pouquinhos, vou escrever uns textos pra você tentar se-me entender. ok?

Sobre a postagem: Sou boa em títulos, é fato. rs

Sexta:

Seu Klein



Conheci Seu Klein quando ainda calçava botas ortopédicas e entrelaçava meus dedos nos de minha mãe, que me conduzia diariamente, ao Jardim de Infância. Sempre passávamos em frente "à casa com um pátio bonito e varanda", que eu insistia em dizer "vranda". Curiosa, eu queria saber quem era aquele que, todos os dias, ali ficava, sentado em uma "cadeira diferente". Eu abanava para o "tio"e ficava zangada por nunca receber um aceno. Mesmo assim, insistia: queria saber quem era, por que ficava sempre sentado na "vranda", por que geralmente estava de pijamas, o que comia, o que bebia, se usava chinelos ou "botinhas", se os dedinhos do pé ardiam e outras coisas mais.
Na verdade, ele tivera um derrame e não caminhava, nem falava. Sua cadeira era de rodas.
Um dia, desentrelacei meus dedos e fugi, indo parar bem a sua frente , com minha mãe se desculpando, atrás. Sua esposa chegou na varanda e achou graça ao ver "uma coisinha cacheada" puxando conversa com seu marido. Explicou o que acontecera mas eu, "nem bola": queria falar e , melhor, contar coisas. Foi assim que, durante muito tempo eu caminhei pelo gramado do pátio bonito, com as devidas permissões, e fiz companhia para Seu Klein. Lembro que eu falava pelos dois, contava de minhas amigas, fazia queixas.... Eu olhava em seus olhos e sabia que era entendida. Com o tempo, sabia quando ele estava feliz, quando achava graça no que eu falava e quando precisava que a esposa viesse até a varanda. E eu a chamava. Todos diziam que a menina dos cachos e Seu Klein se entendiam como se falassem um com outro. Eu nem ligava para isso. simplesmente éramos amigos e nos comunicávamos.

Sobre a postagem: Não consegui terminá-la. Mas conto o que, infelizmente, aconteceu: um dia, já adolescente, não consegui mais entender o Seu Klein. E até hoje me pergunto se ele fora embora e deixara o corpo ou se eu é que "desaprendi ao adolescer"...