domingo, 26 de dezembro de 2021

 


                    Breve relato de como estou...

Olá! Sou o Noel. Cheguei poucos dias antes do Natal na escola que me abrigou. Eu estava bem cansado e minhas patas , machucadas de tanto caminhar desorientado.

Fui convidado a entrar para descansar, tomar água e...pronto...acho que uma nova possibilidade surgiu. E, não só para mim.

As especulações sobre meu aparecimento são muitas: se perdeu, fugiu, o dono ou dona talvez tenha morrido e eu enxotado ou então, a que parece ser mais provável, para um grupo da escola: fui abandonado por estar velhinho. Não tenho os dentes da frente, preciso de uma comida que me favoreça, não tenho mais a mesma energia para correr ou acompanhar quem tem muito mais disposição do que eu. Chegou a hora de minha aposentadoria. E, quando pensava em dormir, dar umas caminhadinhas básicas , receber carinho de gratidão pelo tempo que servi e fui fiel...bem, vocês já sabem.

Estou na escola, ganhei amigos, alguns olhares de receio tipo "o que vamos fazer com ele?" e , neste momento, ganhei a segurança que eu pensava ter perdido.

Então, uma das muitas pessoas que me apadrinhou nessa escola me disse que seria interessante relatar o que já foi feito para me ajudar:

Vakinha - ajuda para comprar e pagar :

minha guia, 

minhas rações,

 minha estadia em hospedagem (tios Carla e Giovanni que me cuidaram e passearam todos os dias comigo),

o transporte de ida e volta,

os sachês que misturam na ração para tentar me convencer a comer aqueles grãos,

o vermífugo que precisei tomar antes das vacinas que virão,

o exame de sangue que constatou que estou anêmico...

Doações mais específicas:

Visita domiciliar da veterinária (  gentileza da profe Luísa)

Coleira Seresto (Turma da Bibliopet - gentileza de um tal de Bob Borges, Samantha Elisa e Nith...não os conheço mas já falaram deles perto de mim)

          Minha linda e nova casa azul ( gentileza da amiga da Ondina e da própria Ondina que contou minha história)

Suplementos alimentares indicados para o combate da anemia (gentileza da profe Dani)

Carinho, compreensão , tolerância e cuidados de todos os meus novos amigos da escola

Tempo, carinho, cuidados e companhia em momentos diferentes do dia para que eu não me sinta tão sozinho ( Milene, Alex...e acho que devo mencionar a profe Bia, criatura insistente que me obriga a engolir os suplementos, depois que eu descubro que iria engolir com outra coisa ,só pra me enganar, e os cuspo, fora.) Hum...também ao marido dela, que traz comida feita por ele (muito boa, por sinal) na tentativa de me enrolar e promover a transição para uma ração...

Sei que tem o grupo da doação em R$, do financeiro, da arrecadação e compra, da preocupação ... sei que tem muita disposição em me ajudar. Sou gratidão na forma que aprendi: olhares afetuosos, caminhadas lentas para encontrar e acompanhar, balanços do meu rabo. Cuido do pátio e arredores com as forças que disponho: lato quando percebo que há pessoas que não conheço na horta e fico atento ao movimento. Lato incomodado quando percebo a entrada de outro bicho por baixo do portão. Sim, estou cansado...mas estou ligado.

Agradeço a quem primeiro me viu e enxergou (Juli) e possibilitou que, como escreveram em uma linda mensagem, o espírito do Natal se transformasse em acolhimento e inclusão.

Preocupados com meu bem estar em noites de muitos fogos de artifício (que são proibidos e afetam negativamente, não só animais...) o trio que está acompanhando diariamente, está vendo a possibilidade de eu permanecer em LT em um lugar mais calmo, já oferecido. Depois de terça, poderei dar mais detalhes, pelo que me disseram, pois vamos até lá fazer um primeiro contato.

Ouvi algumas pessoas falarem que eu devo ser adotado, que será difícil por causa de minha idade e incapacidade de ser tão ágil e companheiro quanto , certamente, já fui, para alguém. Também ouvi que nada acontece por acaso e que minha chegada, provisória ou não, é possibilidade para questões como velhice e suas transformações, abandono,  possibilidades de inclusão ,necessidade de tolerância, de diálogo e união em diferentes ações sejam trabalhadas.

Estou por aqui...cansado mas muito agradecido. E acho, que estou começando a esquecer de coisas tristes para ter a certeza de que ainda posso ser bem feliz.

Felizes dias para todos nós!

            Noel




domingo, 2 de maio de 2021

 ALTERNO...


Alterno momentos de enganosa tranquilidade, com momentos de exaustão.
Alterno momentos em que caminho satisfeita com as melhores companhias, com momentos em que apresso o passo segura da incerteza do que me aguarda.
Alterno momentos em que acompanho e busco minimizar a solidão do outro lado da tela com momentos em que, preocupada, acompanho a depressão do outro, dentro de casa.
Alterno momentos em que subo na maca , deito e aguardo que um túnel barulhento e investigativo me engula, com outros momentos, em que o convencimento para a busca do auxílio médico se faz necessário.
Alterno o desejo de estar em outro lugar, com outras pessoas, em outro mundo, com a certeza da necessidade de estar onde estou.
Alterno momentos de saudades de episódios da minha infância, com outros...com saudades de uma memória que não é minha...mas já se deteriorou.
Alterno momentos de satisfação e alegria por acompanhar alunos que conseguem resistir, insistir e persistir apesar de todas as dificuldades... com outros, em que minha tolerância é pequena em relação à pessoas com quem sou obrigada a conviver por conta do "ambiente de trabalho".
Alterno momentos em que sonho que um dia vou estar com os meus, em um fim de tarde, às margens do Bojador ...com a certeza de que o momento atual é de profunda dor.
Alterno...resisto e persisto buscando reconhecer cada diferente momento, seu significado e seu valor.





REVISITO...

Foi noite de revisitar meu blog, de relembrar das queridas Bea e Íris...minhas referências de excelência no que fazer e como fazer.
Percebi, ao reler minhas postagens, que desde 2013 , em meus escritos, falava sobre o mesmo tema...às vezes, abertamente, outras vezes, entrelaçado com outros...escondido...mas sempre ali.
Houve um tempo em que escrever era como respirar...tornava-se necessário para que eu conseguisse continuar.
Hoje, revisito meus textos para não esquecer de minha essência...






segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Novamente, sobre todas as coisas e sobre coisas nenhuma...

 Fluxos...

