Em algum momento acreditei que sou boa em entrelaçamentos...assim como, em fluxos de consciência, alguns de vocês já estão fartos de saber.
Mas voltando aos entrelaçamentos...acreditei e construí minha trajetória baseada nesta crença, também.
Hoje, vou contar uma história que iniciou há uns dois anos atrás...
Conheci o V. bem ao lado de um container, que fica na rua onde moro. Atravessei a rua para colocar uma sacola de pedaços de papelão e outros materiais do tipo. Ao chegar ao lado do container vi um rapaz franzino, retirando uma sacola com restos de comida. Ele selecionava e comia um pouco com as mãos. Ao perceber que eu me aproximara e o observava enquanto colocava minha sacola com o restante do lixo, ele me olhou e, para meu desconcerto, justificou, como se pedisse desculpas:
" Eu não vou comer tudo não, vizinha...só um pouco pra não ter fraqueza. Eu caminho muito. Mas isso aqui (mostrou a sacola com restos de comida) isso eu vou levar pras minhas filhinhas. Estão esperando que eu chegue... Eu não ia comer tudo, de jeito nenhum..."
E foi assim que começamos a nossa história. Naquele dia, eu o convidei para atravessar a rua, entrar no meu pátio, sentar pra descansar e comer algo mais, beber um suco. Ele agradecia mas repetia que precisava caminhar, precisava encontrar comida ou garrafas plásticas para vender e conseguir o que sua família esperava.
Eu e o Lu, meu marido, o tranquilizamos e enquanto ele contava parte de sua história, Lu enchia uma sacola com algumas coisas para que ele levasse o que comer.
A partir desse momento, de 15 em 15 dias, V. bate palmas na frente do nosso portão, chamando "madrinha! madrinha!" Seu objetivo é buscar as garrafas de agua mineral que utilizamos e guardamos para que ele venda. Nunca pede nada além, embora, claro fique feliz quando leva o que é mais precioso para sua filhinha pequena: litros de leite. "Se eu garantir o leite, tô feliz!" E vai pela rua, puxando o carrinho e cantando...
Em dezembro do ano passado, uma querida amiga, ao saber de detalhes da história do V.,
comprou uma 12 caixas de leite. Somadas as que eu já guardara para lhe entregar, tínhamos mais de 20.
Ao recebê-las e muito agradecer me pediu um favor especial: Que eu guardasse uma parte para que ele viesse buscar quando começasse a faltar. E me entregou uma sacola com massas e arroz, fazendo o mesmo pedido e justificando: "se eu levar tudo, a gente vai se achar...vai querer comer como se não precisássemos nos preocupar com o depois...mais vai ser ilusão..."se eu não poupar, só conto com a ajuda da madrinha e do padrinho advogado da outra esquina." Trato feito.
O Tempo passa e se entrelaça...se tornou parte de nossa rotina ouvir o chamado alegre ., abrir o portão, deixar que entre e descanse da sua longa caminhada pela cidade. Enquanto bebe um suco ou água e come alguma coisa ele conta do seu dia a dia.
E, também, ficamos sabendo um pouco de seu passado: poucos meses antes da pandemia foi convencido pelo sogro a largar o emprego de ajudante em uma lanchonete, em Osório, e tentar a vida em Porto Alegre. O sonho era, com o dinheiro que juntara, alugar um lugar pequeno, conseguir um emprego e prosperar. Não deu certo e V. a esposa , 2 filhas e o sogro moram em um barraco alugado numa parte distante da Zona Norte. As caminhadas para garimpar, pelos containers e latões de lixo, material para vender são, exclusivamente, para pagar os setenta reais semanais ao dono do barraco em que vivem e para comida.
Dois dias depois do Natal passado, ouvimos o chamado de V. Achei estranho pois havíamos entregue todas as garrafas que guardáramos e , também, mais algumas coisas que julgamos importante para ele e sua família.
Ao abrir a porta e o portão, observei que não recolhera quase nada, estava com o carrinho praticamente vazio. Rindo ele me dizia: "ah, hoje ,não...hoje não...eu sempre recebo muito daqui, sabe...e hoje é o MEU dia! Quem vai dar presente sou eu! Trouxe um presente pra madrinha! Só não consegui um papel bonito pra enrolar...então tapei com um pano que eu tinha...mas olha aí...tá bem limpinho. Pode pegar!"
Observando a sua visível ansiedade e satisfação, desenrolei vagarosamente o embrulho...e recebi um valioso presente. Valioso pela sua história, pelo gesto e significado. Meu melhor presente, assegurei. E era verdade.
E a história começou assim:
V. remexia em caixas e pacotes descartados em frente a uma casa "de bacana, gente bem rica madrinha...casa grandona mesmo".
V. sabia que, logo depois do Natal, em bairros considerados mais nobres, o descarte de objetos rejeitados e até comida em razoável estado, era grande. O lixo de uns se transformava em sobrevivência para outros. E V. era um deles.
