sábado, 30 de dezembro de 2017

Inté!

Em uma das cenas do filme de Temple Grandin, ela pergunta insistentemente "Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Quem me conhece um pouco sabe da influência de meu padrinho em minha trajetória: desde a lição do arbusto até o requinte de fazer um gráfico para explicar-me (em meus 10 anos) como lidar com pessoas inconvenientes, no meu futuro.
Justifiquei sua partida através de uma constatação: era uma pessoa tão especial que não conseguiria suportar viver em um mundo em declínio. Foi para outra dimensão, auxiliar quem precisava...como eu precisei. Simplista justificativa...mas funcionou por um bom tempo.
Há poucos dias eu conversava com a mãe de uma ex-aluna, via facebook. E tentava confortar sua dor e incompreensão por conta da morte de sua pequena mascote canina. E embora ela insistisse em reafirmar esses sentimentos eu, por outro lado, falava da certeza que tinha de que a cachorrinha completara um ciclo necessário...e depois, se fora.
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
Anos atrás, abri a porta de um quarto em um hospital infantil e perguntei "Tem alguém aí, que quer ouvir história?" Tinha. Um menino e seus pais.Voltei por muitas quintas à noite para contar histórias para ele e outros. Mas como boa e bem treinada voluntária eu sabia que jamais deveríamos perguntar sobre motivos da internação, saúde, etc. Simplesmente, entrávamos e contávamos histórias. E talvez, nos encontrássemos depois. Eu nunca perguntava o que pensava ao entrar e perceber o vazio de um quarto ... 
Um dia, anos depois, ao levar uma de minhas bibliopetterapeutas em uma escola fui reencontrada por aquele menino: "tu não é aquela que contava histórias e assustava as enfermeiras lá no hospital? A da história do Tico e dos Lobos Maus?" Sim, eu era. Na verdade, sou. 
E o menino conheceu uma e depois outra de minhas cachorras petterapeutas. Afeiçoou-se a uma delas especialmente e era com alegria que abria os braços e aconchegava a cabeça da mascote eu seu peito franzino, quando retornávamos para fazer uma visita. O tempo passara mas a doença o acompanhara... Os pais pediram meu telefone e tiveram a certeza de que poderiam entrar em contato quando julgassem necessário. Por duas vezes eu e minhas companheiras fomos chamadas e contamos histórias, rimos , deixamos que Samantha colocasse as patas nas cobertas da cama e abrisse o seu "sorriso esganiçado de dentes", como o pequeno chamava.
Numa tarde, enquanto a mãe fazia um bolo, o pai saira para comprar suco (onde já se viu a gente não ter suco para a Bia???) ele me pergunta: Bia, o que é ficção? Após a explicação, faz comparações entre a ficção que poderia ser uma vida com saúde e a realidade que vivia. O bolo e o suco chegaram na hora exata... Por um tempo, brincamos de histórias criadas misturando ficção e realidade. Sempre nos despedíamos sem a promessa de retorno...bem como no hospital...
Há algumas horas o pai do menino ligou para combinar aquela que seria, provavelmente, nossa última visita. Eu e uma das "meninas" sairíamos de meu trabalho e seríamos levadas até o pequeno amigo. Nos preparamos para isso... mas na metade da tarde, já não havia mais tempo e foi com Alice ao lado, por telefone, que me despedi do amigo guerreiro. "Tu sabia, lá no hospital , que eu tinha câncer, né? A Alice taí? A Samantha? To muito cansado, hoje, sabe? Mas eu queria te dar tchau antes de dormir. Dá um beijo nelas, tá?"
"Para onde eles vão? Para onde eles vão?"
É noite e nosso pequeno amigo já partiu...Escancarem alegremente as portas do céu, cantem, dancem, contem histórias (e uivem, porque ele adorava uivar junto)...Façam festa porque um grande carinha está chegando. O céu, qualquer que seja o seu endereço, está se tornando cada vez mais interessante...
Samuelzito...se encontrar meu padrinho por aí, manda um beijo e diz que eu estou tentando...estou tentando...
Inté!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

TURMA 204;





Vídeo feito por uma de minhas alunas em homenagem à turma que a acolheu. Que orgulho, pequena amazona!

sábado, 18 de novembro de 2017

Singelas contribuições àquele que, teoricamente, é o sapo

Jamais pensaria em retornar, neste ano, ao blog com tal postagem. Mas ... faz-se necessário. Então, vamos lá:



Reflita comigo...

No mínimo, "há duas possibilidades"... Se você é escorpião fadado a relembrar a fábula...vai matar o sapo e "tudo bem". Mas se você é o sapo...existem duas, duas possibilidades: Ou você acompanha, de forma resignada,  o destino imposto pela moral da história ou você inova mostrando novos conhecimentos.
Se você acompanha, de forma resignada...tudo bem. Mas se você inova...ah...aí existem muitas outras possibilidades:

Primeira: você está muito longe de ser ingênuo e já na primeira pergunta do "amigo escorpião" percebe quais as possibilidades que se apresentam. Afinal, você conhece um pouco sobre comportamento animal...e até mesmo sobre suas variações.

Segunda: Sabendo da primeira, mesmo assim, você abre o seu melhor sorriso e relembra o dito "o que tiver que ser será"

Terceira: Antes de colocar o "amiguinho" nas costas você recorre às mídias sociais: facebook, blogger, instagram. Avisa que estará dando carona ao escorpião. Talvez, até, mande um email para a amiga corujita relatando do caso...

Quarta: Por vários motivos, você já imaginava que a solicitação viria. E estava preparado. E aqui, existem mais algumas possibilidades:Você, cansado que estava e ciente que não conseguiria chegar na outra margem, resolve ir até o fundo da lagoa, mansamente...levando o escorpião junto.
Ou, você o deixa cair na lagoa e, antes de salvá-lo observa o seu susto e desespero, pensando que isso o fará reconsiderar ao seu propósito de "ferrar com quem o ajuda".

Quinta: você sabe que metros mais adiante há outro escorpião usando um barquinho para atravessar o lago. E, mesmo assim, o primeiro quer "estar com você". Você pode questionar essa estranha amizade entre os escorpiões. Que amigo é esse que não oferece carona em seu barco? ou, que amigo é esse que não pede para o seu mais próximo, uma ajudinha? 

Sexta: Você acha tão entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião que pensa "tanto trabalho só pra tentar me ferrar? Tá, sobe logo e vamos acabar com isso, Tenho coisas bem mais importantes a fazer antes de chegarmos na margem..."
Se você apenas acha entediante e ridícula a atitude e dissimulação do escorpião...tudo bem! Agora , se você considera que tem coisas  "bem mais importantes a fazer antes" de chegar na margem...ah!
Alegremente, vamos à sétima possibilidade...

Sétima: o primeiro escorpião, limitado pelas antiquadas idéias de "seguir a sua natureza" não observou bem para quem pedia a pretensa ajuda. Não percebeu que seu mundinho evoluiu e que, envolvido na pele de um sapo...estava outro escorpião que aprendeu a nadar.

Se você é o primeiro escorpião...tudo bem. Está resignado à moral da fábula.
Mas se você é o outro, pele de sapo envolvendo corpo e mente de outro escorpião....ah, com certeza, há INFINITAS POSSIBILIDADES.

E você? Sabe quem é? Aconselhável saber antes de tentar passar para o outro lado...da margem.

PS: Essa postagem foi escrita bem pertinho do livro "Quando nasce um monstro". 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pelos olhos de todos nós...