Sou boa em fluxos de consciência. Dia desses assisti parte de uma live com um dos diretores da ATEMPA e com o querido Luis Antonio Assis Brasil. Nao fui até o final porque quem entrevistaria , já fazia uma palestra em sua apresentação. E o convidado esperando, coitado... Sou de Áries, se isso importa alguma coisa. Mas não tenho muita tolerância com o que considero inapropriado ou inoportuno. Sinto-me cansada e sem vontade de descansar. Brigo com o Tempo. Na verdade, busco fazer o máximo antes que ele venha alguma coisa me segredar. E ele virá. Porque , às vezes, tenho saudades do que ainda não vivi, de lugares que não percorri, de pessoas que não conheci. Tenho saudades. Arbustos, engrenagens, planejamentos, livros, cadernos me lembram meu padrinho. Resilência, Força. "Seja forte, Doca. Seja forte. E quando estiver cansada, busque forças onde , certamente tens, e seja mais forte." "Se voltar para trás, que seja para pegar impulso...para saltar. E aprenda a voar. E um dia, não esqueça de , ai sim, tranquilamente, observar o mar..." Partes do poema O Mapa , do Mario Quintana chegam devagarinho, algumas manhãs, para me acordar..." Sinto uma dor infinita, das ruas de Porto Alegre...onde jamais passarei...Quando eu for, um dia desses...

Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso"

 Sou  boa em fluxos, bem sei...Nestes tempos complicados há vida, beleza, alegria, perda, recomeço, resilência...Vejo isso em meus alunos. Pela tela do celular ou notebook os acompanho, na medida do possível...e com eles, aprendo. Meus alunos estão cicatrizados em mim. Fazem parte...vão, voltam, permanecem, sofrem, choram, sorriem, brincam, desafiam e são desafiados, acompanham, são generosos. Eles não sabem...mas eu mais aprendo do que ensino. Isso é Paulo Freire, certamente. E que bom que aquele incompetente que pensava ser Ministro da Educação, fugiu. Já temos muito como ele sendo gestores por aí...Vou me mudar. Mudança em plena pandemia é complicado. Mas a verdadeira mudança é interior e, não deixa de causar alguma dor. Mas o Fernando ja dizia que quem quer passar além do Bojador tem que passar, também, além da dor. Eu a ultrapasso na expectativa de saudar minhas saudades.Sou boa em fluxos, sou nascida sob o signo de Áries e vou me mudar. A águia tem uma interessante passagem de vida aos 70 ou 75 anos, pelo que me lembro. Ela recomeça, depois de um necessário ato de coragem. Estamos em agosto...mas, apesar de tudo, não posso dizer que só há desgosto. Sou de àries, afinal.
                Cabo do Bojador

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Alterações observadas em Phineas Gage e entrelaçamentos com um presente e futuro próximos

Interessante e assustador  o momento em que a certeza de impunidade, de resistência fazem com que alguns seres se descortinem a nossa frente, mostrando o quão cruéis suas planejadas e articuladas ações podem ser. Fazendo uma clara referência ao objeto de seu desejo de dominância... um cérebro passivo, obediente à regra máxima de ser sujeito de formatação... postar, receber, esperar permissão de acessar, retomar quando e se a mantenedora desejar. 
Vigiar e punir...
Aceitar e calar...
Córtex, Córtex, Córtex...
"Receba o acesso, entre na plataforma, envie seu planejamento, receba acesso, envie atividades, receba-as de volta...coloque as informações em pequenas caixas de texto virtuais tão pequenas  quanto esperamos que seja, em curto espaço de tempo, a sua percepção."
E aqueles que estão em posições estratégicas são mantidos ocupados liberando acessos, percorrendo diários virtuais, participando de estressantes reuniões, retomando, recebendo perguntas, buscando respostas...cansando, cansando...
"Córtex supremo e em vias de transformação... pensar talvez não seja uma opção."
Dia desses, pouco depois de ter entrado em um carro chamado por aplicativo, percebi o grande trajeto que fazíamos: poderíamos simplesmente dar uma volta e retornar para o sentido contrário , dobrando duas quadras depois em rua que nos direcionaria à avenida principal. A partir daí, só seguir em linha reta  e chegar ao destino em menos de 10 minutos.
Mas o carro seguira em frente e fazia um caminho mais longo e inadequado.
Ao ser questionado, o motorista explicou que o aplicativo não reconhecia o "ir para trás", que indicava  sempre os  caminhos que estavam `a frente do veículo.
Intrigada, perguntei-lhe se era morador de outra cidade e, portanto,  não conhecia as vias de melhor acesso em Porto Alegre.
"Sim, sou daqui...e pior...conheço bem o caminho que a senhora falou. Mas a gente se acostuma a seguir o que o aplicativo indica e nem pensa; só vai no automático. Agora que fui me dar conta..."
Córtex, Córtex, Córtex...
No filme Fahrenheit 451, o bombeiro que, juntamente com os colegas, tinha a função de atear fogo aos livros e perseguir todos os leitores que desrespeitavam as limitações impostas por uma "Ordem", usava um colírio, todas as manhãs.
O colírio era ofertado à população para que "enxergassem melhor", com um bônus de um sentimento de tranquilidade e satisfação.
Há uma série da qual ouvi falar pela primeira vez através de comentário do diretor de minha escola:
"Não consegui assistir todos os episódios...fiquei mal...com a sensação de que estamos caminhando para um futuro parecido com o da ficção." 
No primeiro episódio desta série, em determinado dia as mulheres deixam de ser indivíduos com direitos e conquistas...descobrem que já não possuíam conta em banco, nem empregos, nem salários.
Confesso que ao ouvir, durante reunião pedagógica on line, a preocupação de colegas em relação a acessos, possibilidades de utilização de links e outros recursos...fiquei pensando nas mulheres da série e no colírio do filme...
Talvez eu, em algum momento desesperador, quisesse usá-lo, tornar-me distante das maquinações e cruéis engrenagens que nos são impostas.
Entretanto, apenas por um momento...
Volto ao filme e a outra parte que me toca: o enfrentamento silencioso mas potente. 
Não sou partidária de gritos ou intimidações no sentido de direcionar meu pensamento e decisões. Nunca fui. Mas acredito no trabalho firme e silencioso...nem sempre descoberto (até porque este não é o foco) no sentido de provocar RRA : Reflexão, Resistência, Ação.
Há lugar  para todos, na verdade...para os que esbravejam e corajosamente se colocam a frente das linhas de oposição, para os que trabalham devagar, silenciosa e perseverantemente e até para alguns...que desejam visibilidade e reconhecimento, antes de qualquer outra coisa.
Há um grupo secreto neste filme. E seus participantes têm como objetivo memorizar , cada um, o conteúdo de um livro ainda não incinerado pelos bombeiros... porque a História e as histórias poderiam ser repassadas oralmente às gerações seguintes.
Córtex, Córtex, Córtex Supremo...
No grupo, cada um fazendo o seu pequeno gesto...cumprindo seu papel e participando, paralelamente,  das aparições do Grande Circo da tal Ordem...mas sem o uso do colírio.
Volto  à reunião da Escola onde informações técnicas são compartilhadas... Mas todos sabemos...
Córtex, Supremo Córtex da Mantenedora...
Córtex e a fábula de Rubem Alves sobre o  menino que pintava seu desenho com uma cor diferente do esperado...
Córtex e o filme O Círculo...
Córtex e a queima de livros e de gente...
Córtex e a entrada, aos 9 anos, do menino Chico no mundo da sangria das seringueiras. Córtex e a despedida do menino Chico, sobrenome Mendes, do "mundo do ABC"...
Córtex e a impossibilidade de ter um celular, um computador, internet...por vários de nossos alunos.
Córtex e o legado que a Mantenedora quer deixar... Córtex e o mascaramento da realidade...
Córtex Supremo em direção à passividade!
Particularmente, vejo muitas questões interessantes e promissoras na Educação a Distância, quando utilizada com recursos acessíveis a não apenas a uma minoria. A essa forma de aprendizagem dediquei parte de meus estudos de especialização: para compreender seus mecanismos . Posso afirmar, portanto, com segurança que não estamos realizando Educação a Distância.
Mas é certo que, dentro das mínimas possibilidades existentes tentamos, professores, direções e setores da Escola fazer o que mais se aproxima de um atendimento ao aluno, respeitando e compreendendo sus dificuldades. Buscando formas de auxiliar, telefonando, enviando atividades por redes sociais, fazendo videoconferências por whats... tentamos...dar um suporte que nós próprios não recebemos por parte daquela que deveria ser parceira ...a Mantenedora...
É preciso reconhecer funções, estratégias, resistir de diferentes maneiras...cercar, lutar...
Considero meu trabalho pequeno perto de muitos outros que tenho a felicidade de encontrar . Mas me tranquilizo parcialmente ao relembrar que uma pequena formiga tem a capacidade de erguer e transportar peso bem acima de seu proprio corpo...trabalha, trabalha e, no silencio, escava e constrói tuneis engenhosos, necessários para si e sua comunidade.
Opto por abrir mão do colírio e participar de cenas do Grande Circo da Ordem...
opto pelo acesso, juntamente com meus pares, à plataforma...
Córtex, Córtex, Córtex...
Porém, que o nosso legado seja outro...seja o do grupo de leitura do Fahreinheit 451...que sejamos formigas correndo, sim, o risco de ser esmagadas por um pé não tão imaginário... e que enquanto formigas, respeitemos o espaço e missão dos leões, das andorinhas, das capivaras...
Corramos riscos com o objetivo de que Reginas, Marcos, Orlandos, Cíntias, Rosanes, Renatas e muitos outros tenham suas vozes não silenciadas.
Córtex, Supremo Córtex...através de ti, podem tentar...mas eu acredito que não vão , seus objetivos mais perversos, conquistar.
Sejamos ...