Da varanda da casa, sentado em uma cadeira, um senhor grisalho observava o rapaz remexer em seus descartes. V. assegurou que não ia deixar nada espalhado, que sabia que tinha "colegas" que faziam "uma bagunça na frente da casa das pessoas". Mas ele não era desses.
Depois de recolher alguns itens que poderiam ser vendidos, abriu a última sacola e se surpreendeu com seu conteúdo. O dono da casa, ao perceber que o rapaz observava o objeto sem se mover, desceu as escadas e se aproximou pelas grades da casa dizendo que aquele objeto, se vendido, poderia render até uns 10 reais.
Ainda surpreso pelo fato daquele senhor de cabelos brancos ter descartado tal objeto, respondeu que não o vendaria pois tinha alguém que o receberia como forma de carinho e gratidão.
Eu recebi. E ao abrir totalmente ouvi ele me dizer "é uma telha, madrinha...mas não é uma telha qualquer, não..." Não era!
Semanas mais tarde, V. trouxe sua esposa para me conhecer. Sorridente como ele, agradeceu a força que recebiam através de mim...e de amigas que se dispuseram, ocasionalmente, a ajudar com algum gênero alimentício.
Observador, V. percebeu que a turma canina aqui de casa era grande. Da cadeira de praia colocada no pátio, ouvia os latidos e observava alguns deles que permaneciam na varanda.
Contei a ele, que alguns me acompanhavam em meu trabalho e interagiam com adultos , crianças e adolescentes. Comentou que os cachorrinhos eram muito especiais, então.
Semanas depois, apareceu em um dia que era um desvio do caminho , como salientou. Encontrou o encosto de um sofá, descartado de uma casa que costuma ter boas coisas para vender. Lembrou dos pets e trouxe para eles...
A história de V. e sua família tem vários capítulos: dos dentes que foi perdendo , das tentativas de aliviar as dores com soluções ineficazes , do braço torcido por um fortão que desceu do carro para machucá-lo porque ele, cansado, demorara a tirar o carrinho de materiais reciclados de onde o homem desejava estacionar...da ocasião em que adolescentes marginais amassaram suas garrafas apenas pelo prazer de ver o outro sofrer, do medo de tomar vacina e ter alguma reação que o impedisse de trabalhar na busca de materiais recicláveis e da felicidade ao mostrar no portão de minha casa, a carteira das vacinas...para comprovar que ouvira nossos conselhos e indicações...No Natal passado eu me preocupei em, além de uma cesta básica e caixas de leite, oferecer roupa para as meninas (de 2 e 4 anos).
Neste ano, ao comentar com uma querida amiga a história do V. e de suas meninas falei que nem lembrara, no ano anterior, do que seria um grande presente para as duas: brinquedos. E que pensava em ver alguma coisa nesse sentido. Lúcia, no mesmo momento, tomou para si e sua filha (uma linda e generosa jovem) a tarefa de fazer a alegria das meninas. E sua filha doou 3 lindas bonecas: uma delas maior que as próprias meninas, outra, que fala e a pequeninha...um verdadeiro bebê para embalar.
E ontem, V. veio buscar as suas garrafas de água e me trazer outro presente garimpado em caixa jogada ao lado de um container: "um artesanato, não é madrinha? Como se fosse uma cozinha...tudo bem pequeninho!" E a sua satisfação ao ver minha emoção ao receber o presente e, junto com ele, a sua história de resgate, só não foi maior que a alegria ao receber as bonecas que as minhas queridas Lúcia e Ingrid ofertaram,
Emocionado, caminhou pelo pátio, segurando as mãos da boneca gigante que também caminha. Agradecido, gravou um vídeo para minhas amigas. Cuidadoso, pediu que eu guardasse as bonecas até hoje, pela manhã. E embora eu dissesse que poderia enviar ele, as bonecas e outras coisas que arrecadei de Uber, V. argumentou que dificilmente alguém o levaria até depois do Rubem Berta, onde mora...e que não se sentiria à vontade sentando no carro "do jeito que eu me visto, de chinelo...gente simples como eu..."
Veio com uma bicicleta que consegue emprestada de um vizinho, quando está muito cansado de caminhar.
"Quanto tempo, em média, tu caminhas?", perguntei. "Acordo antes das 6h, saio e vou recolhendo o que acho e posso. Tenho que chegar até as 6h da tarde, de volta para vender o que tenho em um depósito. Depois, vou em outro que fica aberto até mais tarde. Antes das 22h já estou em casa... É isso madrinha. Tenho pernas pra caminhar e quando canso, até consigo rodas pra me ajudar. O ano foi bom, não posso reclamar."
A todos os V. deste mundo o meu respeito e admiração somados ao desejo que aprendamos a ser mais generosos, honestos, que saibamos nos colocar no lugar do Outro e, com isso, aprender...que sejamos mais justos e trabalhemos para nos transformarmos em algo muito melhor...e que, assim, possamos recuperar e salvar esse mundo.