Eu sou um "saco"! E foi assim que comecei a perceber...
Dia de sol, sentei na frente da casa com uma das cachorras e fiquei aproveitando um tímido calor.
Pela rua,  um rapaz aparentando ter menos de trinta anos, se aproximou: mochila surrada nas costas, sapatos gastos e camiseta de manga comprida. (só pra situar, estamos no inverno e , nesta época, até o sol é cúmplice da estação...)
Pouco antes de sentar na varanda eu arrumara cuidadosamente os sacos de lixo e os colocara na calçada, à espera do recolhimento, mais tarde.
O rapaz , sem perceber minha presença, rasgou um dos sacos deixando cair metade de seu conteúdo no chão, enquanto procurava algum material que o interessasse. Não parecia nem um pouco preocupado com a sujeira que espalhava. E aí, começou o meu desconforto: ao ver sua ação, imediatamente , pensei "Puxa! Mas precisa rasgar e fazer essa lambança? Custava desamarrar o nó?"
Meu desagrado deve ter sido acompanhado de algum movimento pois ele virou e me enxergou. "Fechei a cara" tipo "estou vendo o que você está fazendo e não estou gostando!" Fui encarada por alguns segundos antes que a busca continuasse. Entretanto, ao encerrá-la, o rapaz buscou meus olhos e, cuidadosamente, recolocou o lixo no saco e fez das pontas que rasgara um nó. Abriu com estudada lentidão, para que eu acompanhasse, o outro saco  e fez a mesma busca. Nada o interessou e amarrou-o como o encontrara.
Certamente, já desanuviara meu semblante e esperava acompanhar a sua retirada silenciosa. E foi então que ele se aproximou das grades que separavam a varanda da calçada e me ofereceu os seus olhos. E li, nos pontos esverdeados daquele rosto,  uma compreensão que eu não tivera. E antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, insistiu no olhar , me informou e perguntou "Senhora...eu pedi na outra casa e  não puderam me dar... a senhora me consegue um copo d'água ?"
Então, junto com o bolo estranho na garganta veio uma imagem...e eu lembrei da Olga e de sabonetes...

Era na década de 90 e eu começara a trabalhar em minha nova função como assessora pedagógica na Ed. Infantil. Eu iria acompanhar o trabalho de nove escolas e creches na cidade. Minha primeira visita e participação foi em uma creche comunitária em uma vila da região norte de Porto Alegre. Olga, a coordenadora, me receberia. E recebeu. Embora, de uma forma peculiar.
Minha expectativa era grande: conhecer a coordenadora, que me relataria o trabalho que estava sendo realizado, mostraria o espaço, as turmas, as educadoras, as crianças...sentaríamos, eu perguntaria de que forma ela pensava que eu pudesse ajudar,  etc, etc...
Cheguei na creche com caderno e canetas novas, como uma ansiosa aluna, á espera de sua primeira aprendizagem formal. E o incrível é que foi...mas sem os acessórios típicos do que é formal. Ao abraçar-me na entrada, Olga segurou minhas mãos e me puxou para uma pequena sala já esclarecendo:
"Hoje é um dia daqueles, Bia! Não vou conseguir ficar em reunião contigo por muito tempo, viu?"
"?"
É o seguinte: morreu uma das moradoras  da vila e o velório está acontecendo... e tu sabes né...ela tá sendo velada aqui..."
"Aqui? Aqui, na creche? Com as crianças???"
"Não , Bia (suspirou pacientemente para mostrar a impaciência frente a minha lentidão de raciocínio...)... aqui ao lado. Todo mundo sabe que o salão da associação é ao lado da creche. Parede com parede, na verdade."
"É? Bem, eu não sabia... então, vais participar do velório, é isso?"
"Não. Na verdade eu te conto isso porque vais ouvir, quando fores ao refeitório comigo, o barulho das rezas e choros...Não há outro lugar pra que ela seja velada, sabe. Tem que ser na associação. É praxe. Eu já fui ali e já falei com a família, abracei todo mundo e lembrei que temos as crianças ao lado...Mas eu não vou poder ficar porque a esposa do meu marido está em casa, doente, e eu preciso ir até lá, medicá-la.
"Como???"
E Olga me explicou, com renovada paciência, que se juntara com o grande amor de sua vida, um caminhoneiro bem apessoado, segundo ela. Depois de um tempo, soubera que ele era casado. Em suas explicações e justificativas para ter omitido este pequeno detalhe durante anos, o companheiro de Olga falara que a esposa tinha câncer e depressão e que ele, embora não mais a amasse, jamais a abandonaria.
"E onde ela está?", perguntou Olga.
"Em Santa Catarina, morando com minha irmã que cuida dela, quando estou aqui no Rio Grande."
Então, traga pra cá. Para minha casa. Eu vou cuidar dela. Vamos viver os três..."
E assim foi, até o caminhoneiro bem apessoado ter um ataque cardíaco e deixar as duas. E sua companheira, ficou com a esposa Amália, cuidando, velando seu sono, acompanhando suas faltas de ar, levando-a para as consultas...
"Mas é bem pertinho, Bia. Vou lá, dou o remédio e volto. Menos de quatro quadras da vila..."
Neste momento eu já fechara o caderno, guardara a caneta e me tornara uma esponja, absorvendo o que me era exposto. E aprendendo a ouvir, esperar, silenciar, questionar em momentos específicos...
e ouvindo um coro específico:
"Pai nosso que estais no céu..."
"Bia, vou lá. Já volto. Tu ficas e vai conhecendo a creche. Bem que podes ir ao lado..."
"..santificado seja o vosso..."
"...cumprimentar a família . Pode ir. Eles são muito amigos da creche...nos ajudam bastante..."
"..nome. Venha a nós..."
" Certo, Olga. Mas prefiro ficar na creche e conhecer a família, se necessário, em outro momento, ok?"
Olga não era apenas uma coordenadora. Era uma líder comunitária, uma alma expandida que abraçava pessoas e animais em seus momentos de fragilidade.
Com ela e através dela, muito aprendi. E tive a oportunidade de retribuir compartilhando algumas questões. E o sabonete foi uma delas...o calcanhar de Aquiles de Olga...
As crianças  tinham uma alimentação adequada e bem preparada, tinham brinquedos, educadoras que as estimulavam, materiais para pintura, desenho, argila...Olga se orgulhava do trabalho realizado e da atenção e cuidado com as crianças da creche. Muitas vezes falava que todos eram orientados em relação à higiene e cuidados com as roupas e que os pais reconheciam e agradeciam por isso. Mas um menino do jardim B, novo na creche, morador da parte "mais longe, na divisa" não conseguia estar dentro dos padrões almejados pela coordenadora: suas roupas vinham sujas ou amarrotadas. Ela conversara com a mãe que sempre dava uma desculpa mas retornava a enviar o filho com roupas sujas e, na mochila, algumas, até úmidas.
"E sabonete, Bia...nem pensar! Ele não usa sabonete ao ir no banheiro. Sempre temos que relembrá-lo!"
"Ok, vocês o relembram...e ele, usa, depois?"
"Sim..."
"?"
"Sim! Mas não está certo, Bia! Já mandei até sabonete na mochila pra ele tomar banho, pra mãe lavar as roupas dele... e nada!"
"Mandou?"
"Sim!"
"Olga, onde ele mora?"
"Lá no fim da vila..."
"Conhece?"
"Já fui lá há alguns anos..."
" E se tu parasses de mandar sabonete, de questionar a mãe...e fosses fazer uma visita? se combinasse com ela...seria possível? O que achas?"
"Tá bom..."
E lá se foi, depois de alguns dias, a desafiada , intrigada pela minha sugestão.
Após a visita, ao relatar-me o que acontecera, Olga chorava ao lembrar do que vira e não imaginara:
O menino, seus irmãos e a mãe viviam no final de um beco onde a luz do sol não conseguia chegar. Não havia pátio ou espaço para que roupas fossem estendidas ao ar livre. Também não havia banheiro. O banho era tomado algumas casas adiante, pequenas peças, na verdade. A vizinha compartilhava o pouco espaço de seu banheiro para que as crianças  pudessem tomar  um banho que não fosse de "caneca". Mas a mãe das crianças tinha vergonha e não queria abusar.
"Por isso Bia, as roupas úmidas, amassadas, ... e a gente não imaginava... Eles não têm o hábito de usar sabonete onde moram, sabe. É artigo de luxo. E sabe de uma coisa? A mãe me olhou nos olhos e me contou que todos os sabonetes que recebia da creche, dava para a vizinha como forma de gratidão...Ela me olhou bem nos olhos e eu soube que ela sabia o que eu pensava...e que me perdoava...acho que nunca vou esquecer aquele olhar, sabe... a gente acha que faz um monte, que sabe tudo, a gente julga os outros, muitas vezes sem saber...eu me achava a última cerejinha do bolo, sabe, Bia? Mas, na verdade...eu sou um saco!"
Olga e eu , em nossas conversas futuras, desconstruímos esse sentimento de culpa, buscando efetivas ações para que nosso olhar fosse outro, mais perceptivo, mais abrangente e, como consequência, as crianças fossem beneficiadas com isso. Tenho orgulho de relembrar que conseguimos...