domingo, 28 de julho de 2019

"Choverá um dia ensolarado"


Então, Seu Silmar? Estamos na calmaria? Ou já entramos na tempestade? Na verdade, eu não sei...
Mas , de qualquer forma, a certeza é outra e se relaciona com a vida de um pai de 4 meninas. De um avô. De um companheiro da Catarina e do Thor...a dupla de 4 patas que almeja uma poltrona na sala e disputa a mesma com o seu dono.
Fazer aniver é relembrar, remexer no baú das saudades e, algumas vezes, deixar escapar umas lágrimas, não é?
O senhor já viu chuva caindo em um dia ensolarado? A chuva chega, limpa, percorre caminhos, traz  redenção....em outros momentos, com sua força, traceja caminhos, cria veias na terra, tomba vidas... 
Mas estamos falando da chuva em um dia ensolarado, não é?
Querido pai da Juli e de suas irmãs,avô da Louise e de seus outros netos...que seus dias sejam sol com gosto de chuva...que seu sorriso, mesmo misturado com lágrimas permaneça na felicidade e na certeza de ter construído uma vida digna para todos os seus.
Seu Silmar, do riso cativante, das respostas rápidas e encharcadas de bom humor...que bom que nossos caminhos se cruzaram.Parabéns hoje e sempre!
Da amiga "quase um bicho do mato" Bia

segunda-feira, 11 de junho de 2018


 Partiu, Carmela... Partiu, pela madrugada, o guardião do sofá da sala...


Foi fazer a melhor viagem, do jeito como viveu: tranquilo...
Ainda tomou umas colheradas de água de cocô, antes de dormir completamente.



Talvez, o César já esteja correndo , com alguns irmãos, entre campos de lavanda. Quem sabe, a ele tenha sido destinado outra forma...
Aqui, os que ficaram, viverão com as lembranças de um grande cachorro, de um pai amoroso de seu Thor, que já o espera, com certeza. César escolheu a melhor forma e hora de partir. Cumpriu sua missão e espalhou seus ensinamentos. Nunca mais comprarei água de côco sem lembrar de sua satisfação ao bebê-la.
Até breve, César. Volte a saltar, correr e latir com alegria nos campos do paraíso de lavanda. E quando eu chegar...mesmo que esteja em outra missão, dê um jeito de me recepcionar.
Fica bem!


sábado, 30 de dezembro de 2017

Inté!

Em uma das cenas do filme de Temple Grandin, ela pergunta insistentemente "Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Quem me conhece um pouco sabe da influência de meu padrinho em minha trajetória: desde a lição do arbusto até o requinte de fazer um gráfico para explicar-me (em meus 10 anos) como lidar com pessoas inconvenientes, no meu futuro.
Justifiquei sua partida através de uma constatação: era uma pessoa tão especial que não conseguiria suportar viver em um mundo em declínio. Foi para outra dimensão, auxiliar quem precisava...como eu precisei. Simplista justificativa...mas funcionou por um bom tempo.
Há poucos dias eu conversava com a mãe de uma ex-aluna, via facebook. E tentava confortar sua dor e incompreensão por conta da morte de sua pequena mascote canina. E embora ela insistisse em reafirmar esses sentimentos eu, por outro lado, falava da certeza que tinha de que a cachorrinha completara um ciclo necessário...e depois, se fora.
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Anos atrás, abri a porta de um quarto em um hospital infantil e perguntei "Tem alguém aí, que quer ouvir história?" Tinha. Um menino e seus pais.Voltei por muitas quintas à noite para contar histórias para ele e outros. Mas como boa e bem treinada voluntária eu sabia que jamais deveríamos perguntar sobre motivos da internação, saúde, etc. Simplesmente, entrávamos e contávamos histórias. E talvez, nos encontrássemos depois. Eu nunca perguntava o que pensava ao entrar e perceber o vazio de um quarto ... 
Um dia, anos depois, ao levar uma de minhas bibliopetterapeutas em uma escola fui reencontrada por aquele menino: "tu não é aquela que contava histórias e assustava as enfermeiras lá no hospital? A da história do Tico e dos Lobos Maus?" Sim, eu era. Na verdade, sou. 
E o menino conheceu uma e depois outra de minhas cachorras petterapeutas. Afeiçoou-se a uma delas especialmente e era com alegria que abria os braços e aconchegava a cabeça da mascote eu seu peito franzino, quando retornávamos para fazer uma visita. O tempo passara mas a doença o acompanhara... Os pais pediram meu telefone e tiveram a certeza de que poderiam entrar em contato quando julgassem necessário. Por duas vezes eu e minhas companheiras fomos chamadas e contamos histórias, rimos , deixamos que Samantha colocasse as patas nas cobertas da cama e abrisse o seu "sorriso esganiçado de dentes", como o pequeno chamava.
Numa tarde, enquanto a mãe fazia um bolo, o pai saira para comprar suco (onde já se viu a gente não ter suco para a Bia???) ele me pergunta: Bia, o que é ficção? Após a explicação, faz comparações entre a ficção que poderia ser uma vida com saúde e a realidade que vivia. O bolo e o suco chegaram na hora exata... Por um tempo, brincamos de histórias criadas misturando ficção e realidade. Sempre nos despedíamos sem a promessa de retorno...bem como no hospital...
Há algumas horas o pai do menino ligou para combinar aquela que seria, provavelmente, nossa última visita. Eu e uma das "meninas" sairíamos de meu trabalho e seríamos levadas até o pequeno amigo. Nos preparamos para isso... mas na metade da tarde, já não havia mais tempo e foi com Alice ao lado, por telefone, que me despedi do amigo guerreiro. "Tu sabia, lá no hospital , que eu tinha câncer, né? A Alice taí? A Samantha? To muito cansado, hoje, sabe? Mas eu queria te dar tchau antes de dormir. Dá um beijo nelas, tá?"
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
É noite e nosso pequeno amigo já partiu...Escancarem alegremente as portas do céu, cantem, dancem, contem histórias (e uivem, porque ele adorava uivar junto)...Façam festa porque um grande carinha está chegando. O céu, qualquer que seja o seu endereço, está se tornando cada vez mais interessante...
Samuelzito...se encontrar meu padrinho por aí, manda um beijo e diz que eu estou tentando...estou tentando...
Inté!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

TURMA 204;





Vídeo feito por uma de minhas alunas em homenagem à turma que a acolheu. Que orgulho, pequena amazona!

sábado, 18 de novembro de 2017

Singelas contribuições àquele que, teoricamente, é o sapo

Jamais pensaria em retornar, neste ano, ao blog com tal postagem. Mas ... faz-se necessário. Então, vamos lá:



Reflita comigo...

No mínimo, "há duas possibilidades"... Se você é escorpião fadado a relembrar a fábula...vai matar o sapo e "tudo bem". Mas se você é o sapo...existem duas, duas possibilidades: Ou você acompanha, de forma resignada,  o destino imposto pela moral da história ou você inova mostrando novos conhecimentos.
Se você acompanha, de forma resignada...tudo bem. Mas se você inova...ah...aí existem muitas outras possibilidades:

Primeira: você está muito longe de ser ingênuo e já na primeira pergunta do "amigo escorpião" percebe quais as possibilidades que se apresentam. Afinal, você conhece um pouco sobre comportamento animal...e até mesmo sobre suas variações.

Segunda: Sabendo da primeira, mesmo assim, você abre o seu melhor sorriso e relembra o dito "o que tiver que ser será"

Terceira: Antes de colocar o "amiguinho" nas costas você recorre às mídias sociais: facebook, blogger, instagram. Avisa que estará dando carona ao escorpião. Talvez, até, mande um email para a amiga corujita relatando do caso...

Quarta: Por vários motivos, você já imaginava que a solicitação viria. E estava preparado. E aqui, existem mais algumas possibilidades:Você, cansado que estava e ciente que não conseguiria chegar na outra margem, resolve ir até o fundo da lagoa, mansamente...levando o escorpião junto.
Ou, você o deixa cair na lagoa e, antes de salvá-lo observa o seu susto e desespero, pensando que isso o fará reconsiderar ao seu propósito de "ferrar com quem o ajuda".

Quinta: você sabe que metros mais adiante há outro escorpião usando um barquinho para atravessar o lago. E, mesmo assim, o primeiro quer "estar com você". Você pode questionar essa estranha amizade entre os escorpiões. Que amigo é esse que não oferece carona em seu barco? ou, que amigo é esse que não pede para o seu mais próximo, uma ajudinha? 

Sexta: Você acha tão entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião que pensa "tanto trabalho só pra tentar me ferrar? Tá, sobe logo e vamos acabar com isso, Tenho coisas bem mais importantes a fazer antes de chegarmos na margem..."
Se você apenas acha entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião...tudo bem! Agora , se você considera que tem coisas  "bem mais importantes a fazer antes" de chegar na margem...ah!
Alegremente, vamos à sétima possibilidade...

Sétima: o primeiro escorpião, limitado pelas antiquadas idéias de "seguir a sua natureza" não observou bem para quem pedia a pretensa ajuda. Não percebeu que seu mundinho evoluiu e que, envolvido na pele de um sapo...estava outro escorpião que aprendeu a nadar.

Se você é o primeiro escorpião...tudo bem. Está resignado à moral da fábula.
Mas se você é o outro, pele de sapo envolvendo corpo e mente de outro escorpião....ah, com certeza, há INFINITAS POSSIBILIDADES.