Então, o rapaz  olhou bem nos meus e eu soube que a maior compreensão vinha dele:
"Eu pedi água na casa lá da esquina mas eles disseram que não tinham como me dar..."
"Ok, eu vou lá buscar. Esperaí..." e no caminho para a cozinha fiquei pensando nos vizinhos, que provavelmente não queriam oferecer um de seus copos para o desconhecido. Peguei um copo, abri a geladeira e vi o suco de maracujá que eu fizera pela manhã. Peguei a garrafa e saí.
"Gosta de suco de maracujá? Quer?"
E ele não me respondeu de imediato pois olhava o  copo que eu oferecia.
Depois de segundos, afirmou que tomar um suco de maracujá seria uma benção. Enquanto eu, em silêncio aguardava, contou-me que não era morador de rua, que tinha um trabalho e que , depois de largar o seu turno, vinha pelas ruas procurando material para reciclar, para que pudesse aumentar sua renda.
"E a gente tem que ser rápido, sabe? Porque muitas vezes as pessoas nos xingam... Obrigado, senhora. Esse suco foi uma benção. Fique com Deus."
Devolveu-me o copo, olhou nos meus olhos mais uma vez e eu soube que me perdoou. E se foi, pelas ruas, buscando melhorar da forma possivel, sua vida.
E eu? Eu sou um saco... mas posso melhorar...
.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

Foi-se...


Foi-se hoje, em uma das primeiras horas da manhã.
Foi-se a mansidão acomodada, por anos, em um corpo grande de Rottweiler.
Foi-se o olhar amoroso.
Foi-se o olhar temeroso das artimanhas de uma gata chamada Matha Hari...que sabia provocá-lo.
Foi-se o paciente Thor que aguardou o momento de se reunir à família, em um espaço que sua tutora sempre sonhou e buscou.
Foi-se, pela manhã, a confiança e generosidade em 4 patas.
Foi-se o Thor, que em seus últimos meses, brincou , cheirou grama, esperou ansiosamente sua tutora, todas as noites, para festejá-la e reafirmar o seu amor, interagiu confiantemente com seus manos caninos e dormiu, até a última madrugada ao lado de seu pai.
Foi-se a força e a serenidade ao demonstrá-la.
Foi-se o caminhar majestoso e intimidante para os que não o conheciam.
Foi-se o Thor  da dedicação, do amor pelos seus e da esperança de um eterno reencontro... (bem sei...)
Foi-se para o lugar onde era esperado . Foi festejado e acolhido, certamente. Deixa saudades e a certeza de que o aprendizado foi mútuo e importante.
Foi-se , com a Morte, viver em melhor lugar.
Fica bem, filhote!
Inté!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aos de abril

Acordei com o nome da intérprete martelando em minha memória: Leona Lewis. Leona Lewis, Leona Lewis... Busquei a intérprete, achei a música, relembrei uma foto e uma conversa na madrugada (foram muitas no período de 2006 a 2010...) Então, calculei mentalmente e percebi que hoje é "um dia antes de um belo 22"...
Escrevi , no Interdisciplinas, uma postagem sobre a querida  Iris

Foi em abril de 2000 que "nasceu" a Rádio Esmeralda, estrelada pela Adriana Marques e pela Simone Rasslan. A última vez que falei com Adriana foi frente ao prédio da SMED, onde trabalhamos. Vestia um casaco comprido marron e dava risadas de uma bobagem que eu dissera. 
Adriana, assim como a Íris, foi realizar outros trabalhos, além dessa vida.


Humberto Salla chegou nesse mundo em um abril . Partiu há pouco tempo, deixando para o seu companheiro Juliano, acredito,  a tarefa de ampliar a sua obra...

Os que partiram, certamente cumpriram suas tarefas. E aqui deixaram, filhos, netos, companheiros, alunos, amigos..
Se eu pensar apenas nessas 3 pessoas , Iris, Adriana e Humberto, consigo visualizar a gigantesca rede de afetos construída. Uma rede que se entrelaça com outras, que alcançam mais outras... Sim, a Íris iria adorar isso...trabalhava nisso, vivia transformando as diferentes redes desse mundo em trabalho, alegria, bom humor...em generosidade.
Humberto é aquele que escondia com suas vestes o coração fora do peito. Porque , sim, o peito era pequeno para tão grande coração.
Adriana... cantando, rindo e encantando.
Seria bem interessante se os 3 se encontrassem...ou reencontrassem, quem sabe.
Se a vida, atualmente, nos mostra que as dificuldades se agigantam e o que está por vir será complicado...apesar de tudo, ao relembrar desses três...tenho a certeza de que tudo tem a sua hora e lugar. E que vale a pena estar por aqui. Até breve, Iris! Inté, Humberto! Até, Adriana!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Eu não sei...