E você? Sabe quem é? Aconselhável saber antes de tentar passar para o outro lado...da margem.

PS: Essa postagem foi escrita bem pertinho do livro "Quando nasce um monstro". 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pelos olhos de todos nós...



Eu sou um "saco"! E foi assim que comecei a perceber...
Dia de sol, sentei na frente da casa com uma das cachorras e fiquei aproveitando um tímido calor.
Pela rua,  um rapaz aparentando ter menos de trinta anos, se aproximou: mochila surrada nas costas, sapatos gastos e camiseta de manga comprida. (só pra situar, estamos no inverno e , nesta época, até o sol é cúmplice da estação...)
Pouco antes de sentar na varanda eu arrumara cuidadosamente os sacos de lixo e os colocara na calçada, à espera do recolhimento, mais tarde.
O rapaz , sem perceber minha presença, rasgou um dos sacos deixando cair metade de seu conteúdo no chão, enquanto procurava algum material que o interessasse. Não parecia nem um pouco preocupado com a sujeira que espalhava. E aí, começou o meu desconforto: ao ver sua ação, imediatamente , pensei "Puxa! Mas precisa rasgar e fazer essa lambança? Custava desamarrar o nó?"
Meu desagrado deve ter sido acompanhado de algum movimento pois ele virou e me enxergou. "Fechei a cara" tipo "estou vendo o que você está fazendo e não estou gostando!" Fui encarada por alguns segundos antes que a busca continuasse. Entretanto, ao encerrá-la, o rapaz buscou meus olhos e, cuidadosamente, recolocou o lixo no saco e fez das pontas que rasgara um nó. Abriu com estudada lentidão, para que eu acompanhasse, o outro saco  e fez a mesma busca. Nada o interessou e amarrou-o como o encontrara.
Certamente, já desanuviara meu semblante e esperava acompanhar a sua retirada silenciosa. E foi então que ele se aproximou das grades que separavam a varanda da calçada e me ofereceu os seus olhos. E li, nos pontos esverdeados daquele rosto,  uma compreensão que eu não tivera. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, insistiu no olhar , me informou e perguntou "Senhora...eu pedi na outra casa e  não puderam me dar... a senhora me consegue um copo d'água ?"
Então, junto com o bolo estranho na garganta veio uma imagem...e eu lembrei da Olga e de sabonetes...

Era na década de 90 e eu começara a trabalhar em minha nova função como assessora pedagógica na Ed. Infantil. Eu iria acompanhar o trabalho de nove escolas e creches na cidade. Minha primeira visita e participação foi em uma creche comunitária em uma vila da região norte de Porto Alegre. Olga, a coordenadora, me receberia. E recebeu. Embora, de uma forma peculiar.
Minha expectativa era grande: conhecer a coordenadora, que me relataria o trabalho que estava sendo realizado, mostraria o espaço, as turmas, as educadoras, as crianças...sentaríamos, eu perguntaria de que forma ela pensava que eu pudesse ajudar,  etc, etc...
Cheguei na creche com caderno e canetas novas, como uma ansiosa aluna, á espera de sua primeira aprendizagem formal. E o incrível é que foi...mas sem os acessórios típicos do que é formal. Ao abraçar-me na entrada, Olga segurou minhas mãos e me puxou para uma pequena sala já esclarecendo:
"Hoje é um dia daqueles, Bia! Não vou conseguir ficar em reunião contigo por muito tempo, viu?"
"?"
É o seguinte: morreu uma das moradoras  da vila e o velório está acontecendo... e tu sabes né...ela tá sendo velada aqui..."
"Aqui? Aqui, na creche? Com as crianças???"
"Não , Bia (suspirou pacientemente para mostrar a impaciência frente a minha lentidão de raciocínio...)... aqui ao lado. Todo mundo sabe que o salão da associação é ao lado da creche. Parede com parede, na verdade."
"É? Bem, eu não sabia... então, vais participar do velório, é isso?"
"Não. Na verdade eu te conto isso porque vais ouvir, quando fores ao refeitório comigo, o barulho das rezas e choros...Não há outro lugar pra que ela seja velada, sabe. Tem que ser na associação. É praxe. Eu já fui ali e já falei com a família, abracei todo mundo e lembrei que temos as crianças ao lado...Mas eu não vou poder ficar porque a esposa do meu marido está em casa, doente, e eu preciso ir até lá, medicá-la.
"Como???"
E Olga me explicou, com renovada paciência, que se juntara com o grande amor de sua vida, um caminhoneiro bem apessoado, segundo ela. Depois de um tempo, soubera que ele era casado. Em suas explicações e justificativas para ter omitido este pequeno detalhe durante anos, o companheiro de Olga falara que a esposa tinha câncer e depressão e que ele, embora não mais a amasse, jamais a abandonaria.
"E onde ela está?", perguntou Olga.
"Em Santa Catarina, morando com minha irmã que cuida dela, quando estou aqui no Rio Grande."
Então, traga pra cá. Para minha casa. Eu vou cuidar dela. Vamos viver os três..."
E assim foi, até o caminhoneiro bem apessoado ter um ataque cardíaco e deixar as duas. E sua companheira, ficou com a esposa Amália, cuidando, velando seu sono, acompanhando suas faltas de ar, levando-a para as consultas...
"Mas é bem pertinho, Bia. Vou lá, dou o remédio e volto. Menos de quatro quadras da vila..."
Neste momento eu já fechara o caderno, guardara a caneta e me tornara uma esponja, absorvendo o que me era exposto. E aprendendo a ouvir, esperar, silenciar, questionar em momentos específicos...
e ouvindo um coro específico:
"Pai nosso que estais no céu..."
"Bia, vou lá. Já volto. Tu ficas e vai conhecendo a creche. Bem que podes ir ao lado..."
"..santificado seja o vosso..."
"...cumprimentar a família . Pode ir. Eles são muito amigos da creche...nos ajudam bastante..."
"..nome. Venha a nós..."
" Certo, Olga. Mas prefiro ficar na creche e conhecer a família, se necessário, em outro momento, ok?"
Olga não era apenas uma coordenadora. Era uma líder comunitária, uma alma expandida que abraçava pessoas e animais em seus momentos de fragilidade.
Com ela e através dela, muito aprendi. E tive a oportunidade de retribuir compartilhando algumas questões. E o sabonete foi uma delas...o calcanhar de Aquiles de Olga...
As crianças  tinham uma alimentação adequada e bem preparada, tinham brinquedos, educadoras que as estimulavam, materiais para pintura, desenho, argila...Olga se orgulhava do trabalho realizado e da atenção e cuidado com as crianças da creche. Muitas vezes falava que todos eram orientados em relação à higiene e cuidados com as roupas e que os pais reconheciam e agradeciam por isso. Mas um menino do jardim B, novo na creche, morador da parte "mais longe, na divisa" não conseguia estar dentro dos padrões almejados pela coordenadora: suas roupas vinham sujas ou amarrotadas. Ela conversara com a mãe que sempre dava uma desculpa mas retornava a enviar o filho com roupas sujas e, na mochila, algumas, até úmidas.
"E sabonete, Bia...nem pensar! Ele não usa sabonete ao ir no banheiro. Sempre temos que relembrá-lo!"
"Ok, vocês o relembram...e ele, usa, depois?"
"Sim..."
"?"
"Sim! Mas não está certo, Bia! Já mandei até sabonete na mochila pra ele tomar banho, pra mãe lavar as roupas dele... e nada!"
"Mandou?"
"Sim!"
"Olga, onde ele mora?"
"Lá no fim da vila..."
"Conhece?"
"Já fui lá há alguns anos..."
" E se tu parasses de mandar sabonete, de questionar a mãe...e fosses fazer uma visita? se combinasse com ela...seria possível? O que achas?"
"Tá bom..."
E lá se foi, depois de alguns dias, a desafiada , intrigada pela minha sugestão.
Após a visita, ao relatar-me o que acontecera, Olga chorava ao lembrar do que vira e não imaginara:
O menino, seus irmãos e a mãe viviam no final de um beco onde a luz do sol não conseguia chegar. Não havia pátio ou espaço para que roupas fossem estendidas ao ar livre. Também não havia banheiro. O banho era tomado algumas casas adiante, pequenas peças, na verdade. A vizinha compartilhava o pouco espaço de seu banheiro para que as crianças  pudessem tomar  um banho que não fosse de "caneca". Mas a mãe das crianças tinha vergonha e não queria abusar.
"Por isso Bia, as roupas úmidas, amassadas, ... e a gente não imaginava... Eles não têm o hábito de usar sabonete onde moram, sabe. É artigo de luxo. E sabe de uma coisa? A mãe me olhou nos olhos e me contou que todos os sabonetes que recebia da creche, dava para a vizinha como forma de gratidão...Ela me olhou bem nos olhos e eu soube que ela sabia o que eu pensava...e que me perdoava...acho que nunca vou esquecer aquele olhar, sabe... a gente acha que faz um monte, que sabe tudo, a gente julga os outros, muitas vezes sem saber...eu me achava a última cerejinha do bolo, sabe, Bia? Mas, na verdade...eu sou um saco!"
Olga e eu , em nossas conversas futuras, desconstruímos esse sentimento de culpa, buscando efetivas ações para que nosso olhar fosse outro, mais perceptivo, mais abrangente e, como consequência, as crianças fossem beneficiadas com isso. Tenho orgulho de relembrar que conseguimos...


Então, o rapaz  olhou bem nos meus e eu soube que a maior compreensão vinha dele:
"Eu pedi água na casa lá da esquina mas eles disseram que não tinham como me dar..."
"Ok, eu vou lá buscar. Esperaí..." e no caminho para a cozinha fiquei pensando nos vizinhos, que provavelmente não queriam oferecer um de seus copos para o desconhecido. Peguei um copo, abri a geladeira e vi o suco de maracujá que eu fizera pela manhã. Peguei a garrafa e saí.
"Gosta de suco de maracujá? Quer?"
E ele não me respondeu de imediato pois olhava o  copo que eu oferecia.
Depois de segundos, afirmou que tomar um suco de maracujá seria uma benção. Enquanto eu, em silêncio aguardava, contou-me que não era morador de rua, que tinha um trabalho e que , depois de largar o seu turno, vinha pelas ruas procurando material para reciclar, para que pudesse aumentar sua renda.
"E a gente tem que ser rápido, sabe? Porque muitas vezes as pessoas nos xingam... Obrigado, senhora. Esse suco foi uma benção. Fique com Deus."
Devolveu-me o copo, olhou nos meus olhos mais uma vez e eu soube que me perdoou. E se foi, pelas ruas, buscando melhorar da forma possivel, sua vida.
E eu? Eu sou um saco... mas posso melhorar...
.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Foi-se...


Foi-se hoje, em uma das primeiras horas da manhã.
Foi-se a mansidão acomodada, por anos, em um corpo grande de Rottweiler.
Foi-se o olhar amoroso.
Foi-se o olhar temeroso das artimanhas de uma gata chamada Matha Hari...que sabia provocá-lo.
Foi-se o paciente Thor que aguardou o momento de se reunir à família, em um espaço que sua tutora sempre sonhou e buscou.
Foi-se, pela manhã, a confiança e generosidade em 4 patas.
Foi-se o Thor, que em seus últimos meses, brincou , cheirou grama, esperou ansiosamente sua tutora, todas as noites, para festejá-la e reafirmar o seu amor, interagiu confiantemente com seus manos caninos e dormiu, até a última madrugada ao lado de seu pai.
Foi-se a força e a serenidade ao demonstrá-la.
Foi-se o caminhar majestoso e intimidante para os que não o conheciam.
Foi-se o Thor  da dedicação, do amor pelos seus e da esperança de um eterno reencontro... (bem sei...)
Foi-se para o lugar onde era esperado . Foi festejado e acolhido, certamente. Deixa saudades e a certeza de que o aprendizado foi mútuo e importante.
Foi-se , com a Morte, viver em melhor lugar.
Fica bem, filhote!
Inté!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aos de abril

Acordei com o nome da intérprete martelando em minha memória: Leona Lewis. Leona Lewis, Leona Lewis... Busquei a intérprete, achei a música, relembrei uma foto e uma conversa na madrugada (foram muitas no período de 2006 a 2010...) Então, calculei mentalmente e percebi que hoje é "um dia antes de um belo 22"...
Escrevi , no Interdisciplinas, uma postagem sobre a querida  Iris

Foi em abril de 2000 que "nasceu" a Rádio Esmeralda, estrelada pela Adriana Marques e pela Simone Rasslan. A última vez que falei com Adriana foi frente ao prédio da SMED, onde trabalhamos. Vestia um casaco comprido marron e dava risadas de uma bobagem que eu dissera. 
Adriana, assim como a Íris, foi realizar outros trabalhos, além dessa vida.