Em alguns momentos, é mais fácil dizer "não sei"...
Acordei pensando em várias coisas. Acordei "com cabeça de caleidoscópio"...
Entre várias, abri meus olhos matinais com a sensação de ter morrido e voltado: "ok, você tem mais um tempinho...vá lá e conserte as coisas..." Aí, realmente, acordei: acertar, consertar o quê??? Fazer o quê??? Dizer o quê???
Ser super sincera, talvez? Geralmente sou, excetuando momentos que percebo ser melhor ficar calada... pensando e observando...
Quem sabe, devo começar escrevendo sobre a "bronca" que tenho com a palavra "Gratidão", tão usada em redes sociais, em emails, reportagens, etc... Será? Não sei...
Mas antes da palavra ( e apenas isso mesmo...a palavra) relembro da pergunta feita em pouco espaço de tempo por duas pessoas a quem muito gosto e admiro . Ambas, de jeito e intensidade diferentes me perguntavam " Mas Bia...não achas que está na hora de parar? Mudar o foco?"
Qual é o meu foco? Alguém sabe? Eu sei?
Bom, se olhar a postagem anterior deste mesmo blog eu diria que sei. Mas um tempo já passou e agora, talvez deva dizer que já não sei...
Bem, vamos refletir sobre o uso da palavra Gratidão, inicialmente.
Há  tempos atrás, confidenciei à Adri, uma de minhas fiéis amigas, que ler Gratidão, Gratidão, Gratidão, nas redes, me incomodava. Sinto falta do pronome aí, sabe... Do pronome pessoal: EU. Eu agradeço. Eu te agradeço. Eu te agradeço por isso, isso e isso...
Tenho a impressão, usando a lógica do simples uso dessa palavra , que poderia entrar em uma lanchonete e dizer a um atendente: "Fome" E ele responderia "Pizza? Sanduíche? Suco? Refri?" "Pizza . Calabresa ... Suco. Abacaxi...Quanto?"
Ao pagar, talvez dissesse "Gratidão".
Então eu penso sobre a tal  da rapidez, da necessidade de nos comunicarmos  com o maior número de pessoas (leitores , expectadores, seguidores...)  Conheço pessoas maravilhosas que fecham suas postagens com a Gratidão. E conhecendo-as pessoalmente , sei de todo o sentimento e significado generoso e de reconhecimento que trazem na escrita dessa palavra. Ela se transforma e, sim, é a manifestação de um genuíno sentimento. "Enxugam" as palavras, as frases com a percepção de que a escrita da única , basta. Ok, percebo e funciona.
Mas também observo que, para alguns é muito mais fácil usar uma , talvez, falta de comprometimento...na verdade não consigo dizer "obrigada por isso, por isso e mais isso... porque , se o fizer, vou  me comprometer ou, simplesmente, porque não aprendi a agradecer olhando nos olhos, dando aquele abraço e dizendo "conta comigo"... Estarei louca? Mas quando leio Gratidão estampada nas postagens de algumas pessoas que conheço fico pensando e repensando...
rs Acho mesmo que morri e estou na antesala de alguma coisa, esperando a minha vez de ser chamada. Para "matar" o tempo, os Anjos (minha esperança é que sejam...) me ofereceram a oportunidade de escrever pela última vez em meu blog.  Acho que devo olhar para eles, sorrir e dizer "Gratidão", afinal são Anjos e me acompanham há tempos. não necessito explicar nada...
Há algum tempo atrás, pensei ser professora de Português. Desisti. Mas admiro essa turma, que sim, considero heróica.
"Quem não se comunica, se trumbica. " Essa frase é do Cacrinha, não é?
E a gente se comunica, como? Mas eu preciso pensar sobre isso? Agora? na antesala do "alguma coisa"? Não sei...
O que sei é que tenho o sentimento de inacabado. A percepção de que posso fazer alguma coisa...e o que eu posso fazer está relacionado intimamente com o OUTRO. E, fazendo com e pelo outro, faço por mim. Porque, talvez, eu seja isso mesmo: uma parte incompleta que busca caminhar ereta. E a tal da, digamos completude, se dá quando compartilho o que sei, o que penso, o que desejo, o que sonho com alguém...e quando isso faz diferença.
"o que sei, o que penso..." oras, então eu sei, não é? Não sei se sei...
Sou incompleta, inacabada mesmo, mal humorada, bem humorada, insistente, alegre , triste, solitária na multidão (e gostando de ser), ...lembro da Sandra e das meninas amigas de minha antiga escola e penso na frase "é difícil evoluir..." rs
Agora eu percebo que já morri, mesmo. E que a "antesala de ..." é aqui em casa, onde estou, sentada ao lado da Nith, da Samantha, ouvindo Loreena McKennitt e escrevendo em meu notebook. Já morri diversas vezes e sei que muitas outras virão. Afinal, precisamos evoluir, não é?
E o que eu faço, o foco, a falta de foco, a insistencia, o silêncio, a observação o sentimento de impotência por vezes...tudo isso faz parte de meu aprendizado "nessa lição".
Interessante ter certezas e dúvidas...e entrelaçá-las...
Eu agradeço por ter amigas que me entendem e me atendem. Eu agradeço por trabalhar com o que gosto, tendo prazer . diariamente. Agradeço  por eu ter o que acredito que me sustenta em momentos chatos, complicados ...agradeço por ter Fé. Espero, que como os Anjos, nunca me abandone. "Vamoquevamo", como diz a Juli.
rs Mas aí, releio o que escrevi e penso "mas eu sei ser uma peste, também..." Bom... existe a possibilidade de evolução... Vamos trabalhar nisso...
Acho que , agora aos costumes, vou telefonar para Vainir... afinal, amigas já aposentadas são para isso também, não é? Ouvir as elucubrações alheias, com afeto e tolerância, nas horas mais estapafurdias. (mas agora, nem é...) rs Vainir!!! Atende aí!!!

PS: Mas não posso deixar de roubar a idéia da Carmen, outra querida amiga: depois que sair da antesala, ao ser chamada pelo "Coordenador dos Trabalhos" , vou puxar um banquinho, sentar, olhar firmemente e perguntar "Mas Senhor...pra que tanta bagunça, lá embaixo? Não daria para facilitar um pouco...?" Putz! Lá vou eu evoluir , outra vez! Faz parte.

terça-feira, 1 de março de 2016

"Para onde eles vão"



Escolhi escrever ouvindo Halo, da Beyoncé... gosto desta melodia, relembro um clipe onde ela canta para os internos de um hospital. 

Mas relembro dela e de sua voz apenas como introdução. O que me "martela a cabeça", neste momento, é uma cena e uma pergunta. A cena é do filme Temple Grandin onde a própria, ao presenciar a chocante cena do abate de uma vaca, no matadouro, pergunta "Pra onde eles vão? Pra onde eles vão?"

Temple, para quem não sabe, não é apenas personagem de seu filme: ela é uma estudiosa, importante referência nos EUA e no mundo ... Temple Grandin é autista e suas contribuições são reconhecidas internacionalmente. Mas, agora, o mais importante é o "Para onde eles vão???"
"Para onde eles vão" pode servir para quem parte mas, de outra forma, também para quem fica... Para onde eles vão? Para onde nós vamos?
Fevereiro foi um mês punk...Começou com celebração à Vida, com despedidas da própria, com testemunhos de intolerância e violência... Para onde estamos indo?
Aqui no RS, no momento, temos um governo incompetente , entrelaçado com omissão, descaso pela população e  uma gigantesca insensibilidade: o governador e seus escolhidos não sabem , não desejam e nem cogitam "se colocar no lugar do outro", para sentir o que não sabem... Como disse, ao ser entrevistado, a pessoa que ocupa o lugar de Secretário da Segurança ..."não vou nessas vilas..." O repórter perguntara se ele suporia abandonar sua escolta de segurança e ir até uma das vilas de Porto Alegre, marcadas pela violência. Infelizmente, sua resposta mostra o despreparo , a insensibilidade de alguém que só deseja se dar bem. Os outros que se "lixem". Qual foi mesmo uma das primeiras ações do novo governador ao assumir ? Aumentar o seu, do vice e outros salários... ação que foi revista depois, devido à repercussão na mídia. Acreditam que foi revista, mesmo? Que privilégios "para os seus" não foram distribuídos?
Bem...mas volto à pergunta inicial..."Pra onde eles vão?"

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Penso e repenso ao lembrar de uma pessoa chamada Humberto, de outra chamada Íris, de mais uma chamada Mara, de um pequenino cuspidor lá da escola onde trabalhei, de uma amada adolescente, aluna de minha turma de estágio... penso na Dora, que tanta falta faz para uma de minhas queridas amigas...penso na mãe da Regi, na minha mãe, na mãe da Juli... Então relembro de meu padrinho e da absoluta certeza que tive de que sua partida se realizara porque ele não aguentaria viver no mundo para onde estamos indo. Sua saída se efetivou com o propósito de preservar sua gentileza, sua sensibilidade exacerbada... acho que para poupá-lo.

Minha madrinha, sua companheira por mais de 50 anos, confidenciou-me, sentada em sua cama, meses depois da morte de seu companheiro: "Doca, ontem teu padrinho veio até aqui. Ele sentou nessa cama e me disse que em breve vem me buscar..." Naquele momento, dei umas batidinhas consoladoras na mão enrugada à minha frente dizendo que  não pensasse naquilo, que ainda tinha um tempo conosco, com seu filho, com seus netos...que em breve, sim, faria uma viagem para passar o Natal com todos eles...que a Vida continuava e que meu padrinho , certamente, desejava que estivesse em paz. Três dias depois, na noite de Natal , ela se despedia dos netos e filho dizendo que estava cansada e ia tirar um cochilo. Dormiu e não mais acordou entre nós. Se foi, como o prometido.

" Para onde eles vão?"

Ação e reação... para onde vamos está ligado intimamente com nossas ações, com o que fizemos e com o que representamos.
Olho as pombas enfileiradas no fio de um poste em frente à janela de meu quarto e lembro da Íris e da conversa que teve , no PEAD, comigo e com a Iliana... As abelhas e as pombas (e os filhotes de pombas por mim jamais vistos) sempre me lembrarão da risada de nossa querida mestra e dos seus comentários bem-humorados. Mas lembrarei, em outros momentos de sua suave elegância e de sua grande generosidade .
Não estou triste, aviso. Estou apenas saudosa...saudosa de quem conheci e foi importante em minha jornada...das pessoas que, de diferentes formas, me ajudaram a crescer, a me transformar em quem sou.  Para onde elas foram? Para um lugar  melhor, certamente. Porque era chegada a hora de sua partida, porque seus serviços, sua experiência, sua generosidade, sua capacidade de transformar...eram necessários e solicitados em outros lugares.
E nós, que ficamos? Para onde vamos?
A resposta é outra...ficamos porque ainda temos que aprender, compartilhar, errar, acertar, perdoar, sermos perdoados... ficamos porque não chegou nosso grande momento. E quando ele chegar...que seja pleno, belo e justificado.
Penso nas memórias que temos ou perdemos e lembro de mães que não conheci ...mas de suas filhas com quem convivi (e ainda convivo) Penso na Regi, na Juli e na capacidade que ambas possuem de perpetuar a Vida através do que aprenderam, através de suas filhas, netos...através de incontáveis atos de generosidade e sensibilidade...
Penso na Val e em sua força através de aparente fragilidade...na sua tristeza neste momento...e desejo que fique bem...que continue celebrando a Vida com bom humor...com alegria, acompanhando sua pequena...
"Para onde eles vão?" Para onde forem necessários...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Para a "amigairmã"...


Começou a arrumar as malas devagar..a cada dia, colocava um item que julgava muito necessário: lembranças da infância, saudades do pão quentinho feito por sua avó, um sorriso recebido ao demonstrar que já não tinha receio de cair da escada, o primeiro e significativo olhar, o primeiro beijo... a imagem de um pequeninho embrulho entregue por uma enfermeira no hospital, o orgulho de ter gerado, a alegria de ter acompanhado, a satisfação de ter guiado...
O tempo ia passando e o conteúdo da mala se agigantando... Em uma noite, resolveu singularizar o Tempo e com ele, conversou por algumas horas. O Tempo sentou na cabeceira de sua cama e contou-lhe um de seus segredos. E ela sorriu e acenou afirmativamente.
No outro dia, começou a desfazer as malas, recolocando tudo em diferentes lugares. Na manhã seguinte, enquanto sua pele se rejuvenescia e seus olhos ganhavam outro tom, a família observava o contrário: olhos que já não se abriam, dedos que pouco  se moviam, uma pele que dormia...
Na outra manhã, todas as malas estavam guardadas e seus pés descalços formigavam convidando-a a levantar. Resolveu ficar mais um pouco, respeitando o prazo limite confidenciado por seu amigo.

Em poucos dias , o corpo estava mais leve, pronto para alcançar grandes e necessários vôos. Seu cabelo voltara a ter o brilho e comprimento da adolescência. Sabia estar pronta mas aguardou. Passou a tarde com uma de suas mais queridas e próximas  amigas. Riu discretamente ao perceber que sua companheira não percebera a contribuição mágica do Tempo. Mas, feliz por estarem novamente juntas, enovelou-a em seu manto de amizade e gratidão. E, neste momento, teve a certeza de que, mais uma vez, iriam se reencontrar e celebrar o que jamais acaba...
Horas mais tarde, partiu. Deixou o corpo, as malas, as roupas, as lembranças, a saudade e a alegria pelo que vivera e fora tão bom. Na saída, já tinha outra matéria, que preferiu visualizar em corpo:  jovem, atento, aberto para novos caminhos...Foi caminhando...depois, resolveu pedalar...


E logo, ao passar pelo Tempo que lhe acenava sorridente, percebeu não mais precisar da bicicleta: recebera de volta o que deixara guardado em outros tempos. Agora, ela já conseguia voar!



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Na retaguarda...


Pois é o segundo dia que, ao acordar, dou de cara com um comprido focinho me aguardando. Desde o primeiro, percebi que  minha companheira de tanto tempo queria me dizer algo em especial...
"Estou cansada..."
"Sei..."
"Sério, Bia, estou cansada... nem preciso explicar em detalhes..mas meu momento de partir não está muito longe. É preciso que te prepares..."
"Sim...eu já venho percebendo...teus olhos já são de despedida, estás mais dorminhoca e não consegues correr mais...e correr era a tua alegria maior, lembra? Samantha já percebeu, também, não é?"
"É, já faz um tempo que a doida me sufoca com lambidas insistentes,  me dá patadas quando estou descansando, para se certificar que ainda estou... e o mais incrível,  tenta dormir comigo, na minha caminha. Mais do que os outros, ela vai sentir minha falta. Mas sabemos que é uma outra possibilidade de aprendizagem, não é?"
 "Sim, vou ficar de olho nela. Não te preocupa."
"Fizemos uma bonita parceria, não é?"
"Sim, Guria, fizemos. E espero que o tempo que ficaste comigo tenha  te possibilitado um novo e belo recomeço... Guria, te agradeço todos esses anos, teu carinho, tua presença, tua companhia serena em momentos alegres e em outros, mais difíceis. Aprendi muito contigo... vou sentir tua falta quando fores. Mas dá para esperar mais um pouquinho?"
"Vou fazer o possível, Bia...vou tentar."
"rs Aprendi a falar com os olhos contigo..."
"E a Nith, também..."
"Nossa! Foi contigo que ela aprendeu?"
"Aprendeu e aperfeiçoou a técnica..."
"Verdade!"
"Está chovendo, não é?"
"Sim, hoje o Rodrigo não vem para passear com vocês. O máximo é darmos uma volta na quadra mais tarde e , de novo, antes de sair para trabalhar."
"Ok, essas saídas já não me fazem tanta falta. Prefiro dormir enrolada no meu edredon."
"Guria, eu te contei que quero trabalhar um dia com cuidados paliativos? Que é isso que me falta?"
"Não precisou contar. Eu sei. Além disso, eu não parto à toa... E espero que tenhas tempo para fazer o que desejas. Mas sabes, que se não conseguires todo o tempo que precisas..."
"Sim...eu sei. Terei outro tempo."
"Bia..."
"O que é?"
"Melhor deixar essa conversa para mais tarde. Olha quem está se espreguiçando, ali no tapete..."
"O Júnior!"
"Vai acordar, subir na cama e ficar nos provocando até que todos se levantem... só não se mete com a Nath..."
"Então, tá! Mas fica mais um pouco...enquanto não sentires dor...Pode ser?"
"Pode! E Bia...uma última coisa...eu aprendi a te amar. Aprendi a ser paciente com tua  inexperiência em algumas questões. Aprendi a correr em círculos ao teu redor só para te ver ficar tonta...e para receber um abraço apertado, depois. Isso foi bom!"
"Eu aprendi muito com a tua chegada, tua presença e companhia...e vou aprender mais ainda com tua partida. Um amor que é eterno."
"Júnior acordou! Argh"
"Argh! rs"

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre corações postiços...

Rubem Braga, Fernando Sabino... fico pensando numa nova geração que , talvez, nem saiba quem é o Fernando e o Rubem. Que pena...
Mas o fato, não é esse...é sobre o tal menino que nasceu em Budapeste e o outro, o paulistinha. E eu não recordava da crônica muito bem mas relembrava o sentimento que tive ao lê-la pela primeira vez, há muitas décadas atrás. Incrível! Aquele sentimento foi guardado, arquivado em uma das "caixinhas do meu interior". E ela se abriu faz pouco tempo...
Fiquei pensando  "mas o que dizia o Fernando Sabino, sobre o menino que nasceu com o coração fora do peito?"  Sobre esse menino, ele não disse nada. Quem disse, quem falou, quem escreveu e gravou em mim...ah, foi o Rubem Braga.
Mas por que lembrar disso, agora? Qual o elemento catalisador?
O nome da crônica é "Como se fora um coração postiço".
 "Saladadefruticamente" falando... esse fevereiro tem sido muito especial. Através de contatos, compartilhamentos, cutucadas pela rede, conseguimos que o o casal de manos cinza (vide Juli, Dulcídio e Louise) finalmente ganhasse um lar. Vão juntos para Garopaba...com as nossas bençãos e desejos de muita felicidade.




E, enquanto eu procurava informações sobre como alimentar 3 gatinhos órfãos que nem tinham aberto os olhos, Nith, nossa cadelinha petterapeuta, charmosa, que adora ser o centro das atenções e distribuir carinho...pois bem, ela se ajeitou, aconchegou os filhotes e amamentou-os como se fossem seus. Sim, até leite ela conseguiu produzir...E tem feito isso, sistematicamente, sempre que os filhotes acordam famintos. Mesmo com mamadeira complementar, que agora, bem instruídos, oferecemos.
E aí, nesses momentos, sempre vinha lá de longe...da minha adolescência, um sussurro... "Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito..."