Humberto Salla chegou nesse mundo em um abril . Partiu há pouco tempo, deixando para o seu companheiro Juliano, acredito,  a tarefa de ampliar a sua obra...

Os que partiram, certamente cumpriram suas tarefas. E aqui deixaram, filhos, netos, companheiros, alunos, amigos..
Se eu pensar apenas nessas 3 pessoas , Iris, Adriana e Humberto, consigo visualizar a gigantesca rede de afetos construída. Uma rede que se entrelaça com outras, que alcançam mais outras... Sim, a Íris iria adorar isso...trabalhava nisso, vivia transformando as diferentes redes desse mundo em trabalho, alegria, bom humor...em generosidade.
Humberto é aquele que escondia com suas vestes o coração fora do peito. Porque , sim, o peito era pequeno para tão grande coração.
Adriana... cantando, rindo e encantando.
Seria bem interessante se os 3 se encontrassem...ou reencontrassem, quem sabe.
Se a vida, atualmente, nos mostra que as dificuldades se agigantam e o que está por vir será complicado...apesar de tudo, ao relembrar desses três...tenho a certeza de que tudo tem a sua hora e lugar. E que vale a pena estar por aqui. Até breve, Iris! Inté, Humberto! Até, Adriana!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Eu não sei...


Em alguns momentos, é mais fácil dizer "não sei"...
Acordei pensando em várias coisas. Acordei "com cabeça de caleidoscópio"...
Entre várias, abri meus olhos matinais com a sensação de ter morrido e voltado: "ok, você tem mais um tempinho...vá lá e conserte as coisas..." Aí, realmente, acordei: acertar, consertar o quê??? Fazer o quê??? Dizer o quê???
Ser super sincera, talvez? Geralmente sou, excetuando momentos que percebo ser melhor ficar calada... pensando e observando...
Quem sabe, devo começar escrevendo sobre a "bronca" que tenho com a palavra "Gratidão", tão usada em redes sociais, em emails, reportagens, etc... Será? Não sei...
Mas antes da palavra ( e apenas isso mesmo...a palavra) relembro da pergunta feita em pouco espaço de tempo por duas pessoas a quem muito gosto e admiro . Ambas, de jeito e intensidade diferentes me perguntavam " Mas Bia...não achas que está na hora de parar? Mudar o foco?"
Qual é o meu foco? Alguém sabe? Eu sei?
Bom, se olhar a postagem anterior deste mesmo blog eu diria que sei. Mas um tempo já passou e agora, talvez deva dizer que já não sei...
Bem, vamos refletir sobre o uso da palavra Gratidão, inicialmente.
Há  tempos atrás, confidenciei à Adri, uma de minhas fiéis amigas, que ler Gratidão, Gratidão, Gratidão, nas redes, me incomodava. Sinto falta do pronome aí, sabe... Do pronome pessoal: EU. Eu agradeço. Eu te agradeço. Eu te agradeço por isso, isso e isso...
Tenho a impressão, usando a lógica do simples uso dessa palavra , que poderia entrar em uma lanchonete e dizer a um atendente: "Fome" E ele responderia "Pizza? Sanduíche? Suco? Refri?" "Pizza . Calabresa ... Suco. Abacaxi...Quanto?"
Ao pagar, talvez dissesse "Gratidão".
Então eu penso sobre a tal  da rapidez, da necessidade de nos comunicarmos  com o maior número de pessoas (leitores , expectadores, seguidores...)  Conheço pessoas maravilhosas que fecham suas postagens com a Gratidão. E conhecendo-as pessoalmente , sei de todo o sentimento e significado generoso e de reconhecimento que trazem na escrita dessa palavra. Ela se transforma e, sim, é a manifestação de um genuíno sentimento. "Enxugam" as palavras, as frases com a percepção de que a escrita da única , basta. Ok, percebo e funciona.
Mas também observo que, para alguns é muito mais fácil usar uma , talvez, falta de comprometimento...na verdade não consigo dizer "obrigada por isso, por isso e mais isso... porque , se o fizer, vou  me comprometer ou, simplesmente, porque não aprendi a agradecer olhando nos olhos, dando aquele abraço e dizendo "conta comigo"... Estarei louca? Mas quando leio Gratidão estampada nas postagens de algumas pessoas que conheço fico pensando e repensando...
rs Acho mesmo que morri e estou na antesala de alguma coisa, esperando a minha vez de ser chamada. Para "matar" o tempo, os Anjos (minha esperança é que sejam...) me ofereceram a oportunidade de escrever pela última vez em meu blog.  Acho que devo olhar para eles, sorrir e dizer "Gratidão", afinal são Anjos e me acompanham há tempos. não necessito explicar nada...
Há algum tempo atrás, pensei ser professora de Português. Desisti. Mas admiro essa turma, que sim, considero heróica.
"Quem não se comunica, se trumbica. " Essa frase é do Cacrinha, não é?
E a gente se comunica, como? Mas eu preciso pensar sobre isso? Agora? na antesala do "alguma coisa"? Não sei...
O que sei é que tenho o sentimento de inacabado. A percepção de que posso fazer alguma coisa...e o que eu posso fazer está relacionado intimamente com o OUTRO. E, fazendo com e pelo outro, faço por mim. Porque, talvez, eu seja isso mesmo: uma parte incompleta que busca caminhar ereta. E a tal da, digamos completude, se dá quando compartilho o que sei, o que penso, o que desejo, o que sonho com alguém...e quando isso faz diferença.
"o que sei, o que penso..." oras, então eu sei, não é? Não sei se sei...
Sou incompleta, inacabada mesmo, mal humorada, bem humorada, insistente, alegre , triste, solitária na multidão (e gostando de ser), ...lembro da Sandra e das meninas amigas de minha antiga escola e penso na frase "é difícil evoluir..." rs
Agora eu percebo que já morri, mesmo. E que a "antesala de ..." é aqui em casa, onde estou, sentada ao lado da Nith, da Samantha, ouvindo Loreena McKennitt e escrevendo em meu notebook. Já morri diversas vezes e sei que muitas outras virão. Afinal, precisamos evoluir, não é?
E o que eu faço, o foco, a falta de foco, a insistencia, o silêncio, a observação o sentimento de impotência por vezes...tudo isso faz parte de meu aprendizado "nessa lição".
Interessante ter certezas e dúvidas...e entrelaçá-las...
Eu agradeço por ter amigas que me entendem e me atendem. Eu agradeço por trabalhar com o que gosto, tendo prazer . diariamente. Agradeço  por eu ter o que acredito que me sustenta em momentos chatos, complicados ...agradeço por ter Fé. Espero, que como os Anjos, nunca me abandone. "Vamoquevamo", como diz a Juli.
rs Mas aí, releio o que escrevi e penso "mas eu sei ser uma peste, também..." Bom... existe a possibilidade de evolução... Vamos trabalhar nisso...
Acho que , agora aos costumes, vou telefonar para Vainir... afinal, amigas já aposentadas são para isso também, não é? Ouvir as elucubrações alheias, com afeto e tolerância, nas horas mais estapafurdias. (mas agora, nem é...) rs Vainir!!! Atende aí!!!