Observava Nith lambendo os gatinhos e ouvia, "na doce Budapeste", "coração fora do peito"...
E com os dias passando, a voz teimava em sussurrar mais coisas... "Dr. Merege"... "em São Paulo, há 7 anos, também nasceu uma criança assim...", "seis horas, sete horas... nove horas..."
Noite dessas, acho ontem, conversava com a Juli e comentava "Salvamos mais dois, não é?"
Isso é tão bom, que vicia..."salvar pequenas e indefesas vidas". Vidas que, para muita gente, nem existem, que fazem parte de uma uma espécie diferente e menor, segundo alguns. Pois quantas pessoas passam por bichos abandonados, machucados e famintos e não  os enxergam? Para dizer o mínimo, pois há os que nem deveriam enxergar, mesmo...
Dos pequeninhos, Anita já tem uma tutora chamada Liane...e o Félix ( o amarelo) vai para a casa da querida Lisi, mãe do Pedrinho. E a menor, chamada Nithinha...vai ficando sob as lambidas e cuidados insistentes da mãe Nith.
Uma cachorrinha que adotou gatinhos... que não liga para diferenças ou supostas impossibilidades criadas por gente boba: adotou-os e são seus. Nith é mãe.
E, bem agora, me lembrei de uma história que eu adoro contar: Coração de galinha. Nessa história, os órfãos são cachorrinhos e a mãe é uma "penosa". Quando um deles resolve buscar a história de sua origem e conhecer sua primeira mãe...bem, aí... eu poderia , certamente, ouvir uma voz sussurrar alguma coisa. O Livro é muuuito bom. Preciso reencontrá-lo, na biblioteca da escola...





E eu sonhei que estava sentada em um banquinho conversando com um santo chamado Expedito. E ele me perguntava "Doca, do que tu gosta mais? De gatos? Ou de ajudar gatos? De cachorros? Ou de ajudar cachorros?"
Eu, intrigada, respondia "Mas não é a mesma coisa, Expedito? Eu gosto e ajudo. "
"Pois não é, Doca. Tem gente que gosta. Dos seus. E  só..."
"Ah...então...eu gosto...e não consigo separar uma coisa da outra...mesmo, não sendo "meus", se tornam minha responsabilidade...eu preciso salvar, ajudar, encaminhar...sempre que é possível. E nesse processo, tenho conhecido tanta gente boa... que supera os que nem precisam ser lembrados..."
E o Expedito ria e dizia "Tá na hora de relembrar tudo, não achas? Tá na hora de saber do paulistinha, que nasceu com o coração fora do peito..."
Acordei. Ajudei a Nith com os filhotes. Dei mamadeira. Sentei frente ao notebook e pedi ajuda ao Google: "Nasceu, na doce Budapeste, um menino..."
E ele, respondeu. Li e reli a crônica que há mais de 30 anos ficou gravada em mim. Descobri que às nove horas, morrera o menino com o coração fora do peito, que o Dr. Mereje era como muitos de nós, mas diferente de muitos outros, graças aos céus.
Conta o Rubem, sobre o menino que fala com os anjos..

 Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

- Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

- Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Pois eu ousaria: escreveria uma carta celeste ou melhor, mandaria um email ou  WhatsApp Celestial para o menino contando:
Menino paulista do coração fora do peito...
Nem todos são como o Dr. Mereje, sabe.
Tem muita gente que, do mesmo jeito que você, nasceu com o coração pulsando fora do peito. E estão em todo o lugar. E aprenderam a abrigar o coração dentro de suas vestes, sim. Mas deixam que ele trabalhe sempre em função  da generosidade e compartilhamento. Tenho conhecido muita gente que é assim.
Dia desses, um livro me chamou...dia desses, a parede de um prédio na Ramiro, me gritou... e uma adolescente bateu à minha porta pra falar de 3 gatinhos... Ontem, uma amiga me buscou e me ofereceu uma possibilidade...antes disso, uma pessoa chamada Vera me reencontrou... Tanta gente com "coração postiço" brilhando e pulsando feliz... 
Menino com o coração fora do peito que o Rubem Braga imortalizou...eu acho que te conheci...




PS: Doca era meu apelido de infância.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Links

Antes de qualquer outra coisa, é preciso destacar que:

1) Há mais ou menos uns 10 anos eu não via uma querida professora da rede, chamada Vera. Assessorei a escola em que ela trabalhou no início dos anos 2000 e um pouco mais.

2) Uma criatura que não conheço e nem necessito, adotou dois gatinhos, ainda bebês. Depois de mais ou menos 6 meses, resolveu que não gostava de gatos porque eles soltam pêlos e sobem nos sofás. Colocou-os para fora de seu apartamento, do prédio e de sua vida. Mas os dois, não entenderam nada e ficaram dias rondando e pedindo para entrar. Cansados, buscaram abrigo no pátio de um apartamento térreo. A dona do apartamento, não gosta de gatos também, mas está na praia, curtindo as suas férias. Os gatinhos tomaram conta. E deles, uma outra vizinha e eu. Nós duas temos gatos, cachorros e mais nenhum espaço físico. Mas não nos furtamos de fazer o que é possível.

3) Guardo o que considero a "melhor parte de mim" para meus alunos, meus bichos, minha família, meus amigos e para quem precisa. Mas não tenho muita paciência com gente chata, cruel e ignorante. Deveria? Não sei... mas o que sei é que, por conta dessa minha "impaciência" , brinco com duas queridas amigas e colegas de trabalho  dizendo da dificuldade que terei para evoluir por causa de certas criaturas que teimam em "causar" no meu caminho. rs Claro, coloco a culpa nos outros...

4) A acupuntura me faz muito bem.  Eu gosto muito da minha médica acupunturista. Fazia muito tempo que não a via e que não era "espetada" por suas agulhas.

5) Amo nadar.

Agora, vamos às outras coisas:

Quarta-feira, saí da sessão de acupuntura e fui caminhar pelo shopping, ali perto. Aos costumes, fui parar dentro de uma  livraria. Circulei, li muitas orelhas de livros, anotei alguns títulos mentalmente e já ia saindo quando um deles me chamou. Sim, um livro me chamou: Psiuuuuuuuu....
Voltei e fiquei frente a frente com ele, decidindo o que fazer. E ele, baixinho, dizia: me leva, me compra...  Comprei. Levei. Em casa, guardei-o para uma futura leitura.


A filha da dona do pátio onde os gatinhos se abrigaram voltou da praia. E expulsou os dois. E aí, uma nova e bela corrente começou a se estabelecer: Patrícia, Kati, Luísa, Juli, Cassalina, Louise, Dúlcídio, Bia...
Cada um do seu jeito, com suas possibilidades... O fato é que os bichanos foram recolhidos, tratados, e agora, em lar temporário, esperam uma nova vida. O macho tem perfil para petterapia: apresenta a docilidade e tranquilidade necessárias, entre outras coisas. Tudo isso, foi ontem. E eu resumi , bastante. Mas de ontem, o que levei para casa foram algumas palavras e questionamentos sobre o "viver livre, na natureza, nas ruas...já tendo nascido na rua" e o "viver nas ruas, após um abandono...",entre mais outras coisas.







E, lendo as postagens do face, encontrei as palavras que resumem o que penso. Elas antecedem o relato sensível e generoso da Deputada Estadual Regina Becker. A postagem se chama As fitas do adeus aos 120 cães .

Ontem passou. Hoje é agora. E , pela manhã, fui até um laboratório perto de minha casa, realizar exames. E o improvável aconteceu: o laboratório não atende mais meu convênio. Um pouco incomodada, subi numa lotação e fui para o laboratório do Hospital Moinhos de Vento. No caminho, lembrei de ter pego um livro para o tempo ocupar o tempo de espera. Comecei a ler na lotação e já na primeira página uma interessante surpresa:  fora escrito para uma pessoa com o meu primeiro nome: "Antes de começar o livro, Maria, quero falar de duas preocupações..." Ok! Pode falar... E falou sobre várias coisas, entre elas, uma palavra conhecida: evoluir. (Viu, Sandra?)
Desci e, caminhando em direção ao hospital vi uma pintura nos muros de um prédio na calçada oposta com os dizeres "Cuide da Vida." Cliquei.




Enquanto descia a lomba da Ramiro, pensava no artigo final do meu segundo Pós. O tema trata da viabilidade de um projeto, através das ações de um gestor escolar. E aí, eu lembrava da sensibilidade necessária, da sensibilidade e preocupação que vi, ontem, nas palavras e gestos da Kati. Relembrei da Luísa que retornou ao nosso convívio , o que me deixa imensamente feliz. Enquanto caminhava, lembrei do Rodrigo que recebeu outra oportunidade de continuar conosco, lembrei de sua sabedoria e generosidade com os cães ...com a minha turma, entre tantos. Lembrei da Cassalina, sempre ajudando...de sua disposição e preocupação com os bichanos.  Lembrei do trio Juli, Louise e Dulcídio...fazendo o bem, levando os gatinhos e organizando um "quarto cruz vermelha felina", para que ambos se recuperem em paz e com afeto...


 Pensei num pastor chamado Sombra e desejei que minhas boas energias fossem até ele e ajudassem  a acalmar seu desconforto... Saboreei o gostinho de saudade da bela turma da escola: colegas, mães, alunos... e cheguei no  laboratório. Fiz os exames e , depois, comecei a subir lomba da Ramiro, em direção à Independência.
Na esquina da Independência,uma mulher retira os óculos escuros, ao me ver e sorri. "Tu és a Bia, não é?"
"Sou!"
"Eu sou a Vera".
Vera é a professora de ed. infantil que eu não via há anos. Lembro de seu trabalho amoroso com os pequenos, de sua sede por fazer mais e melhor e da alegria ao me receber em sua turma. "Vera dos pequenos e das Artes" me conta que se aposentou mas que continua trabalhando com Arte , em escola privada. Conta que está feliz, que esteve doente e se curou. Na despedida, abre a bolsa e, timidamente, me oferece "Posso te fazer um carinho te dando um  livro ?" "Claaaro" E ela me presenteou, disse que tinha a certeza de que deveria me reencontrar, me abraçou e se foi para algum lugar. O livro...é esse...

Então, tá. Abençoados links que a Vida nos oferece...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Laurinha

Vez por outra, penso se meu Laboratório não esta chegando ao seu fim. E esse pensar está intimamente ligado ao cansaço que sinto ao rever cenas que considero barbárie...ou  , pela milésima vez, lidar com situações de cruel abandono e maus tratos.
Penso que não é por acaso que  gosto tanto da música Fix You. A Vida é uma salada de frutas: doce ou amarga. Enquanto visualizo fotos enviadas de uma cachorrinha chamada Laurinha (a parte amarga, infelizmente) assisto na TV o maestro João Carlos Martins. Admiro profundamente a história de vida desse cara... Dor e Arte..Dor e Superação... Dor e Recomeço..  (agora lembrei do Alexandre Brito e seu carinho pelas palavras... Dormir... seria possível  , através da dor, ir? Dormir...dor...ir...)

Mas, agora, "saladadefruticamente" falando, relembro de Adorno, por causa da barbárie e do grupo Young@Heart, por causa do documentário que assisti há tempos atrás...

 
No documentário, podemos saber em que condições esse grupo fez a apresentação acima. Sabemos que se despediam de um colega que partira...que dormira...que já não sentia dor...que fazia outra caminhada...
Ano passado, há poucos dias, recebi uma solicitação  que muito me incomodou: uma pessoa que conheço pedia ajuda para conseguir um lugar para sua cachorrinha pois ela "está velha e rabugenta, não querendo ficar sozinha" em casa enquanto a dona trabalha, "já não dá mais pra ficar...mas eu a amo profundamente". Ora! Me poupe! Por anos, essa bichinha  doou o seu melhor...e agora, já não mais serve...
Revi as fotos dessa pessoa, em momentos familiares, com o bichinho no colo... Enfim, resumindo: começo 2015 com uma limpa em meu facebook. E, Não!, não ajudo uma pessoa se DESFAZER de um ser. Pedir-me isso é me ofender, procurar briga... enfim, dificultar minha evolução!!! É mostrar que não me  conhece...
Logo depois, pessoas com a maior boa vontade, compartilham fotos de Laurinha, contando o seu caso e solicitando ajuda. E é aí, que me sinto tão cansada e impotente ...
"Crianças" amarraram bombinhas na boca da cachorrinha e estouraram. Não tenho coragem de postar aqui as fotos. Mas o link...
Hoje eu soube que a Laurinha está melhor: recebeu ajuda, fez cirurgia e está sendo acompanhada por anjos em forma de gente.
Mas fico tão triste e cansada ao pensar nas "crianças" que fizeram isso...que estão em evolução ao inverso, que , provavelmente, cometerão outras infrações, se não encontrarem melhores possibilidades pelo caminho... Fico pensando no pouco que consigo fazer e tenho pressa... mas ontem, li e postei que "Devagar também é pressa..." E, talvez, eu possa acrescentar "E tudo é evolução."
Aí, continuo minha caminhada na certeza de que contribuo para que crianças e adolescentes vivam outras possibilidades...melhores possibilidades. Com respeito ao próximo e a si mesmo.
Hoje eu soube que Rodrigo, nosso amigo que passou um tempo na UTI, recebeu alta. E sei que o seu retorno foi uma grande batalha de muitos e é uma demonstração de que "ainda há o que fazer".
Eu pergunto e tenho a resposta, linhas depois...
Então tá: "bora" continuar a encontrar lugares, pessoas, a estender a mão, oferecer ração, brigar, insistir, acompanhar meus alunos amados, reclamar, sonhar com uma casa com pátio, realizar sonhos, testemunhar o que não gostaria,dizer o que talvez não deveria (mas que bom!!! só que sim!!!), ... bora...  tenho pressa e sei que, por vezes, vou com vagar...e que continuo... Silencio algumas vezes mas, por dentro, estou a gritar... E sei que há quem esteja a escutar...

sábado, 27 de dezembro de 2014

Natal ...ou Receita para Amenizar Saudades


Pois então... sabem aquelas fotos onde há uma árvore, luzes piscando, presentes e toda uma expectativa e energias positivas ao seu redor? Podem chamar de foto de árvore de Natal, foto natalina... a foto carrega o significado...
E sabendo o significado, considero essa foto o verdadeiro Natal. Bem...essa e mais algumas...


Filha, mãe e pai ali estavam, no pátio de nossa escola, generosamente, fotografando nossos pet terapeutas e seus irmãos. E a alegria em compartilhar, em oferecer era evidente. Dulcídio já havia fotografado Nith e Samantha por ocasião da premiação na FAPA. E suas fotos nos proporcionaram um contato muito legal e a proposta de uma parceria.
E novamente ele, Louise e Juli promoveram um momento como esse: de doação, profundo carinho, amor ao próximo e comunhão.  Aí eu digo, "então é Natal".
Volto pra Juli, daqui a pouco...mas preciso mostrar outra foto natalina:


Mães da Oficina, Sandra, Priscila e eu: celebrando nosso encontro, nossa junção de forças, sonhos e ações. Natal!
E mais outra:

A Equipe e os Pets! O Natal acontece no dia a dia: através de amizades que construímos, de parcerias, de momentos especiais que vivemos. Essa foto retrata um de meus mais belos momentos de 2014. Então, realmente, é Natal.

Agora eu volto para o meu foco inicial: a Juli. Dormi com a satisfação de olhar uma caixinha, ler uma carta e segurar um presente recebido. Na verdade,os 3 são o presente: a caixinha (maravilhosa) , a carta(sem palavras...)  e o chaveiro especial. Dormi e acordei no outro dia. Lembrei de tudo isso e do Coldplay, que eu adoro. Mais especificamente de uma música.... Fix You. E achei que ela tinha que ser ouvida pela Juli...