PS: Mas não posso deixar de roubar a idéia da Carmen, outra querida amiga: depois que sair da antesala, ao ser chamada pelo "Coordenador dos Trabalhos" , vou puxar um banquinho, sentar, olhar firmemente e perguntar "Mas Senhor...pra que tanta bagunça, lá embaixo? Não daria para facilitar um pouco...?" Putz! Lá vou eu evoluir , outra vez! Faz parte.

terça-feira, 1 de março de 2016

"Para onde eles vão"



Escolhi escrever ouvindo Halo, da Beyoncé... gosto desta melodia, relembro um clipe onde ela canta para os internos de um hospital. 

Mas relembro dela e de sua voz apenas como introdução. O que me "martela a cabeça", neste momento, é uma cena e uma pergunta. A cena é do filme Temple Grandin onde a própria, ao presenciar a chocante cena do abate de uma vaca, no matadouro, pergunta "Pra onde eles vão? Pra onde eles vão?"

Temple, para quem não sabe, não é apenas personagem de seu filme: ela é uma estudiosa, importante referência nos EUA e no mundo ... Temple Grandin é autista e suas contribuições são reconhecidas internacionalmente. Mas, agora, o mais importante é o "Para onde eles vão???"
"Para onde eles vão" pode servir para quem parte mas, de outra forma, também para quem fica... Para onde eles vão? Para onde nós vamos?
Fevereiro foi um mês punk...Começou com celebração à Vida, com despedidas da própria, com testemunhos de intolerância e violência... Para onde estamos indo?
Aqui no RS, no momento, temos um governo incompetente , entrelaçado com omissão, descaso pela população e  uma gigantesca insensibilidade: o governador e seus escolhidos não sabem , não desejam e nem cogitam "se colocar no lugar do outro", para sentir o que não sabem... Como disse, ao ser entrevistado, a pessoa que ocupa o lugar de Secretário da Segurança ..."não vou nessas vilas..." O repórter perguntara se ele suporia abandonar sua escolta de segurança e ir até uma das vilas de Porto Alegre, marcadas pela violência. Infelizmente, sua resposta mostra o despreparo , a insensibilidade de alguém que só deseja se dar bem. Os outros que se "lixem". Qual foi mesmo uma das primeiras ações do novo governador ao assumir ? Aumentar o seu, do vice e outros salários... ação que foi revista depois, devido à repercussão na mídia. Acreditam que foi revista, mesmo? Que privilégios "para os seus" não foram distribuídos?
Bem...mas volto à pergunta inicial..."Pra onde eles vão?"

'
Penso e repenso ao lembrar de uma pessoa chamada Humberto, de outra chamada Íris, de mais uma chamada Mara, de um pequenino cuspidor lá da escola onde trabalhei, de uma amada adolescente, aluna de minha turma de estágio... penso na Dora, que tanta falta faz para uma de minhas queridas amigas...penso na mãe da Regi, na minha mãe, na mãe da Juli... Então relembro de meu padrinho e da absoluta certeza que tive de que sua partida se realizara porque ele não aguentaria viver no mundo para onde estamos indo. Sua saída se efetivou com o propósito de preservar sua gentileza, sua sensibilidade exacerbada... acho que para poupá-lo.

Minha madrinha, sua companheira por mais de 50 anos, confidenciou-me, sentada em sua cama, meses depois da morte de seu companheiro: "Doca, ontem teu padrinho veio até aqui. Ele sentou nessa cama e me disse que em breve vem me buscar..." Naquele momento, dei umas batidinhas consoladoras na mão enrugada à minha frente dizendo que  não pensasse naquilo, que ainda tinha um tempo conosco, com seu filho, com seus netos...que em breve, sim, faria uma viagem para passar o Natal com todos eles...que a Vida continuava e que meu padrinho , certamente, desejava que estivesse em paz. Três dias depois, na noite de Natal , ela se despedia dos netos e filho dizendo que estava cansada e ia tirar um cochilo. Dormiu e não mais acordou entre nós. Se foi, como o prometido.

" Para onde eles vão?"

Ação e reação... para onde vamos está ligado intimamente com nossas ações, com o que fizemos e com o que representamos.
Olho as pombas enfileiradas no fio de um poste em frente à janela de meu quarto e lembro da Íris e da conversa que teve , no PEAD, comigo e com a Iliana... As abelhas e as pombas (e os filhotes de pombas por mim jamais vistos) sempre me lembrarão da risada de nossa querida mestra e dos seus comentários bem-humorados. Mas lembrarei, em outros momentos de sua suave elegância e de sua grande generosidade .
Não estou triste, aviso. Estou apenas saudosa...saudosa de quem conheci e foi importante em minha jornada...das pessoas que, de diferentes formas, me ajudaram a crescer, a me transformar em quem sou.  Para onde elas foram? Para um lugar  melhor, certamente. Porque era chegada a hora de sua partida, porque seus serviços, sua experiência, sua generosidade, sua capacidade de transformar...eram necessários e solicitados em outros lugares.
E nós, que ficamos? Para onde vamos?
A resposta é outra...ficamos porque ainda temos que aprender, compartilhar, errar, acertar, perdoar, sermos perdoados... ficamos porque não chegou nosso grande momento. E quando ele chegar...que seja pleno, belo e justificado.
Penso nas memórias que temos ou perdemos e lembro de mães que não conheci ...mas de suas filhas com quem convivi (e ainda convivo) Penso na Regi, na Juli e na capacidade que ambas possuem de perpetuar a Vida através do que aprenderam, através de suas filhas, netos...através de incontáveis atos de generosidade e sensibilidade...
Penso na Val e em sua força através de aparente fragilidade...na sua tristeza neste momento...e desejo que fique bem...que continue celebrando a Vida com bom humor...com alegria, acompanhando sua pequena...
"Para onde eles vão?" Para onde forem necessários...