E agora , eu busco a segunda pessoa, eu singularizo para compartilhar uma receita, Juli:

Ouça muita música e relembre muitos melhores momentos.
Continua fazendo o teu melhor: através  de tuas ações, do jeito com que apresentas a Vida para uma linda pessoa chamada Louise, perpetuas o espírito de quem te faz falta.
Mas o fazer falta está relacionado com saudades e sentir saudades é afirmar que os bons momentos estiveram conosco e que,... de outra forma vão continuar. A saudade continua conosco e vai se modificando, deixando que a dor vá embora e que as lembranças nos tornem mais alegres, mais felizes.
Vive intensamente e não esquece que , para qualquer dificuldade, como na música, "luzes vão te guiar para casa" e quem nunca se foi, de alguma forma, vai te ajudar...sempre.
Juli, nossas mães estão em nós, parte delas... quando eu salvo um cachorro ou gato, quando saio á noite para oferecer comida a um bicho com fome, quando eu teimo e insisto até conseguir...tudo isso é minha mãe. Eu não sou ela, mas tenho muito... e o  que faço, atualmente, é agradecer e continuar fazendo o meu melhor. Tenho  a certeza de que  toda a trajetória percorrida é o caminho de volta para nossa casa, com os nossos, que nos fazem bem. Que venha 2015! Que nos desafie, nos canse e nos conforte , pois somos muitas: passado, presente e o que virá.
Bjks!

sábado, 12 de abril de 2014

Então...

Ao contrário de alguns, eu atendo à pedidos!
Reportando problemas para o Google!

domingo, 12 de maio de 2013

Resgate

Esse post era para ser sobre mães, genéricas e similares. Era. Talvez, seja. Talvez, não. Dependerá da trilha que vou encontrar. (trilha musical)
É fato que estou cansada, ultimamente. E tenho sentido vontade de mudar alguma coisa... ainda não sei o quê. Procuro, nas últimas semanas, algo que me impulsione, que justifique minha permanência neste tempo e espaço.
Cada vez mais, sinto a fragilidade da Vida, o descontrole de seres ditos humanos, a indiferença em relação ao sofrimento alheio... pena... E vejo isso relacionado com a Educação que temos ou não temos, com movimentos sociais, com políticas públicas. Acredito que estamos em falta conosco...
E o improvável aconteceu: encontrei a trilha! Vou de Beyonce!

Pois é...
Acho que uma breve imagem do vídeo já começa a me dar a resposta.




No mês passado, enquanto as vozes do American Idol me acompanhavam na sala, ouvi um estampido e um barulho de pneus de um carro que saia da frente de nosso prédio. Eram quase duas e meia da manhã e o corpo do segundo taxista executado em Porto Alegre, fora deixado em nosso calçada. Eduardo era o seu nome, fiquei sabendo depois. 
Quando o vi, pela janela, pensei "Mas é um menino..." Não era, mas parecia. Ainda hoje consigo , claramente, visualizar mais tarde os policiais brigadianos cercando o corpo, outros fazendo uma espécie de corrente humana frente ao portão, impedindo entradas e saídas de quem , por acaso, quisesse saciar mais de perto sua curiosidade.
Atentamente, sempre da janela, acompanhei o trabalho da perícia que veio horas depois. E foi quando vi o fotógrafo se ajoelhando ao lado do rapaz que percebi que ali não estava mais uma pessoa deitada: era só mais um corpo...estatística. Será?


Não tenho conseguido dormir tranquilamente, deste então. Acordo com qualquer ruído, já relembrando um sábado infeliz para tantas famílias... tantos filhos, companheiras, amigos...

Foi aí que a idéia de mudar começou a tomar contorno. Inicialmente, mudar de casa, de cidade, de ir para um lugar  mais tranquilo. E esperei   uma trilha adequada para isso ...


Acho que "perto de uma mata e de um ribeirão", talvez, por algum tempo, eu ficasse mais feliz. Mas só por um tempo...e não muito longe. Então, defini que vou pensar a respeito e, se possível, concretizar essa mudança dentro do tempo que já estabeleci.
Mas, por enquanto, ainda estou aqui. Ainda trabalho na escola, ainda circulo pelas ruas de uma cidade cada vez mais urbana e confusa, ainda tento dormir sem lembrar-me da violência que deixou suas marcas em nossa casa.
A música de Vítor e Léo eu ouvi ontem, em uma seleção feita, com as canções prediletas das mães de nossos alunos. Enquanto confraternizavam com os filhos e equipe da escola, ouviam a sua seleção musical. Gostei da melodia e resolvi procurar no youtube. Era a trilha "da fuga da cidade".

Hoje à tarde, receberemos novamente a visita dos futuros pais do Bolota, um cachorrinho que resgatei, vítima de negligência. Em junho, Bolotinha irá para sua nova casa. Assistir ao carinho que este jovem casal dedica ao "filho escolhido" me preenche de alegria e de esperança. Sensibilizada, acompanho o cuidado que possuem ao pegá-lo no colo, ao abraçá-lo e aproximá-lo de sua nova irmã, Moçamba, uma linda mix de Border Collie.
Como li no facebook da Ana e de várias outras pessoas, "Mãe de cachorro, também é mãe." E eu concordo. E mãe de gato, de porco, de cavalo e de terneirinho , também.
Agora lembrei da Emeraci, amiga protetora, que hoje, no dia das mães, está participando de uma feirinha de adoção. Tentando encontrar boas mães para filhotes maltratados e abandonados.



 Quando tento me definir penso que sou professora, contadora de histórias e protetora , cada vez mais, uma pessoa que resgata animais do abandono, de maus tratos e da indiferença. Sou muito mais, eu sei, mas isso já me define e satisfaz...

Amo meu trabalho e também, a possibilidade de proporcionar  uma vida melhor a outras vidas. Relembrando o vídeo da Beyonce, foi no "um minuto e quatro segundos" do mesmo, que encontrei uma de minhas respostas. Até porque já estive muitas vezes num local como aquele, rindo, contando histórias e fazendo outras pessoas esquecerem, por um tempo, de suas aflições. É...acho que sei fazer isso, também. Mas preciso me concentrar bastante. E estar bem...e ter a certeza de que esses são os melhores resgates.
Na verdade, a resgatada sempre sou eu. Quando vejo meus cachorros brincando, quando percebo um sorriso de resposta de um aluno, ou mesmo um relance de olhar, quando conheço pessoas como a Emeraci, como a Luísa, como a Ana e o Ricardo...pessoas que fazem o bem para além de seus corpos, de suas casas percebo que tudo isso é conhecimento e oportunidade.
Então eu me resgato todos os dias, com meus alunos, no meu trabalho, com as opções que faço, com as vidas de quatro patas que encaminho. E é pouco, eu sei.


Minha mãe se chamava Judite e morreu há mais de 10 anos. Antes até, se considerarmos que o Alzheimer nos retira mais cedo, a pessoa que o possui. Permanece o corpo, que vai se esvaziando... Minha mãe se chamava Judite e gostava de gatos e cachorros. Acho que não tanto quanto eu. Ainda hoje, sinto falta de nossos melhores momentos. 

Minha mãe me deixou como legado a capacidade de indignar-me e de fazer alguma coisa. A vontade de ir além, de mudar, de buscar o que falta, de caminhar sabendo que, muitas vezes, a chegada não é o principal.
Com ela, aprendi a me resgatar.
E a Beyoce canta Halo, Halo, Halo... 
Em todos os lugares que estou olhando agora
Você me cerca com seu abraço...

Eu sempre soube. Obrigada.

Um beijo especial para as mães Taís, Vainir, Adriana, Lúcia, Ale, Rejane, Márcia (todas elas!rs),Silvinha, Lu Mosqueteira, Ada, Gi, Sandra, Lu, Íris, Bea, Denise, Ilsa, Magali, Angélica,Leila, Keila, Rita, Fátima, Patti, Luísa, Dalila, Giovana, Carlinha, Marília, Maria...